31.8.12

Blanche - III

*  Aqui  terá o conto completo!

Mais um ano se irrompe a ombros largos: O genitor, Rob,  informa `a garota que sua idade alterou-se, e 15 anos é data considerável no mundo civilizado. Todavia, desde quando Blanche, a mestiça, se interessa por civilização?
Do que realmente importa-lhe, tudo ela detém: saúde, a cabana, vestuário indígena para a montanha, e "civilizado" para a pradaria,  goza de sombra boa e água fresca, castanhas, mel, frutas silvestres (frescas e desidratadas), carne de caça, alimentos cultivados,  ovos, leite de cabra, ervas (chás).
O que ela possui furiosamente, além das duas famílias, é o seu venerável amado. Ele ali, a cada cinco semanas, desmensuradamente derramado nela!
Trata-se de uma garota com beleza excêntrica e peculiar: cabelos de ébano, tão lisos! Pele cor da primeira enxurrada primaveril...perfume de relva amassadinha aos pés descalços.
Os olhos de jaboticaba, fixos e penetrantes, não são envoltos em mistérios, conquanto de cristalina nudez. Blanche é mesmo transparente ao amarelo da montanha ensolarada.
Os perturbadores traços do rosto, receberam um tempero mais forte daquele imenso pai loiro, que da "escangalhada" população nativa pelo flanco materno! Sincretismo.
Nenhuma moça, por mais que deslise, se faz verossímil a ela no vilarejo. Seu corpo esguio e  pouco alongado, sua serenidade qual espelho d'água, a fazem  absoluta em si. 
Agora, com feições de mulher em carne ao vivo, ficou toda perceptível nas visitas à monótona comunidade. Exala uma jovialidade típica de debutante, negaceando a adolescência. 
Sua autoconfiança, de quem foi formada envoltinha em apoio, a deixa incontestavelmente flutuante, sem descomedidos medos, sem timidez estéril. Namora escandalosamente com a vida.
Senta-se junto às outras mulheres, nos serviços religiosos desta manhã de domingo, onde Charlote, a transcendente esposa do reverendo, desembrulha a maçante celebração, no anexo da igreja.
As vozes em coro, de damas em todas as idades, repicam baixinho nos hinos religiosos, evitando se contrapor à celebração oficial, realizada pelo grupo masculino, na capela, comandada pelo Reverendo Albert.
Hoje é peculiar: O pai conduziu a cremosa irmãzinha Acte, e esta se atarraca à Blanche, temerosa. Mãe e Avó evitam comparecer à civilização, se esquivando de olhares impróprios - afinal, são índias "puro sangue", da reserva.
Ambas foram contundentemente rebatizadas pelo pai com nomes brancos e estrangeiros: Erin para mamãe e Lisa para a avó. Aceitaram, todavia não de bom grado. Entre si, há o tratamento pelo nome original indígena.
Quanto à Blanche, após três anos "casada", já enfrenta um borrado risco do povo plantar-lhe a língua intoxicada na maledicência, pela não prenhes.
É perfeitamente encontradiço mulheres “secas”, contudo a ela junta-se o agravante de não viver tradicionalmente com Scott e seu visível rebaixamento intelectual. Uma voz lhe martela a nuca.
Esporadicamente, especula-se casamento branco, aceitável em casos de penitência religiosa, todavia o fato não se aplica ao “casal”. Estaria Blanche desdenhando o pobre e indefeso Scott?
O céu, num azul qual olhar escandinavo, doma o enrubescedor friozinho cortante, azeitando a pele das estátuas caminhantes nas gotículas de suor. Findo o culto.

30.8.12

Cultura e lazer no leste paulista

A 35ª semana Guiomar Novaes iniciar-se-á aqui em São João da Boa Vista, de 15 a 23 de setembro, com atividades culturais gratuitas. Dia 17: recital no Theatro, com Cláudio Richerme, 21 h. Nossa Orquestra Jazz Sinfônica fará concerto dia 19, no mesmo local e horário; assim como outras apresentações, sempre no Theatro e Fonteatro.

Em Mogi Mirim, teremos "Festival de teatro", de 13 a 22 de setembro (de quinta à domingo, 20 h). todas as apresentações são gratuitas.
Haverá também exposição de artes plásticas, de 1 a 26 de outubro. O festival de cinema acontecerá de 26 a 28 de outubro.

Em Jacutinga-MG, haverá encontro de jipeiros e afins em 13 e 14 de outubro, com percurso de nível médio de dificuldade.

Em Vargem Grande do Sul, haverá lazer e música no bosque, em 23/09, das 9 às 18 h, gratuitamente.

Em Aguaí haverá  apresentação folclórica de congadas, Folia de Reis e Moçambique, de mais de 35 municípios da redondeza, iniciando às 8 h.

Em Espírito Santo do Pinhal,  em 08/09, será exibida a peça de teatro "O Cientista da lua" com entrada franca. De 21 a 23/09, acontece o "III Pin Pin de literatura", sendo que em 21/09 às 20h30 atuará a peça "O Rio e o Avarento", também gratuita.
Fonte de apoio ao texto: Revista Renoguia , ano 13, número 75.
Fonte da imagem de Guiomar Novaes:   aqui  

29.8.12

Literatura infantil

A autora Mary França e o ilustrador Eliardo (seu esposo), me dão muita felicidade (e principalmente a meus miudos).
O governo não nos envia suas coleções; pelo menos nunca recebi (compramos os exemplares).
São livrinho premiados, ótimos para alfabetização, e inteligentes!
No endereço abaixo, há mais alguns, façam livrinhos para presentear... e  também se deliciem com esta "guerra".
É tudo igualzinho às crianças: insultam, dizem "palavrões", ficam de mal, e voltam às pazes! Vivendo assim, felizes para sempre (ou enquanto durar a infância)...
É que na infância, as duas amigdalas cerebrais fornecem dose extra de endorfinas (com cerca de 20 hormônios relacionados ao prazer).
Terminada a infância, o cérebro nos "corta a ração" extra, e o prazer já não é tão espontâneo, passamos a lutar por ele!       fonte:  aqui     





27.8.12

O ingazeiro


   

Lá pelos meus nove anos, no sítio do Vovô Eurico, próximo à divisa com Minas, uma grande novidade virou noticiário do momento!
O Nelson encontrou aquele ingazeiro do taboal, todo desgalhando em frutos. As vagens verde-amareladas, naquele alagado imenso, quase inacessível.
Os garotos, que já estavam devastando a pobre árvore, haviam  preparado uma trilha, dobrando a taboa no chão encharcado.
A estradinha suspensa parecia fofinha, contudo uma cerca de arame farpado, mais que tombada, encontrava-se pelas imediações. Todo cuidado é pouco, olha o risco de tétano!  
O danado do pé de frutos necessitava estar bem ao meinho? Desbravamos, feito formiguinhas, aquela criançada em fila no charco... enfim o paraíso.
Quão delicioso abrir as vagens fresquinhas, enroscando-se em um galho acolhedor, a degustar as sementes recobertas por aquela membrana tão branca, cândida, carnudinha e aveludada! Num tom de anil refletindo o azul celeste.
Ummm! gostinho de ingá! Fruto d`água! Nativo! E cospe caroço até a maquininha se fartar.
O ingazeiro ficou todo enfeitado de crianças cascudinhas, silenciosas, ocupadíssimas com seu ofício de sorver, sorver...
Sentíamos como flutuar num barco verde, à deriva, sem compromissos senão com o próprio deleite.
Imagem:   daqui

26.8.12

Blanche - II

*  Aqui  terá o conto completo!

Dois anos atravessados sem grandes novidades, apenas a vida passando e carregando o tempo. A cada final de rodízio pentasemanal, a garota desce nefelibata à arteira Estância.
Vai no carroção ao sábado, sempre à tardezinha. Duas horas de solavancos na arriscada trilha tosca, chega ao vale com olhinhos semicerrados, evitando o manto encardido da poeira. 
Blanche "almojanta" e dorme na estância, quando a lua chega a galope. Assim que a manhã empurra o sol, após o desjejum, todos seguem à igreja na minúscula vila Riolama.
O "Lanche de sol a pino" é degustado com os pais, para amainar a indecente saudade. Mais tarde, volta morro acima, ziguezagueando... infelissícima pelo glorioso domingo extinguido.
Seu genitor sobreveio ao lugarejo como mascate, estrangeiro, vendendo e comprando. Apaixonou-se sem limites  (mal de família) pela mamãe, fixou residência e aduziu também da aldeia, a vigorosa sogra viúva.
Forneceu dotes à tribo, em objetos urbanos (subliminarmente comprou a esposa). A sogra auxiliou sobremaneira na adaptação, sempre se desdobrando, e retransiu sua cultura aos netos.
O casal negro da estância, Walacy e Colen, a décadas ali, já não pode trabalhar como antes; foi a Walacy que a garota substituiu na montanha dos caprinos. Ele se sente grato por este peso aliviado, que já lhe fazia trejeitos de agonia.
Eric permanece evasivo, melancólico, e emite algumas orientações a Blanche, pois Scott, mentecapto, tem pouco discernimento para aplicá-las na montanha, no volume impotente das enternecentes ideias.
Ele (Scott) infantilmente serviu de ponte, sem nunca se aperceber, para aproximação grafitada entre a garota e seu único adorado, então é tratado com mimos, feito criancinha de peito, por ela.
A robusta carroça, maior que o mundo, que desceu abundante de queijos especiais e produtos da montanha, retorna martelando a serra com matalotagem para a semana. 
Iniciar-se-á uma semana toda maternal, onde Scott, que de esposo não tem mais que o título, dorme no anexo.  Em sua semana, o trabalho brutal: cortar árvores para manutenção, cavar buracos, fazer muros de pedras, é realizado. Ele é imenso e forte, porém todo descoordenado.
Blanche, mestiça indígena e meio selvagem, adora banhar-se despretenciosa na cachoeira que salta esguiamente em degraus rumo a estância, fincando poços profundos, esfarrapando os rochedos.
Despe-se plena em naturalidade e mergulha, dança, flutua graciosa na limpidez aquática, na mais pura sinergia daquela imensidão vazia de humanos, envolta na cortina de vapores.
Herdou a tecnicazinha de fiar e tecer, tingindo lã com cascas de árvores e pétalas de flores. Seus artísticos e felpudos tapetes são usados como valoroso escambo  na civilização.
Dos países de origem da população branca, todos herdaram seus nomes, que vão se reproduzindo murmurejantes em gerações, por tradição de puxar agrado. 

25.8.12

Sóror Mariana - segunda carta

  
Eis o conflito escancarado: ela tenta persuadir, perdoa, acusa, agradece, idolatra, explode, exagera. Este ímpeto amoroso violento, fanático e inflamado que tirou sua reputação e detestável tranquilidade!

"Creio que faço ao meu coração a maior das afrontas ao procurar dar-te conta, por escrito, dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela violência dos teus! 
Mas não posso confiar em ti, nem posso deixar de te dizer, embora sem a força com que o sinto, que não devias maltratar-me assim, com um esquecimento que me desvaira e chega a ser uma vergonha para ti. 
É justo que suportes, ao menos, as queixas de desgraças que previ ao ver-te decidido a deixar-me. 
Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais lealdade dos que é costume: o excessos do meu amor parece que devia pôr-me acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar encontrar-se. 
Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti. 
Não deixaria de ser infeliz se soubesse que só ao meu amor ganharas amor, pois tudo quisera dever unicamente à tua inclinação por mim; mas estou tão longe de tal estado que já lá vão seis meses sem receber uma única carta tua. 
Só à cegueira com que me abandonei a ti posso atribuir tanta desgraça: não tinha obrigação de prever que as minhas alegrias acabariam antes do meu amor? 
Como poderia esperar que ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim? 
Nenhum alívio há para o meu mal, e se me lembro das minhas alegrias maior é ainda o meu desespero. Terá sido então inútil todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te no meu quarto com o ardor e arrebatamento que me mostravas? 
Ai, que ilusão a minha! Demasiado sei eu que todas as emoções, que em mim se apoderavam da cabeça e do coração, eram em ti despertadas unicamente por certos prazeres e, como eles, depressa se extinguiam.  
Precisava, nesses deliciosos instantes, chamar a razão em meu auxílio para moderar o funesto excesso da minha felicidade e me levar a pressentir tudo quanto sofro presentemente. 
Mas de tal modo me entregava a ti, que era impossível pensar no que pudesse vir envenenar a minha alegria e impedir de me abandonar inteiramente às provas ardentes da tua paixão. 
Ao teu lado era demasiado feliz para poder imaginar que um dia te encontrarias longe de mim. E, contudo, lembro-me de te haver dito algumas vezes que farias de mim uma desgraçada; mas tais temores depressa se desvaneciam, e com alegria tos sacrificava para me entregar ao encanto, e à falsidade!, dos teus juramentos. 
Sei bem qual é o remédio para o meu mal, e depressa me livraria dele se deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-te. E depende isso de mim? 
Não posso censurar-me ter desejado um só instante deixar de te querer. És tu mais digno de piedade do que eu, pois vale mais sofrer corno sofro do que ter os fáceis prazeres que te hão-de dar em França as tuas amantes. Em nada invejo a tua indiferença: fazes-me pena. 
Desafio-te a que me esqueças completamente. Orgulho-me de te haver posto em estado de já não teres, sem mim, senão prazeres imperfeitos; e sou mais feliz que tu, porque tenho mais em que me ocupar.
Nomearam-me há pouco tempo porteira deste convento. Todos os que falam comigo creem que estou doida, não sei que lhes respondo, e é preciso que as freiras sejam tão insensatas como eu para me julgarem capaz seja do que for. 
Ah, como eu invejo a sorte do Manuel e do Francisco! Porque não estou eu sempre ao pé de ti, como eles? Teria ido contigo e servir-te-ia certamente com mais dedicação. 
Nada desejo no mundo senão ver-te. Lembra-te ao menos de mim. Bastar-me-ia que me lembrasses, mas eu nem disso tenho a certeza. 
Quando te via todos os dias não cingia as minhas esperanças à tua lembrança mas tens-me ensinado a submeter-me a tudo quanto te apetece. 
Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a exaltação do meu amor.
Quero que toda a gente o saiba, não faço disso nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra toda a espécie de conveniências. 
E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão-de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida. Não te digo estas coisas para te obrigar a escrever-me. 
Ah, nada faças contrafeito! De ti só quero o que te vier do coração, e recuso todas as provas de amor que tu próprio te possas dispensar. 
Com prazer te desculparei, se te for agradável não te dares ao trabalho de me escrever; sinto uma profunda disposição para te perdoar seja o que for. 
Um oficial francês, caridosamente, falou-me de ti esta manhã durante mais de três horas. Disse-me que em França fora feita a paz. Se assim é, não poderias vir ver-me e levar-me para França contigo? 
Mas não o mereço. Faz o que quiseres: o meu amor já não depende da maneira como tu me tratares. Desde que partiste nunca mais tive saúde, e todo o meu prazer consiste em repetir o teu nome mil vezes ao dia.  
Algumas freiras, que conhecem o estado deplorável a que me reduziste, falam-me de ti com frequência. Saio o menos possível deste quarto onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha vida. 
Sinto prazer em olhá-lo, mas também me faz sofrer, sobretudo quando penso que talvez nunca mais te veja. Por que fatalidade não hei-de voltar a ver-te? Ter-me-ás deixado para sempre? 
Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!"

Imagem:  aqui   (02/12/10). Fonte da carta:  aqui   
(Digite Sóror em "pesquisar" e terá as 5 cartas)

23.8.12

Blanche - I

*  Aqui  terá o conto completo!

Então Blanche se matrimonia aos 12 anos, na década de 1800, com Scott, de 15. Um enlacezinho arranjado, como costumeiro (porém, arranjado por ela).  Pois a garota é apaixonada, desde seus 11 anos, por Eric, e o admira torrencialmente todos os domingos matinais, da escadaria da capela.
Ela suspirava baixinho, procurava deslocar-se o mais próximo possível, para tocar em suas vestimentas; e quando ele ajeitava o chapéu... era o ajustar de um príncipe tardio!
Sua voz grave, e esgaseado olhar confiante, aqueles fios grisalhos escapando ao surrado chapéu. Seu odor brigando com as flores... Blanche quase desfalecia  ali em segredo. 
Sonho realizado, passa a viver desvencilhadamente na cabana, ao topo da montanha, para ocupar-se do rebanho de caprinos da incipiente família. Local onde somente o vento corre apressado.
A imensa e risonha estância  abaixo, finda onde a vista alcança, pelo lado sul. Tudo havia sido adquirido ao "bate estaca", em terras devolutas, pelo avô paterno de Scott, sem nunca chorar dinheiro.
A cada semana, um ente familiar, costumeiramente, realiza rodízio para auxiliá-la com o trabalho masculino, pernoitando na antiga edícula em anexo. Seu olhar, raspando o cume da porteira, sempre aguarda.
Peter, o primogênito, é odioso, estaladiço e reclamão, porém o mais eficiente. Em sua etapa de rodízio, as cercas são consertadas, alimentos plantados, animais melhor cuidados. Sua birra por estar ali fica escancarada, e Blanche mantém uma distância inteligente.
Na semana de seu "esposo", troglodita que é, necessita ser  pajeado com as mínimas coordenadas. Scott, corpulento e atarracado, faz-se numa montanha de músculos, contudo de raciocínio deficitário (para os tempos atuais seria considerado deficiente intelectual). 
Nick, o irmão do meio, todo dado às artes, instrumentos musicais, canto! No trabalho, segue lento e minucioso, perfeccionista. Passou a ser o amigo e confidente daquela alminha adolescente. Mastiga o cantinho do beiço sempre que pensativo, com um fiozinho de língua à mostra.
Tom, o empregado fiel, ali desde infante, quase adotado por todos. Distante, pardo, fechado, magérrimo, evasivo, ligeiro. Seus pensamentos são tão miudinhos que somente ele próprio os lê. Jamais se viu lágrima pratear-lhe a cara em regatozinho.
Eric, o arco iris, tira Blanche da Terra, sua fascinação por ele cresce conforme ela mesma também se desenvolve. E agora ali, tão quase palpável, ele dirige-se patriarcalmente a ela, flutuando feito a neblina de branco sem fim.
Suas mãos calejadas, fortes e protetoras, enlevadas na ação do tempo, não demonstram à garota a realidade palpável. Seu mundo é o que ela construíra, a realidade nada imporia àquele coração de galope atropelado. 
A cada cinco semanas, o horizonte se descortina, sua emoção se esbrange à faceira pradaria, e quase num sexto sentido, Eric passa a sentir-se mais atraído pela montanha dos caprinos, pincelado em imaturidade extemporânea.
Tão contagiante a paixão da menina, que ao ser expelida pelos órgãos sensoriais, Eric já não mais vê nela uma criança, e com rápida sofreguidão, apaga, banha, raspa aquele lapso de erótico pensamento mundano.
Suspirante qual um fole, no coração em tropel, Blanche se vê aplacada pelo olhar cobiçoso, pedinte a que Eric lhe arrasta sorrateiramente a cada peneirado transpasse.

21.8.12

Helicóptero


O "bichão" quase a tocar o solo, lá adiante, no campo, todo prata! 


Vez por outra, algumas destas maravilhosas máquinas pousam no campo de futebol aqui abaixo.
São realmente esplêndidas: chegam sobre o campo, ficam em círculos e passam a descer verticalmente.
Em segundos, estão aterradas. As hélices giram cada vez menos, a porta se abre, e não saem seres fantásticos.
Nesta de ontem, quatro passageiros desembarcaram, percorreram as arquibancadas morro acima,  e ganharam a via lateral que leva à rua.
A aeronave permaneceu estacionada por cerca de duas horas e meia, então ligou os motores, e na mesma encantez com que veio, foi-se!   
Torna-se impressionante o fato de ela estar cá, e num outro segundo, estar lá; e no terceiro, some no horizonte sul.
Não dá para se ver, contudo na sombra à esquerda, atrás dos holofotes, uma classe toda de criancinhas da creche (que há ali), encontra-se em êxtase, pulando! Todos de camisetinhas brancas...

19.8.12

Orides Fontela


AXIOMA

Sempre é melhor
saber

     que não saber.
Sempre é melhor
     sofrer
     que não sofrer.
Sempre é melhor
     desfazer

     que tecer.
Vemos por espelho e enigma (mas haverá outra forma de ver?).
O espelho dissolve o tempo.

O espelho aprofunda o enigma.
O espelho devora a face.
Leio minha mão, livro único.
FUI EU
eu fui
eu?
consegui?

Fui eu! Serei?Existir: assombro.
Nem Deus diz.
Existir: abismo.
Como me atrevi,
como nasci?


Conterrânea, cá viveu até os 27 anos, quando foi cursar filosofia na USP. Trabalhou por algum tempo, como professora primária e bibliotecária na grande SP. Morreu na miséria aos 58 anos, num sanatório.
De personalidade densa, figura ácida e sempre em ebulição. Sua permanente insatisfação e busca por serenidade, renderam poesias à flor da lâmina.
Tive uma Professora que, em mocinha, declamava em praça pública, como era costume à época, em cidades pequenas.
Numa apresentação de "Navio Negreiro - castro Alves", viu-se interrompida contundentemente! Era Orides em meio à platéia, implorando o cessamento... causara-lhe demasiado sofrimento, já quase não suportava...
Ouvi dela (minha Professora), por mais de uma vez esta história. Sempre que leio Orides, fico a imaginar seu psique: um ser atormentado, ao ponto de adentrar os meandros duma declamação, trazendo-a ao seco real. 
Foto:  aqui   Poema  Axioma:  esta    Poema   FUI  EU:  

Rosquinhas

 Dois Kg de farinha.
Quatro ovos.
Cerca de 60 gr. de fermento biológico úmido, ou três pacotinhos deste seco.
Cerca de 350 gr. de frutas cristalizadas.
Uma colher (sopa) rasa de sal.
Dez colheres (sopa) bem cheias de açúcar.
Dois copos americanos p de leite integral.
Um copo americano p de óleo.



Uma jarra com água morninha para ir acertando o ponto da massa.


Coloque tudo numa bacia grande, exceto a água e parte da farinha (deixe 1/4 para colocar aos poucos).  
Amasse por dez minutos e acerte a textura da      massa, quando tiver uniforme, tampe com uma toalha e deixe dobrar de tamanho.
Então, amasse novamente, separe em pedacinhos e modele as rosquinha a critério.



Deixe dobrar novamente de tamanho e asse em forno forte.
Rendeu 29 unidades: para colegas de trabalho, familiares, e congelar uma parte. 

18.8.12

Céu piramidal


Foi então que a estrutura de idéias foi se formando, e todos acordaram que o garoto deveria estar no melhor dos céus.

Considerando pouco, ele simplesmente ter ido para o céu, alguém lembrou que há mais de um.Após ler "O negrinho do Pastoreio" para os miúdos, houve um lindo debate sobre onde ele foi morar com sua madrinha (a Mãe de Jesus), após seu suplício no formigueiro.
Após devaneios e desenhos à lousa, concluímos que se há sete céus, possivelmente o melhor está acima dos outros, como no topo de uma pirâmide!
Ficou mais ou menos assim: o primeiro céu, no alicerce piramidal, seria a favela do céu, para o povão, aos comuns. A ideia de favela eles têm pela TV, em nossa cidade (e nas vizinhas) nunca houve uma.
No segundo degrau, os predinhos populares. Eles conhecem e consideram piores que casas térreas, pois não há quintais para brincar.
Casinhas populares no terceiro degrau do céu, o sonho de vários deles, que inclusive estão na lista de espera (no bairro da Escola não há casas populares).
Quarto degrau: casinhas de fundos, como as de vários deles, que moram no quintal de parentes, contudo são bem aconchegados lá.
Quinto degrau: casas de quatro cômodos sozinhas no terreno, e com bastante espaço. Novas, bem pintadas, com carro na garagem (vários as tem).
Casas com suíte no sexto pavimento, com carro para o pai e outro para a mãe, e moto também, e indispensavelmente, uma piscininha no quintal!
No sétimo céu, há um hotel cinco estrelas, maravilhoso e delicioso, é lá que mora o negrinho, acolhido por sua "Dinda"... 
Como tudo vai se afunilando, poucos conseguirão vaga nos locais mais privilegiados...o raciocínio lógico das crianças, mesmo sendo peculiar, por vezes é mais lógico que o nosso próprio. 
Imagem:   esta    

17.8.12

Sóror Mariana - primeira carta


Mariana Alcoforado não é comprovadamente a autora de tão maravilhosas cartas, todavia custa deixar estar? 
Esta primeira epístola, ainda transbordante de esperanças, aguarda o resgate pelo Francês...
"Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há-de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo.
Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má fortuna, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou por demais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei-de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua.
Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como poderei deixar de sofrer enquanto não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada.
Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.
Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda."
Fonte:  aqui  foto: wikipédia
(Digite Sóror em "pesquisar" e terá as 5 cartas).

16.8.12

Transtorno Desafiador de Oposição

O professorado se arrepia com este diagnóstico; às vezes dado por ele próprio, pois Pedopsiquiatra em redes educacionais é "dente de galinha". 
Analisemos este transtorno disruptivo:
Critérios Diagnósticos para F91.3 - 313.81 Transtorno Desafiador Opositivo:
Um padrão de comportamento negativista, hostil e desafiador durando pelo menos 6 meses, durante os quais quatro (ou mais) das seguintes características estão presentes freqüentemente :
(1) perde a paciência / (2) discute com adultos (3) desafia ou se recusa ativamente a obedecer (4) perturba as pessoas de forma deliberada /
(5) responsabiliza os outros por seus erros (6) mostra-se suscetível ou é aborrecido com facilidade pelos outros (7) enraivecido e ressentido / (8) rancoroso ou vingativo.
Na prática: apaga o que a professora vai escrevendo na lousa e "arremeda" o que ela diz, gritando por cima da voz dela; xinga-a.
Fica "caçando" qualquer coisinha que lhe sirva de motivo para iniciar um desentendimento e escândalo.
Passa e derruba tudo na carteira dos colegas; solta gritos estridentes de baixo calão.
Esconde, rabisca, rasga e quebra deliberadamente o material escolar do outro.
Aponta o lápis bem fininho com o intuito de fincar em alguém.
Tenta "encantuar" colegas no banheiro, geralmente sem intenção sexual, mas sim para intimidar, fingir bater (ou bater mesmo).
Põe apelidos indecorosos; entra e sai quando bem entende; não produz atividades.
Enfrenta qualquer adulto; avança sobre colegas pelo mínimo motivo.
Havendo agressão física, ainda não é tão violenta como no TC, garotos de 7 anos, se comunicam muito corporeamente.
Amedronta e aterroriza os mais meigos; atira objetos nos colegas com intuito de ferir.
Quebra parte de patrimônio e põe culpa no outro, ameaça "pegar" no recreio.
Fica dez minutos na diretoria e volta, porque mais ninguém o aguenta. 
HÁ SOLUÇÃO: FÁRMACOS PSIQUIÁTRICOS!!! Mas, os efeitos duram poucas horas, e nem todo dia a família tem a responsabilidade de fornecer (pelo bem do próximo também)...
A criança não é assim, com índole má, sua química cerebral é que está desregulada, igual a comida demasiadamente salgada.
O ruim é o comportamento, não a criança em si. Ela precisa saber (quando está calma): "Eu gosto de você, mas detesto este tipo de comportamento!" 
Há padrão de teimosia persistente, resistência a ordens e relutância em comprometer-se, ceder ou negociar.
O desafio também pode incluir testagem deliberada ou persistente dos limites, geralmente ignorando ordens, discutindo e deixando de aceitar a responsabilidade pelas más ações. 
Os sintomas também incluem baixa auto-estima, instabilidade do humor, baixa tolerância à frustração, blasfêmias com palavras de baixo calão.
Num comportamento de confronto, eles chegam a tirar os colegas do "sério" a ponto de trazerem à tona o que há de pior no outro, descontrolando seus convíveres. 
Pode haver comorbidade com outros transtornos, tipo TDA/H. 
Causa prejuízo significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional e tende a aumentar com a idade. 
É um antecedente evolutivo do Transtorno de Conduta, quando a agressão passa a ser também vigorosamente física, à época da pré adolescência. Podendo haver uso de substâncias ilícitas (álcool, fumo e outras). 
Cuidado com crianças que maltratam animais ou destroem objetos deliberadamente... 
Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, denomina-se Transtorno da Personalidade Anti-Social. Infelizmente este, em muitos dos casos, já inclui bandidagem mesmo, com destruição de propriedades ou um padrão de furto ou defraudação e até crime contra pessoas. 
Cerca de 80% dos menores infratores da "Fundação Casa", estão inclusos em alguns destes quesitos.
A sociedade deve informar-se, pois quem sofre as consequências deste mal psiquiátrico é ela, e pode ser evitado com tratamento precoce e compreensão.
Fonte de apoio:    aqui    Imagem:        

15.8.12

Justiça Eleitoral



Fui chamada! Eba!
Desta vez não havia sido notificada e estava com despeito. Fingi não me importar muito, embora estivesse me sentindo preterida: Por que não mais? Me trocaram por quem?
Contudo hoje, bem no início da tarde, alguém me liga: após 16 h pode passar no cartório. E ao sair com o livreto e a convocação, dei saltinhos pela calçada, até a moto.
Sei que é permutar seis por meia dúzia: trabalho um domingo inteiro, das 7 h às 18 h, com um lanche merreca no almoço, e no futuro troco por dois dias letivos (meio período); todavia é uma "caderneta de poupança", posso ir para a praia...
Trata-se de um trabalho árduo e com muita responsabilidade: chegar antes, conferir todo o material, afixar cartazes, instalar a urna eletrônica e encobrir a fiação, acertar a posição perfeita da cabine, das mesas de acordo com os mapas.
O presidente recebe treinamento anterior, porém a maioria das informações são por escrito, consultando manuais. Cada qual tem sua função teórica, porém na prática há momentos em que fazemos revesamentos e todos se auxiliam.
Ao ligar a urna, conferir todo o "cabeçalho" e emitir a zerézima, que é retirada e assinada pelos presentes, ao final do dia seguirá com toda a documentação para o local de apuração.
Na lista dos que tem preferência por votar, entramos também nós, então votamos antes dos eleitores leigos. Há uma série de regras a seguir e documentação dos eleitores a conferir, números a digitar, as ocorrências devem ser anotadas em Ata pelo Secretário (alcoolismo, identidade difusa - foto, e outros).
Sempre o primeiro eleitor leigo a votar necessita permanecer na sessão até o término do segundo. Caso o eleitor se recuse a votar, em branco ou anular, não receberá comprovante. Poderá retornar mais tarde e votar.
Após o último voto, imprimir o boletim de urna. Conferir bem a primeira via, e emitir mais quatro, que serão rubricadas pelos convocados.
Iniciar desligamentos, fechamento de documentos, assinatura de Ata e empacotamentos. O presidente leva a urna e toda a documentação ao ginásio indicado, em carro próprio, estacionando longe, carregando peso.
A sensação de dever cumprido, de ter participado de algo grandioso, de pertencimento...de ser eficiente...é bom!!!

Empreendedorismo Social


O que meu Professor Dr. "Bizuca" diz "Virador"; eu denomino "Fazedor". O empreendedor por necessidade  é aquele trabalhador "por conta"; e conquanto não sendo trabalhador, pode ser um líder comunitário, um dos "cabeças" de um núcleo religioso...
O Brasil já galgou o primeiro lugar mundial neste quesito, contrapondo-se ao empreendedorismo tradicional, aquele em que há um empresário estabelecido, alicerçado, "estudado", rico, vitorioso, de peso.
Adaptação da introdução de minha pesquisa sobre o tema:
Eis um empreendedorismo adaptado à dura realidade brasileira; é árdua a trajetória do “Virador”, um profissional mirado pelas lentes capitalistas como sendo um empreendedor desqualificado pelo excesso de pragmatismo, com atividades às vezes paralegais, digno de permanecer nos “terreiros” da sociedade.    
Quem ousa penetrar ao universo deste público peculiar pouco visível às políticas públicas, por vezes tão abandonado que parece ter sido “criado por lobos”? 
É um profissional comumente denominado autônomo, roceiro, fazedor de “bicos”, pequeno comerciante, trabalhador “por conta”; de tão corriqueiro ainda é pouco vislumbrado nos meios acadêmicos, e empreende por suplicante necessidade, contudo empreende.  
Esbrange seus “tentáculos” para melhorar a condição social da comunidade adjacente, e para isso é mais eficiente que manuais de auto ajuda, por ser ele mesmo sua própria auto ajuda . 
Quer ser "Fazedor"? Desperte o “demoninho virante” adormecido em si: sua criticidade, iniciativa, autonomia, criatividade, protagonismo, “coopetição”, sustentabilidade e outras características básicas.
Trata-se de uma perspectiva  profissional includente, com real possibilidade de ascensão social a ser conquistada pelos entes envolvidos, ao gerar potenciais empregadores em vez de meros ocupantes de empregos. 
O tema é abordado em detalhes pelo pesquisador “Professor Doutor Bezamat de Souza Neto” como um estilo de sobrevivência escancarado na sociedade brasileira. 
O termo “Virador” contempla indivíduos que conseguem dar um desvio súbito na rota original de suas vidas, de forma perpendicular (um "cavalo de pau"), melhorando sua condição financeira e sociocultural.

Abrange consequentemente a família a que pertencem, valendo-se empiricamente das características carregadas de ônus e bônus deste “empreendedorismo adaptado”, e dos talentos especiais que possuem em alguma área profissional específica. O Virador geralmente é também um fazedor.
Minha monografia completa encontra-se em: pt.scribd.com/; entre em qualquer documento e troque o cabeçalho por:
102946449/Empreender-Por-Necessidade...

 Imagem:   esta    

12.8.12

Torneira elétrica

Pedi de aniversário ao Esposo. Adorei!!! Por que não pedi isso antes? A outra é bem mais bonita, contudo a elétrica expele aquela aguinha morna...
Confesso que considero o preço absurdo por esta pelotinha pontuda. Julgava ser pouco mais caro que um chuveiro da mesma marca. 
Olhando o designer, toda em plástico, não botei fé antes da montagem. Espero que seja tão durável quanto os chuveiros da empresa. 
Ao acordarmos, às cinco, Esposo foi fazer café e ouvi-o mexendo nela. Levadinho! Já pegou a água quentinha para adiantar a fervura.
Ao sairmos quase seis horas para caminhar, a lua estava fininha como uma harpa, e pajeando diversas estrelinhas à volta. Andamos, andamos, e ao voltarmos, sobre a passarela, observamos e clarão do sol, teimando em brincar de esconde-esconde.
Desistimos deste preguiçoso por hoje. Já prá casa lavar a louça do café na torneira nova!

11.8.12

Só você escolheu o pai do seu filho...

Amanhã, dia dos pais. A menos que tenha sido estuprada, ou tenha se casado forçada, o homem que hoje é pai de seu filho, um dia já foi o melhor homem do mundo (para você).
Falo em nome de alunos meus, desses anos todos com crianças, ouvindo desabafos nas rodas de conversa, cujas mães fazem jogo.
É difícil para a criança, entrar nesta manobra cruel. Umas não deixam visitar, outras falam mal abertamente, forçam chamar o novo companheiro de pai, e outras coisas; contudo, tomem cuidado: agora há lei contra isto... pense conscientemente no título do post...
Ao pegarmos um ônibus errado (na vida), teremos que pagar a passagem. A criança não pode ser esta moeda, pois na adolescência ela terá raciocínio lógico suficiente para analisar os fatos. 
Mudando este assunto pesado, parabéns a meu Esposo e todos os outros pais! A um ano e meio o meu se foi, todavia fez o melhor que pode enquanto conosco esteve. Uma característica maravilhosa dele era evitar certos comentários, ser discreto e comedido em muitos quesitos.
Em 2010 passeamos bastante com ele, estava tristinho... creio que já era confusão mental, embora seu geriatra dizia ser depressão de idoso (diferente da nossa). Fisicamente, ficou pouquinhos dias doente. Teve duas hospitalizações na vida: a primeira quando moço ( apendicite), e a segunda na manhãzinha da data de seu falecimento.
Janeiro/ 2010, Clube de Campo: RADIANTE!





Julho/ 2010, em minha residência: sentado quietinho, cabisbaixo, isolado...  

Mais experiente?




Ontem completei 48... e sabe qual foi minha maior alegria (dentre outras)? Estar menstruada!!! Parece bobeira, todavia nas duas últimas regras, tenho a impressão que demoraram a chegar... Esposo é vasectomizado a tanto tempo, que não me preocupo em usar calendário (como antigamente).
Neurose à parte, gosto de me dizer velha, contudo estar é outra face. A menopausa parece ser este diploma (assinado por universidade)! Fiquei "mocinha" aos 11, hoje sei que é devido a ser saudável, não anêmica. Naquela época, e na roça, as garotinhas entravam nesta nova etapa aos 14. No meu caso nada a ver com sexualidade precoce, encurtamento da infância. Nem TV eu tinha, rádio só duas horas diárias (para não gastar pilha), conversas eróticas? "Cruis in credu!"
Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, naquela época havia pouco diálogo ou informação a respeito ( tabu - e ainda era cedo mesmo), aprendi na marra. Sou da época dos "forrinhos", só pude ter absorventes quando, um ano adiante, fui trabalhar na cidade (e ter dinheiro).

Tive três ou quatro cólicas menstruais, daquelas de "arrancar picapau do toco"! Nas duas primeiras eu não sabia associar às regras, pensava ser dores de barriga. Passados uns três anos, descobri que só virgens têm este "modelo" de cólica a que me refiro, onde o orifício minúsculo se entope. Deve ser real, em adulta nunca mais senti nada parecido...

Olhando para trás, sinto (e vejo) que trilhei muitos "triozinhos" e não caminhos asfaltados. Iniciei-me como pessoa, tecnologicamente falando, no séc. XIX, no mato; e hoje me sinto vivendo o séc. XXI, tenho até um bloguinho! E fiz "sozinhinha", viu?

Este é meu pé esquerdo, fiz a trilha do buracão em 2010. Uso as fotos para metaforizar os triozinhos de minha existência: quanto mais difíceis, tanto mais belos; repare no golpe de vista... causa mais orgulho que uma via expressa, e a lentidão dos passos força uma impressão mais nítida na memória! 


9.8.12

Rotina

Vou contar o meu dia, num dia de "semana": bom, acordo às cinco, como o esposo (isso vale para praticamente todos os dias - domingos, feriados). Ele pula rapidinho, enquanto aguardo uns minutos.
Ajeitar cama, usar o banheiro, me trocar; em vinte minutos, na cozinha. Antes porém, meu cérebro se delicia com o aroma daquele primeiro golezinho da água fervente batendo ao pó de café: trata-se de esposo prendado (isto é tudo que ele faz)!
Golin de café, ingredientes para o almoço, alho refogando, louça lavando, arroz com cenoura de micro-ondas! Deixar salada lavada sobre a mesa, tem carne pronta congelada? Então vai ovos cozidos...Apurar o feijão que deixei degelando desde a noite passada.
Quase 6 h 30 m! Esposo requer uma banana (nanica), um pedaço de abacate (puro), uma fatia de pão integral com margarina ou queijo branco, meio copinho de leite quente semidesnatado. O café já foi com ele... pois entra às 6 h na oficina (aqui ao lado).
Feira às terças-feiras, varridinha às quartas, mais "misturas" no almoço da quinta, roupa na máquina de sexta. Segunda é mais calmo e chego mais cedo à empresa.
Hoje tem lixeiro? Então fecho a casa e desço, ajeito algo na firma, um olho na net, curso de pós à distância, preparação de aula da semana seguinte (aos poucos). 
6 h 45 m! Subir na moto rumo à escola. 6 h 50 m: assinar ponto, arrumar a sala, formar as duplas de trabalho. Bate sinal 7 h e estoura a "boiada"! Fim do sossego...
Agito total até 9 h 30  m. Alimentação dirigida - "empurra" para o recreio! Xixi e uns 15 minutos para preparar o segundo e PIOR tempo. 
Das 10 h às 11 h 30 m, o agito vira conflito (é quando a hora não passa e por vezes dá medo de perder as rédeas). Bagunça no "rabinho" da fila de saída. Também, 28 crianças (um "depósito")! Dez minutos para entregar a turminha, momento de muita concentração, difícil.
Volta à sala até meio dia, corrigir cadernos ou livros, em cinco minutos estou na firma. Pausa na net para abrandar  os ânimos e para a cabeça se acalmar. Subir em casa, almoço, troca de roupas, água com limão (cavalo) ao esposo, maçã para ele, banana  ou goiaba para mim (para o lanche). Na firma até 18 h.
Atender clientes e telefonemas, cuidar do escritório, ajudar na produção, dar uma limpadinha, pagar contas, fazer cobrança duas vezes na semana, adiantar minhas coisas no computador durante as folguinhas!
Enfim no lar! Pegar na geladeira, tudo que restou do almoço. O principal é o pratão do filho. Eu e esposo nos viramos com qualquer coisinha, caso não haja sobra. Ajeitadinha rápida na pia, banho e aqui até 9 h ou mais. Soninho até amanhã às cinco, quando tudo recomeça.

Uma garotinha...

Tenho uma aluninha (sete anos) daquelas um pouco acima do peso, que dá vontade de morder... parece uma plastinha de chicletes! É inteligentíssima, contudo meio dispersa.
Adora animais: naturais, de brinquedo, nas histórias... se arrasta como eles pelo chão, vive aos pulos, e é o que ela traz no lugar das bonecas;  bicho.
Não é que um dia ela me aparece com uma boneca de verdade! As outras foram conhecer. Perguntei o nome. Sem nome; a turma insistiu. Maria.
Mas só Maria? Pouco demais... então acabou escolhendo Maria Aparecida, a classe achou estranho prá uma boneca atual, porém, concordaram. Nunca mais apareceu na aula com a tal Aparecida.  
Num diálogo com um colega "altas habilidades": ele, irritado disse querer morar em Vênus. Não, retrucou ela, vá para Marte! Tá doida, quer que eu morra? Lá há bactérias...
Hoje toda preocupada, me perguntou porque, ao mexer no computador da tia, o mesmo dizia: "as definições de vírus foram atualizadas". Expliquei, ficou calma. Estava com medo de ter apertado algo, pois já aconteceu e ficou de castigo.
Lição? Faz alguma coisa, o resto é pela metade, acho que adora morar em Vênus, por isso não queria o outro como inquilino. 
Minha faxineira aos sábados, é sua babá todas as tardes da semana, eu dei a dica. Ontem ela me contou que foi assistir a moça cantar na igreja. Tem a voz maravilhosa, e minha garotinha sentiu orgulho da babá tão prendada e especial: "ajuda minha professora, faz solo na igreja, estuda de manhã e ainda cuida de mim!"   

7.8.12

Na roça



 Banana nanica
Cerca de vinte e quatro horas, uma vez ao mês, lá no mato, é o melhor remédio para o desligamento do mundo urbano. Vai-se no sábado à tarde, carregando a animação, para dormir. Volta-se domingo à tarde, revigorado..
Abrindo toda a casa, lavar meu quartinho, ajeitar lá dentro, andar pelo terreiro e chupar muita jabuticaba, difícil escolher qual pé dentre tantos...um porquinho a meus pés, comendo as cascas e caroços, uma pançona...será que não encalhará?
Estamos na estação seca, agosto! Encontramos limão, banana, macaúba, jatobá, abacates, coquinhos, jabuticaba, algumas nêsperas, castanhas de coquinhos.
Após sopão e sanduíches, dormir sem TV, na escuridão da noite, amenizada por tantas estrelinhas e pela lua ainda meio cheia. Contudo um véu de nuvenzinhas esfiapadas, esfarela-se por toda a abóbada celeste!
Acordar antes do dia, aguardar a galinhada desempoleirar, ver as estrelas se apagarem lentamente, notar o primeiro clarão no horizonte leste, a lua tirando a camisola dourada e colocando o vestido branco... 
Um café da manhã simples e delicioso (margoso). Limpar o jardim, pois a Vó, com 90, sabe mandar que é uma coisa... lavar a cortina da cozinha, as toalhinhas de crochê.
Uma voltinha antes de preparar o almoço, senão ela inventa mais serviço. À tarde, mais voltinha nas imediações. Comprar queijo na Minda, café da tarde, juntar as tralhas! Prá que tanta tralha? Estradinha afora, o percurso é tão bom quanto a estada na roça em si. Já há saudade e preparação para a próxima.
Arrebol...
 Restin do café!

Banana prata

Jabuticaba

O espose fez de garagem...
Paella



6.8.12

Vaca Atolada

Pensou na receita de carne com mandioca? Infelizmente é algo muito mais cruel e macabro. Ontem, no sítio, quando fomos ao corguinho  riacho da propriedade vizinha, passamos a sentir cheiro de carniça.
Não foi necessário procurar muito para encontrar a causo do odor: uma vaca morta num brejo. A pata traseira sobre a qual ela estava caída não dava para se ver, porém a da esquerda, estava atolada até a coxa.
Pelos cálculos de um membro da equipe, ela estava morta a duas semanas. Os urubus não se encontravam mais lá. As pedras por perto da cena estavam caiadas de cocô deles.
Os carniceiros não se deram ao trabalho de rasgar o espesso couro, percorreram pelas entranhas do animal morto, consumindo-lhe por dentro e deixando-a praticamente oca. 
Como o proprietário (que conhecemos) não deu por sua falta e veio em seu salvamento? O berro de uma vaca em desespero é diferente! Ela provavelmente passou três a quatro dias em agonia, vindo a morrer de fome, exaustão e insolação. Ficamos perplexos...
  Imagem: Google Imagens.

Jatobá

Não posso dizer que esta fruta seja deliciosa. Aliás, posso sim! Pois para mim, é! Adoro jatobá... desde seu formato, sua coloração, seu aroma, seus caroços, sua rusticidade e durabilidade, seu sabor exótico.
Aquele pozinho cor de cocô de bebê, grudando pela boca, e com cheirinho de chulé, não agrada muita gente (nem muitos animais), todavia comigo é diferente.
Ontem subimos ao pasto do "Tio Nízio" para procurar as frutonas. O exuberante jatobazeiro estava atapetado de frutos pelo chão, e prontinho para a frutificação seguinte.
Então foi só catar recolher alguns, atirá-los numa pedra para que abrissem (à custa de boa força). Só outro membro da equipe também gosta (contudo apenas experimentou).
É riquíssimo em ferro e serve também para confecção de doces. Seu tronco fornece madeira nobre, é natural da Mata Atlântica, e também ocorre na Amazônia. Cuidado para não engasgar, é seco demais!
Eu comi dois frutos e trouxe mais quatro para casa. O sabor de infância é inconfundível, a gente se nutre de "farinha esverdeada" e de lembranças, pois fui criada "embaixo" de um majestoso pé de jatobá.
Me lembro de quando surge a floração, e dos inúmeros "fetinhos" da fruta abortados, todos forrando o "terreiro", dava um trabalhão para varrer!
Os jatobás verdes são molinhos, então vão adquirindo um tom de marrom e suas cascas ficam duras feito madeira. Um mistério da natureza tamanha perfeição de embalagem.
Suas folhas são arredondadas, repartidas ao meio e de um brilho intenso, quase surge um coração. Na galhada, fazíamos balanço de cipó. Um dia arrebentou morro abaixo, e lá se vai alguém para cima de muitas folhagens (sorte)!
Os grandes e escuros caroços são fortes e servem a diversos brinquedos, basta utilizar a imaginação. Quando brotam, são de um vigor e fortidão que facilmente dão lugar a outra planta. Pela redondeza, os animais plantam jatobazeiros com seus ânus (se é que me entendem)...


Imagens: Google imagens.