22.2.13

Blanche - XIV

*  Aqui  terá o conto completo!

O sol de arrebol invade o recinto pelas frestas, despistando as movediças nuvens peroladas. No salão, mesa posta com chá de alfavaca borbulhante, pinhões cozidos e bananas da terra assadas.
Ovinos por ordenhar, equinos a arrear, porcos e galinhas a nutrir, antes de todos seguirem à celebração religiosa no vilarejo. O coração da jovem cabeceia em ansiedade. 
Blanche, recostada ao portal num só pé, alimenta curiosidade pela gravidez adiantada da cunhada; conquanto enrubescida e pouco contrançada, nada questiona, nem a toca, siderada pelo tabu. Um novo bebê na família induz uma delícia retorcida. 
Sendo a generatividade ligada ao ato sexual, não se fala sobre o enxovalzinho, sobre a dissimulada barriga por onde seu olhar navega absorto, nem sobre a (perigosa) parição, mesmo que em fala enrodilhada.
Colen, sempre com os beiços arregaçados, não conta nesta segregação, pois entre ela e Sara não há o mínimo sigilo, estão amalgamadas. O parto rústico ficará a critério e responsabilidade somente de ambas. 
Resignada, Blanche entretece as pontas do avental nos dedos indicadores, se contentando com o posto de segunda amiga, sendo apenas a visitante querida e aguardada, todavia não tão íntima.
O apego entre Sara e Colen é carne viva e todo hermético, esta é o esteio daquela. Bobagem tentar ler com esforço míope o pacto ternural traçado nas entrelinhas.
Enquanto a bugrezinha veste seu único vestido à altura da celebração, as amigas seguem à cabana de Sara, vão aprontar as esguias crianças, empanadas pelos dançantes fachos de sol.
Serão duas carroças transbordantes: Na primeira, os caseiros com a família de Sara; em seguida, Blanche com os seus, acocheirados pelo prestativo e nefelibato Tom, de voz velada. 
Os raios dourados chuparam o orvalho e tingem a falda desbotada pela estação seca. Costumeiramente, os habitantes levam seu almoço para o piquenique na Vila, ancorados em mútua hospitalidade. As toalhas abraçam veladamente a relva, numa tímida carícia. 
Temos os pinhões que sobraram, ovos cozidos, queijo ervado e frutas da estação. Blanche, toda nostálgica, fará esta refeição rápida com sua família de origem. Enquanto devaneia, o restinho de cruviana lhe alvoroça os cabelos.
No caminho que segue a nordeste, somente as duas carroças brutescas, não há outros habitadores devido à cadeia montanhosa a sudoeste. Os homens vão acomodados à frente, na boleia, enquanto a menina se recosta lateralmente no piso do carroção.
Eric, quase anestesiado, morde o cantinho do lábio inferior enquanto seu olhar amadurecido penetra Blanche às migalhas, quando lhe vira sorrateiramente a cabeça, nos solavancos das curvas.
Um arrepio percorre longitudinalmente o corpo da garota. As mãos espalmadas junto ao chão de tábuas ondulam acompanhando o curso da estrada. Nenhum som, sôfrego que seja. Qualquer coisa de secreto parece lhes invadir as almas, no toque negado.
Blanche sorve o odor lisérgico do amado através da cortina de poeira, que dança, afogando o quase casal, e desmaia no vento que lambe a silhueta de Eric à frente. Presença pura atiçando a tentação de enovelá-lo.
Aproximando-se do abrupto e trovejante “Rio orgástico”, que galopa por todo o vale, começam as encruzilhadas de propriedades a leste, desembocando nele. A terceira é de Rob, e Blanche indaga se o pai já seguiu. Pela assinatura marcada na terra, sim. 
É o acontecimento a reunião domingueira e obrigatória, junto à capela. O Reverendo Albert alinhava toda a região: Em meio à semana, cavalga as propriedades arrebanhando, aconselhando, politizando.
Seu papel preponderante faz dele O líder. Detém poderes junto ao governo e é apaziguador dos constantes conflitos. Raspa com força o orgulho enredemoinhado nas mentes perdidas.
Charlote, sua intelectual e grisalha esposa, arquiva com lógica própria, numa “Biblioteca” no anexo da capela, toda a documentação referente ao vilarejo e seus habitantes, para que as palavras nunca entrem em divórcio com o pensamento.
Na predominância de lares iletrados não faz sentido armazenar papéis ilegíveis, então quando necessitam de burocracia é à exclusiva dama escriba que recorrem, confiando-lhe cegamente. 

4 comentários:

  1. Lindo capítulo esse. Tenho que aos poucos conseguir ver todos. beijos,lindo domingo!chica

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Chica!
      Fico grata pela leitura.
      Ótima semana para ti.
      Abraço paulista.

      Excluir
  2. As tradições domingueiras remontam séculos sem distinção.Família, amigos, todos reunidos em festivas ocasiões.
    Abraços,Cris,
    Calu

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então, Calu! Em vilarejos ainda se torna mais forte... adoro visitar bairros rurais aqui pelas redondezas e lembrar de Blanche.
      Outro abração, e excelente semana.

      Excluir

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.