31.8.12

Blanche - III

*  Aqui  terá o conto completo!

Mais um ano se irrompe a ombros largos: O genitor, Rob,  informa `a garota que sua idade alterou-se, e 15 anos é data considerável no mundo civilizado. Todavia, desde quando Blanche, a mestiça, se interessa por civilização?
Do que realmente importa-lhe, tudo ela detém: saúde, a cabana, vestuário indígena para a montanha, e "civilizado" para a pradaria,  goza de sombra boa e água fresca, castanhas, mel, frutas silvestres (frescas e desidratadas), carne de caça, alimentos cultivados,  ovos, leite de cabra, ervas (chás).
O que ela possui furiosamente, além das duas famílias, é o seu venerável amado. Ele ali, a cada cinco semanas, desmensuradamente derramado nela!
Trata-se de uma garota com beleza excêntrica e peculiar: cabelos de ébano, tão lisos! Pele cor da primeira enxurrada primaveril...perfume de relva amassadinha aos pés descalços.
Os olhos de jaboticaba, fixos e penetrantes, não são envoltos em mistérios, conquanto de cristalina nudez. Blanche é mesmo transparente ao amarelo da montanha ensolarada.
Os perturbadores traços do rosto, receberam um tempero mais forte daquele imenso pai loiro, que da "escangalhada" população nativa pelo flanco materno! Sincretismo.
Nenhuma moça, por mais que deslise, se faz verossímil a ela no vilarejo. Seu corpo esguio e  pouco alongado, sua serenidade qual espelho d'água, a fazem  absoluta em si. 
Agora, com feições de mulher em carne ao vivo, ficou toda perceptível nas visitas à monótona comunidade. Exala uma jovialidade típica de debutante, negaceando a adolescência. 
Sua autoconfiança, de quem foi formada envoltinha em apoio, a deixa incontestavelmente flutuante, sem descomedidos medos, sem timidez estéril. Namora escandalosamente com a vida.
Senta-se junto às outras mulheres, nos serviços religiosos desta manhã de domingo, onde Charlote, a transcendente esposa do reverendo, desembrulha a maçante celebração, no anexo da igreja.
As vozes em coro, de damas em todas as idades, repicam baixinho nos hinos religiosos, evitando se contrapor à celebração oficial, realizada pelo grupo masculino, na capela, comandada pelo Reverendo Albert.
Hoje é peculiar: O pai conduziu a cremosa irmãzinha Acte, e esta se atarraca à Blanche, temerosa. Mãe e Avó evitam comparecer à civilização, se esquivando de olhares impróprios - afinal, são índias "puro sangue", da reserva.
Ambas foram contundentemente rebatizadas pelo pai com nomes brancos e estrangeiros: Erin para mamãe e Lisa para a avó. Aceitaram, todavia não de bom grado. Entre si, há o tratamento pelo nome original indígena.
Quanto à Blanche, após três anos "casada", já enfrenta um borrado risco do povo plantar-lhe a língua intoxicada na maledicência, pela não prenhes.
É perfeitamente encontradiço mulheres “secas”, contudo a ela junta-se o agravante de não viver tradicionalmente com Scott e seu visível rebaixamento intelectual. Uma voz lhe martela a nuca.
Esporadicamente, especula-se casamento branco, aceitável em casos de penitência religiosa, todavia o fato não se aplica ao “casal”. Estaria Blanche desdenhando o pobre e indefeso Scott?
O céu, num azul qual olhar escandinavo, doma o enrubescedor friozinho cortante, azeitando a pele das estátuas caminhantes nas gotículas de suor. Findo o culto.

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