2.12.12

"Gustavo Ioschpe"

Estou desde segunda à noite com esta espinha de peixe encravada na faringe. Fiz o post anterior lambuzado em mel para abrandar. Não abrandou. Melhor regurgitar de uma vez.
Não sou uma Professora, sou apenas meia! Digo no quesito tempo, pois trabalho 30 h semanais na educação e 30 h na oficina do Esposo (e em casa).
Leio este teórico da educação. E gosto da ebulição desencadeante: numa mesma crônica sinto muita raiva, curiosidade, chego a resplandecer com belas palavras, discordo, concordo, fico perplexa, vejo chuva no molhado, falácia, apego a estatísticas (nem sempre confiáveis) e algumas novidades...
Trata-se de um economista (empresário) formado  nos USA, e seu público-alvo principal são os pais e alunos. Fato é que ele pesquisa, investiga e assim abre-se o leque. É a educação esbrangendo suas  fronteiras.
Voltando à raiva: Detesto quando ele escreve "coitadinhos" para os Professores. Sendo com aspas ou sem, "coito" é um palavrão uma palavra de calão nesta região. 
Por outro lado senti perplexidade, ao descobrir por ele, que para cada duas Professoras atuantes, há três profissionais fora de sala de aula (funcionários de apoio e especialistas - muitos "chefes").
E nós com aqueles "depósitos de crianças"? Sabemos que o salário do especialista é maior, já fui coordenadora de creche.
Se em cada cinco pessoas na área de educação, apenas duas são professores, então por que o estigma? É necessário pesquisar onde e como atuam a maioria dos profissionais educacionais, que NÃO trabalham diretamente com os alunos.
Pela porcentagem que vemos nas escolas, os funcionários de apoio não são tantos assim. Devemos investigar a fundo quantos são os especialistas, e qual a remuneração média.
Será que para cada professor, há um especialista por detrás? Isso me deixou intrigada... será que não se encontra aí o rombo da educação, e culpam inadvertidamente os professores?
Será que no restante do mundo, a média é de um superior para cada professor atuante? Mistério...
Voltando à segunda-feira à noite: Minha discordância está no fato dos superiores escolherem a dedo, um texto dele, que justamente ataca apenas Professores.
Se somos apenas 40% dos profissionais educacionais, então parem de nos colocar tanto peso nas costas!
Minha metade Professora é um "peão de fábrica" na educação: Faço trabalho braçal enquanto estou com as crianças.
Ao ministrar aulas e desenvolver conteúdos, também "pajeio" alunos quando doentinhos, carentes, ou mais frágeis, vulneráveis.
Tenho que "torear" algumas crianças quando ficam agressivas, com crises violentas, ou estão "invocadas",  tentando atacar os outros.
Meu coração quase explode, fico exaurida, trêmula, me foge o raciocínio anterior. Quanto conflito!
Saio ao meio-dia da Escola, e minha cabeça gira... Custo a amainar os ânimos e a sentir fome. 
Numa turma de 28 alunos para alfabetizar, há chance de maior heterogeneidade.
Temos casos de deficiência intelectual, disfunções, distúrbios, síndromes, transtornos, dislexias diversas, deficiência sensorial, inteligência "aprisionada" pelo emocional, paralisia cerebral (dito a grosso modo). 
É aí que deixo de ser somente o "peão", para recorrer à teoria. Como lidar com cada variante destas? Onde encaminhar? Quanto eles conseguem aprender? Se alfabetizarão?  
Como dar "aula particular" a oito crianças, cada qual de um jeito diferente, e a um nível educacional, e seguir com os outros vinte alunos regulares? Como fazer tudo isto de uma vez misturado?
Sou Psicopedagoga pela Universidade Católica e Especialista em Educação Empreendedora pela UFSJ-MG. 
Gente! E não dá nem para o cheiro (como dizemos na caipirice)...Me sinto a "Mulher maravilha" lotadinha de espinhos nos pés - paralisada.
Gostaria de ver teóricos como o citado, rebolando com uma turma desta, e depois vir escrever belas crônicas...


Fonte:  esta   /2012_06_01

   

18 comentários:

  1. ahahhaa, era essa? ela nao é minha :-( mas acho maravilhosa

    depois tbm venho ler ;-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Grata, viu Nina!
      Era exatamente o que eu precisava, e me lembrava muito bem dela.
      Beijão.

      (meninas, eis da dona da "Mulher Maravilha"!)

      Excluir
  2. É muito triste a situação do professor no Brasil e mais ainda o fato de que, ano após ano, as coisas continuam iguais ou pior!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então, menina!
      Sofrem alunos, professoras, pais...
      Com a inclusão, temos casos seríssimos, que devem estar lá, contudo não em turma tão numerosas.
      Um novo garotinho da turma regular está assustado, faltando às aulas, por medo do outro garotinho com transtorno Desafiador Opositor.

      Excluir
  3. Olá:)
    Posso entrar? Entrei devagarinho, para agradecer sua visita e tive uma surpresa, é a primeira vez que encontro alguém que utiliza o mesmo fundo, mesmo tipo de letra, tudo igualzinho ao meu cantinho, foi uma sensação muito engraçada.

    Vida de professor não é nada fácil (nem aí, nem aqui!)
    Abraço de Portugal e mais uma vez, obrigada!

    ResponderExcluir
  4. Oi Suri! Bem vinda.
    Gostou da semelhança? Temos gostos parecidos...

    Será que em Portugal há esta "briga de foice" com os Professores?
    Somos subordinados, a "ralé" da educação.
    Que eles cobrem um pouco mais de nossos superiores!
    Adorei sua visita, outro abraço do Brasil.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Cristina o prometido é devido!
      Cá como por aí há muitos problemas e poucas soluções à vista. Primeiro estamos em crise económica o que serve para cortar em tudo...
      A corrupção alastra brutalmente por todo o lado. Os Professores funcionam em Ostra: Ou seja são muito corporativistas, fecham-se e são avessos a mudanças, por exemplo, a maioria (sindicalizada) não aceita ser avaliado pelo seu trabalho. Ainda não percebi porquê?!

      Há de tudo um pouco os mais velhos agarrados a um sistema que já não tem dinheiro para os "sustentar" onde eles (professores) só pensam nos direitos (os deveres de educar ficaram na gaveta há muitos anos, muitos apenas debitam a matéria sem mais preocupações), os mais novos (professores) que lutam pela sobrevivência e não têm garantias de nada, nem de trabalho, nem de serem colocados e quando são, usam-nos como joguetes de lado para lado do país.
      Enfim...deu para ficar com uma ideia pálida da situação?

      Abraço de Portugal

      Excluir
    2. Então, Suri... hoje tive uma ótima notícia!
      Até o 3º ano, as classes terão no máximo 25 alunos.
      Poderemos cuidar melhor deles.
      A avaliação PISA de Portugal está excelente. Espero que não regrida, ao passo que a nossa deve aumentar com urgência!
      Grata pela atenção, preciso conhecer outras realidades.
      Um abração brasileiro.

      Excluir
  5. Consola dizer: eu te entendo!Não, claro que não.Senti-me assim como vc;boi de piranha.Na falta de um culpado para todos os descalabros na educação do país, o professor cabe bem no papel.
    Longe de autocomiserações, mas perto da obviedade, somos encaixes rangentes no sistema,portanto precisamos é de ajustes e não de reconhecimento, segundo as cabeças coroadas.
    Não vejo luz, nem túnel...infelizmente.
    Bjos, Cris,
    Calu

    ResponderExcluir
  6. Consola muito, Calu!
    Me pronuncio para não ter infarto... Quando leio sobre a impressão de Gustavo Ioschpe em seus textos, ai, ai!
    E a educação chinesa que ele visitou? Maquiada? Crianças "engessadas"? Tortura física e psicológica?
    A isto ele chama "transparência"!
    Aquele país em primeiro lugar na avaliação PISA?
    Leia os textos dele.
    Grata pelo consolo,
    Outro beijão.

    ResponderExcluir
  7. Poxa que desalento esta cruel constatação que estamos assistindo há tantas décadas no país!
    Quanto abandono na área educacional, social e de saúde pública! Junta tudo isso e dá neste imenso caldeirão de problemas que vocês, professores, têm que trabalhar e administrar. Que desalento!
    Força amiga!
    grande abraço, carioca


    ResponderExcluir
  8. Beth, escrevo para expor a realidade, nenhum profissional trabalha tão "no atacado" quanto nós.
    Alfabetização é trabalho artesanal, individualizado.
    Não dá para "brincar de estátua" com 27, enquanto se dá aula particular a um aluno.
    Não reclamo de salário, aceito até remuneração menor para exercer um direito a grupos menores.
    Com 20 alunos, já estaria de bom tamanho.
    Outro abração, e grata pelo apoio.

    ResponderExcluir
  9. 28 crianças são muitas crianças... Admiro a sua paciência e dedicação. Beijos!

    ResponderExcluir
  10. Oi Joana!
    O mais difícil é sincronizar "aulas particulares" e seguir paralelamente com todos os outros.
    A turma "pega fogo"!
    outro beijão.

    ResponderExcluir
  11. Lamentável...um cidadão que nunca pisou numa escola pública nem para estudar quer pra lecionar, se arvorar a vir dar pitacos na educação nacional, sendo pós graduado na mais capitalista e direitista das economias, patrocinado pela Veja (não preciso dizer mais nada), aliás, numa de suas reportagens sobre esse cidadão, em seus espaços para comentários a Veja censurou meus comentários. Só deixam passar os que concordam e elogiam as teorias de mesa desse senhor.

    Cícer Souza

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Cicero! Bem vindo...
      A aprendizagem deficitária nem sempre tem culpados diretos: Com já citei, há diversos graus de deficiência intelectual, distúrbios, disfunções, síndromes, transtornos, que não são encaminhados, ou nem detectados...
      No meu município, temos muitíssima sorte: Há uma entidade filantrópica que nos auxiliam sobremaneira. Nada governamental.
      Em alfabetização, minha área, se a aprendizagem não flui, a culpa pode não ser da criança, nem da família, nem minha, há que se investigar inúmeros outros fatores.
      Grata pela visita.

      Excluir
  12. ~ ~
    ~ Passei por cá...
    ~
    Quero precisar que os professores portugueses não se negam a ser avaliados, mas, sim, exigem ser avaliados por quem já deu provas de indescutível competência psico pedagógica e por quem conhece a fundo a realidade e condicionantes das escola onde trabalham.

    Quanto a todos os "Gustavos ió-iós", empresários desocupados, economistas, avaliando e criticando a docência; merecem um radical desprezo mudo, um cru virar de costas.
    A mesma atitude devem merecer todos os que lhe dão crédito.
    Não merecem nenhuma preocupação ou desgaste da nossa parte. ~

    ~ Força, coragem, amiga. A causa é nobre, a tua dedicação indiscutível.~

    Nunca esqueças que o silêncio pode ter muitos significados e, numa reunião, pode significar indiferença e desprezo.

    ~ Do mais ocidental país da Europa... ~

    ~ Um grande abraço solidário, colega. ~

    ResponderExcluir
  13. Oi, Majo!
    Concordo plenamente contigo. Ser avaliado por alguém que já percorreu mais de vinte anos de docência (com crianças - e todo dia) e tem fundamento teórico para tal não é o mesmo que ser sabatinado a esmo por um leigo.
    São raras as profissões em que se estuda tanto (muitas vezes pagando do bolso), se dedica a educar filhos dos outros (no atacado) e se recebe em troca tanta falta de respeito, não apenas financeiro.
    Grata pela solidariedade, espero que Portugal seja mais evoluído neste quesito.

    Beijos.

    ResponderExcluir

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.