22.9.12

Blanche - IV

*  Aqui  terá o conto completo!

Blanche jogou-se toda nos seus 16 anos. Mulher feitinha, fragilidade autodemolida. No rodízio para auxiliá-la na montanha dos caprinos, sucedem-se Nick e posteriormente, Tom.
Nick é celibatário, todavia nutre uma arrebatadora paixão secreta por Tom. O fato de não haver-lhe uma migalha sequer de esperança, faz com que entregue-se ao celibato em louvor a este nobre sentimento.
Conhece Tom como à sua própria alma, por terem crescido juntos nos entreveros, e mesmo desconfiando de que ele leia seus pensamentos, nunca ousou confidenciar-lhe tal arroubo.
Tom, por sua vez, é assex convicto e confesso. Prática corriqueira neste local e época, onde o sexo significa casamento e ausência de matrimônio, o natural celibato, naquele olhar de coisa nenhuma. 
Há muitos solteirões (termo da época), e grupos de irmãos (de ambos os sexos), que evitam núpcias. Se esquivam, evadem-se, cautelam-se uns aos outros comunitariamente, embora muitas mulheres desposem-se forçosamente por estranhos arranjados.
Também há casos em que, dentre grande proprietários de terras, os irmãos mais velhos impedem casamentos dos mais novos a qualquer custo, sobretudo para que não haja herdeiros na próxima geração a competir com seus próprios.
A timidez, a falta de pretendentes, a homossexualidade, medo da responsabilidade familiar, da submissão e parição (de altíssimo risco à época), o comodismo e a assexualidade estão imbricados neste emaranhado, onde a razão dialoga com forças abstrusas.
Os homossexuais, aceitos com alguma reserva na colônia, são denominados "invertidos", todavia não podem se manifestar exacerbadamente, devem apresentar-se contidos como as comportadas águas do lago.
Toda menina-moça, após a primeira menstruação, passa a usar o coque, com o cabelo cobrindo as orelhas (obscenas), e lenço preso ao queixo, com as pontinhas a acariciar o colo, sobre a roupa.
Os travestis, mais "estranhos", são estimulados a ser ermitões: construir, decorar, zelar e realizar serviços religiosos numa pequena ermida, afastada do vilarejo, a viver de pequeno roçado e caridade.
São parcos na região, obrigados a levar uma vida paralela, alisadinha no macio da noite. Em público, chegam a se tornar veneráveis, realizando curas, aprofundando-se na arte com ervas medicinais, por sua alta sensibilidade.
Conquanto aqueles que praticam a abstinência sexual indiferente, são apreciados com satisfação, visto não possuírem trejeitos, não escandalizam. São tidos apenas como altruístas eremitas (vivendo sós em local ermo).
O casamento "branco" também é trivial: onde o casal já se une, com votos religiosos para a abstinência sexual, e o Reverendo anuncia pomposamente a penitência à confraria jubilosa!  
Tom não busca sequer atração romântica com as moças do vilarejo, pois qualquer olhar maior, poderia forçar um matrimônio indesejado, como um tiçãozinho de brasa a acender  o palheiro.
Quando interpelado por outros homens sobre a pertinência de contrair uma esposa (e filhos), responde abrupta e ignobilmente que já habita com as cinco concupiscentes manas.
Na verdade, se refere a uma prática também corriqueira, de liberar-se através da masturbação, utilizando os cinco dedos da mão esquerda, mais delicada que a destra (repleta de calosidade pelo trabalho braçal).
Nick sublima suas aspirações amorosas através da religiosidade, da poesia e da  música: compõe, toca e canta na celebração dominical, discretamente como o andar rastejante de um tracajá.
Contempla Tom sempre próximo: gestos, voz, odor, olhar, trejeitos ao se movimentar. Tudo sem nunca tocá-lo, pois sabe que seria repelido, e este ato o feriria, tamanha sua sensibilidade.
Tom daria sua vida por Nick, sem pestanejar; é o único "parente" que possui. São manos de sangue por opção e por ritual. Tudo faz por ele, tudo que o melhor irmão faria. Menos o incesto.  

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