9.1.13

Blanche - VI

*  Aqui  terá o conto completo!

Prelúdio de arrebol domingueiro na Montanha dos Caprinos: O galo a cantar em voz erudita, o balir já de algumas cabras precipitadas, despejando um bom dia.
Blanche desperta em sobressalto. Quinta semana e o idílico Eric está por vir! Arruma-se ligeiramente, uma imbira seca de bananeira enlaça os cabelos negros.
Dia ainda sombrio, voa ao córrego com seus limpos paninhos. Escovação esmerada: embrulha-se um fino trapo por entre o dedo indicador, juntando uns fartos brotos de erva aromática. Esfrega-se ligeiramente, enxaguando em água de serra.
Rumo leste, o primeiro faiscar do dia. Hora de correr descalça para a velha porteira no muro de pedras. Na semana de Eric, ele rasga a madrugada para aproximar-se o quanto antes.
Naquele lajeado justaposto em enormes pedras soltas, Blanche se vê empoleiradinha estrategicamente a mirar o precipício, com a trilha "Deus me livre" em acesso à montanha.
Vai trançando o cabelo quase indígena, e trança também as perninhas magras, que num galeio fogem e voltam à lateral da rocha, trança uma prosa com seu íntimo.
Nada ainda. Nenhuma poeira ou vulto. Uma revoada em alarido corta seus pensamentos e ela se vira insolente, a gesticular que hoje não brinca, hoje a concentração impera.
Salta daquela pedra e distrai-se a atirar gravetos pururucando de secos, despenhadeiro abaixo, que ao rolar, vão arrastando consigo torrões secos de terra encarnada, numa tagarelação animada.
Sua veste tradicional indígena a torna ímpar: uma ígnea forja estética com têmpera perfeita, e numa idade perfeita: Revivescentes dezesseis aninhos conseguidos na amabilidade do tempo.
Os estrangeirados traços do loiro pai prevalecem na fisionomia, ao passo que a pequena estatura, cor de pele e cabelos num contingente de impressionar, denunciam a miscigenação, tão corriqueira na região.
Enfim, a carroça de longe diz presença, enchendo a poeirenta trilha de satisfeita delícia... E o sol já florescendo em botão, lambendo o orvalho. Demoraste.
Fugiu numa das tantas curvas, para despontar mais alto. Domou a destemperada montanha: surgiram os dois elegantes cavalos; ela já segurando a porteira aberta.
Peter? Que foi feito de Eric? Dilapidou os sonhos e enfrentou a escangalhada realidade, cumprimentando secamente o cunhado, que lhe corresponde, num fiozinho de voz quase belicoso. 
O fenecimento da ansiedade abre passagem à angustiante expectativa: Por que a troca? Estará Eric bem? Sem questionamentos extrínsecos e sensorialmente cuidadosa, tenta ler nas entrelinhas de seu agir!
Ao serrar a porteira, pula graciosamente na rabeira da carroça em movimentos sinuosos, com forçada naturalidade. Será uma longa e pesada semana, com trabalho (e carrancas) em punhados.

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