2.2.13

Blanche - XII

*  Aqui  terá o conto completo!

Sábado surgiu, Blanche não desce a sete semanas... Nutre louca saudade por Eric! Acordou na penumbra, chama por Nick no anexo em voz monocórdica.
Tudo deve ser aprontado: Dia turbulento, fatigado, sem serenar. Pretendem iniciar o declive com o sol a tombar para oeste, ainda sobranceiro.
Sobre o leito arrumado, ajeita o vestidinho azul em duas peças, corpete acinturado abotoando à frente, golinha boba, mangas longas fininhas, com a saia se abrindo num leve godê, quase aos pés. 
Nick angariou dois coelhos machos nas armadilhas (as fêmeas são soltas). Serão para o guisado. Por sobremesa, levarão favos de mel.
Presenteará os sobrinhos Bencio, Verna e a bebê Roya com rapadura de amoras montanhesas ácidas. 
Enclausurarão os caprinos para não deambularem ao pasto. Predadores da floresta permanecem à espreita.
O curral de pedras recebeu a tempos, um espaço coberto, desfavorecendo chuva e frio. Os rústicos e destemidos cães farão a guarda (inclusive do chiqueiro e galinheiro). 
Tom estará obstinado à espera: Mãos em punho à boca, aguardando de longe pelas miúdas bergamotas silvestres. O chapéu tapando a cara, o olhar espadaúdo, vestes surradas. Se aproximará sorrateiro, assim que solicitado. Haverá nítida remitência no humor de Nick. 
Alarico, pai de Tom, foi homem amulatado e bruto, porte atarracado, cabisbaixo. Quando já instalado na estância, furtou a mãe índia, batizando-lhe Grace. Toda excêntrica, nunca se adaptou à vida exfiltrada. 
Pariu Tom solitária no matagal, rasgando-lhe o cordão umbilical com os próprios dentes. Voltou com ele atarracado ao seio nu.
Nada comunicou, pois não se esforçava para tal, mesmo que fosse em gestos. Ausente, estranha, vaga, arrebatada. 
Por todo o dia anterior, Walacy e Colen a viram correr desesperada, para lá e para cá, do terreiro ao triozinho.
Não compreenderam ser aquilo um penoso e introspectivo trabalho de parto indígena. Passaram a auxiliar sobremaneira na criação do menino, desde então. 
Quando grávida novamente, já de boa barriga, acolheu furtivamente um índio desgarrado. Numa oportunidade, seguiram floresta acima rumo à reserva, aventando pelos cursos d’água. Extinguiram-se. 
As reminiscências que Tom possuía sobre ela, evaporaram-se todas, restando apenas seu odor nos escassos pertences: Um pente em madeira, ainda com fios de seu cabelo, as tradicionais pulseiras em terracota, fitilhos para prender as tranças. Nenhuma veste ou tecido artesanal. 
Alarico afigurou-se aliviado, cansado das dolorosas mordidas desferidas por Grace. Faleceu dez anos depois, numa queda de cavalo em terreno íngreme.
Só foi encontrado três dias após o regresso do animal, denunciado por camirangas. Enterraram-no lá mesmo, onde se erigiu uma baliza de pedras com cruz em madeira, denunciando o jazigo.
A partir daí, Tom era por si, emancipado. A herança do pai era o caráter e o conselho de que, mesmo sendo tratado às regalias, saberia seu lugar de cafuzo agregado. O trabalho caprichado garantia a altivez, e a paz de espírito garantia a sanidade.

8 comentários:

  1. Conto muito bem escrito,enredo lindo! beijos,já de volta,chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Chica!
      Fico agradecida, e bom retorno após as ferias.
      Outros beijos do leste paulista.

      Excluir
  2. OLÁ CRISTINA!!!
    FOI COM MUITO GOSTO QUE VI A SUA PASSAGEM, O SEU COMENTÁRIO SOBRE OS MEUS BLOGS!!!

    AGRADEÇO MUITO E DIGO QUE TODO O MATERIAL EXPOSTO É TRABALHO MEU, E QUE PARA MIM NÃO FARIA SENTIDO SE O NÃO FOSSE!!!
    GOSTEI DE LER ESTE TEXTO, UMA LINGUAGEM DIFERENTE FALANDO DE COISAS BEM DIFERENTES DAS QUE TENHO POR CONHECIMENTO!!!
    1 BEIJO CRISTINA!!!
    VOLTE SEMPRE!!!

    LÍDIA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Amiga Ribatejana!
      Sabe, Lídia, vou acompanhar o seu talento e o seu mundo (adoro Portugal).
      Outro beijo do Brasil.

      Excluir
  3. Que lindo conto Cristina, você escreve divinamente bem, vou arrumar um tempinho e volto para ler o principio.
    Parabéns.
    Tenha uma semaninha de muitas bençãos. Beijinhos.

    ResponderExcluir
  4. Olá, Verinha!
    Grata pelo elegio, é somente um conto simples.
    Ótima semana p/ você também.

    ResponderExcluir
  5. As detalhadas descrições de cada personagem, seus sentires, olhares e destinos vão se entrelaçando naturalmente no cenário, Cris.
    Ótima semana.Bjkas,
    Calu

    ResponderExcluir
  6. Olá, Calu!
    Li parte do seu post sobre pais separados - voltarei para terminar e comentar.
    Quanto à Blanche, também estou curiosa pelos próximos capítulos.
    Maravilhosa semana para ti também, outros beijos.

    ResponderExcluir

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.