26.8.12

Blanche - II

*  Aqui  terá o conto completo!

Dois anos atravessados sem grandes novidades, apenas a vida passando e carregando o tempo. A cada final de rodízio pentasemanal, a garota desce nefelibata à arteira Estância.
Vai no carroção ao sábado, sempre à tardezinha. Duas horas de solavancos na arriscada trilha tosca, chega ao vale com olhinhos semicerrados, evitando o manto encardido da poeira. 
Blanche "almojanta" e dorme na estância, quando a lua chega a galope. Assim que a manhã empurra o sol, após o desjejum, todos seguem à igreja na minúscula vila Riolama.
O "Lanche de sol a pino" é degustado com os pais, para amainar a indecente saudade. Mais tarde, volta morro acima, ziguezagueando... infelissícima pelo glorioso domingo extinguido.
Seu genitor sobreveio ao lugarejo como mascate, estrangeiro, vendendo e comprando. Apaixonou-se sem limites  (mal de família) pela mamãe, fixou residência e aduziu também da aldeia, a vigorosa sogra viúva.
Forneceu dotes à tribo, em objetos urbanos (subliminarmente comprou a esposa). A sogra auxiliou sobremaneira na adaptação, sempre se desdobrando, e retransiu sua cultura aos netos.
O casal negro da estância, Walacy e Colen, a décadas ali, já não pode trabalhar como antes; foi a Walacy que a garota substituiu na montanha dos caprinos. Ele se sente grato por este peso aliviado, que já lhe fazia trejeitos de agonia.
Eric permanece evasivo, melancólico, e emite algumas orientações a Blanche, pois Scott, mentecapto, tem pouco discernimento para aplicá-las na montanha, no volume impotente das enternecentes ideias.
Ele (Scott) infantilmente serviu de ponte, sem nunca se aperceber, para aproximação grafitada entre a garota e seu único adorado, então é tratado com mimos, feito criancinha de peito, por ela.
A robusta carroça, maior que o mundo, que desceu abundante de queijos especiais e produtos da montanha, retorna martelando a serra com matalotagem para a semana. 
Iniciar-se-á uma semana toda maternal, onde Scott, que de esposo não tem mais que o título, dorme no anexo.  Em sua semana, o trabalho brutal: cortar árvores para manutenção, cavar buracos, fazer muros de pedras, é realizado. Ele é imenso e forte, porém todo descoordenado.
Blanche, mestiça indígena e meio selvagem, adora banhar-se despretenciosa na cachoeira que salta esguiamente em degraus rumo a estância, fincando poços profundos, esfarrapando os rochedos.
Despe-se plena em naturalidade e mergulha, dança, flutua graciosa na limpidez aquática, na mais pura sinergia daquela imensidão vazia de humanos, envolta na cortina de vapores.
Herdou a tecnicazinha de fiar e tecer, tingindo lã com cascas de árvores e pétalas de flores. Seus artísticos e felpudos tapetes são usados como valoroso escambo  na civilização.
Dos países de origem da população branca, todos herdaram seus nomes, que vão se reproduzindo murmurejantes em gerações, por tradição de puxar agrado. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.