10.1.13

Blanche -VII

*  Aqui  terá o conto completo!

Quase finda a desgastada semana, e Blanche discerniu aos poucos, que Eric sofreu um acidente no trabalho. Não muito grave, porém Peter, por fulcro, o substituiu. Aflitas lagriminhas rolaram quentes na ribanceira do rosto, à escondida. 
Ela não puxará agrado à pradaria; ficará encarapitada na montanha, enfiada na distância. Encontra-se fastidiosa de Peter por hora, o que provavelmente é recíproco, por seu murmurejar solitário no tardeando.
Apesar de avarento, sexista, rabugento e tendo cisma contra indígenas, é homem sem concupiscência e pai aflissurado, capaz de trazer à família o ouro do sol. 
Sara, sua submissa esposa, que o mira com olhos tantinho fechados, está grávida do último bebê. Na cultura local, após o nascimento da quarta criança, o esposo passa a pernoitar na tulha, paiol, celeiro, ou algum anexo construído para esta finalidade.
É a forma tradicional de planejamento familiar. Ele apenas volta ao convívio marital noturno, caso uma das crianças venha a óbito, trapaceando os anjinhos, o que infelizmente não é raro.
Quando um casal burla as regras, desequilibrado no ardor, e o quinto bebê surge, o genitor é hostilizado na comunidade eclesiástica a que pertence e desintegra-se na vergonha.
Seu primogênito é Bêncio, um mirífico garoto de oito anos, agitado, trabalhador, falante. Seu olhar, verde claro correndo para um azul acinzentado, quando alguém acende a luz solar.
Iniciou seus estudos com a esposa do Reverendo, Charlote, mediante um honesto valor fixo mensal, pago antecipadamente. Vai saltitante, enchendo a trilha de alaridos.
Professora leiga, ministra aulas no anexo da igreja, às segundas e quintas-feiras para os garotinhos, `as terças-feiras para os mais avançados, e futuramente iniciará às quartas e sextas-feiras com garotas (Será?).
Não é hábito meninas estudarem; Charlote luta por esta possibilidade junto às instâncias religiosas superiores. Deseja tirar-lhes tantas palavras presas dentro do serrado dos dedos.
Caso aufira, necessitará do auxílio de um rapaz alfabetizado para os dias com aulas masculinas. Sairá com as meninas na direção da vida. Vida temperada no arzinho encantador das letras.
A comunidade ainda não condiz, pois arcaria com mais uma remuneração, somente para estudar "inutilmente" as mocinhas locais, com seus dedinhos rijos a cambalear!
Provavelmente no início, surgirão parcas e pedinchonas candidatas, com a parlapatice do povo montada em seus movimentos, que semelharão timidez e não serão. 
Quanto às outras crianças de Sara, Verna de seis anos, e Roya de três, já demonstram comportamentos tipicamente femininos (submissos), aprendidos à risca com a mãe, conquanto o pai almeja que recebam alguma educação formal, cutucando graça de viver.
Seu sentir cuidadoso é de que a família esteja sempre no arrepio da vanguarda, por serem o clã inveterato a se instalar na região, consolidando a primazia.
As obductas terras do Vilarejo pertenciam a seu avô Jhony, o desbravador. Robusto, enfrentando um sol dono do mundo, chegou de remanso. Olhos regurgitados na imensidão vazia.
Ele e os seus,crescendo em si mesmos, erigiram a primeira capela em local bem próximo à igreja atual. Uma cadatupa de poesia no ermo sem fim.
Este fraco arruamento tem se desenvolvido asperamente nos últimos tempos, bordando o vale emoldurado por tão vastos serrotes, onde cada vez mais as propriedades vão se subdividindo em outras tantas.

4 comentários:

  1. Salam, Cristina!!

    tudo bom?
    Interessante a frase citada acima no texto: "não é hábito meninas estudarem". Esse fato tão presente em diversas culturas mostra como a figura feminina era (ou ainda é) temida.
    Você acha que os homens ainda temem as mulheres?

    Beijos.
    (Ah, há poema novo no blog)

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  2. Tudo ótimo, Denise, melhor ainda com sua visita!
    Fui criada na roça, onde os papéis ainda eram bem demarcados.
    Era tabu mulher casada usar blusa sem manga, calça comprida, dirigir, trabalhar na cidade, desquitar-se, usar pílula anticoncepcional.
    Quanto à pergunta, as pessoas temem a perda do poder!

    Vou já ler seu poema,
    Outro beijão.

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  3. Às expectativas de Blanche se unem as minhas para sua narrativa.Vc detalha com tamanha precisão cada cena que o conjunto vai aparecendo através das palavras.
    Torno a repetir: Blanche merece uma edição.Olhe isto, Cris.
    Bom domingo.
    Bjos,
    Calu

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  4. Oi Calu!
    Blanche é uma bugrezinha brincalhona, nada dada a holofotes, quer mesmo é ser criada solta, vai ao vento...
    Agradeço demais seu apreço, você sim é Escritora (com E maiúsculo)!
    Ótima semana, e muitos beijos também a ti.

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