2.3.13

Blanche - XV

*  Aqui  terá o conto completo!

Blanche se aninha na carroça, agora envolta num leve tecido devido à nuvem poeirenta. Eric desce a seu lado pretextamente pelo pé enfermo, que inchou levemente.
Enquanto os outros três tagarelam absortos na boleia, a garota roça seu pezinho ao dele. Aprovisionada em minutos tão substanciosos, lança olhares abstêmios a seu preferido. 
Mais uma curva e já se avista o garboso Vilarejo: Contempla-se a estradinha emoldurada por quatro propriedades “urbanas” dando fundos ao luxuriante rio, bem lá embaixo, à direita dos carroções.
À esquerda, temos a branca capela sempre a sorrir, com a sineta reluzindo no campanário e seus utilitários anexos, e mais duas propriedades, encravando-se longitudinalmente no íngreme sopé. 
Num solavanco, a menina é lançada em Eric. Oportunamente se encostam de forma acetinada, para só depois retomarem as posições originais; logo haverá público exigindo a compostura.
Os pelos do braço esquerdo de Eric ficaram eriçados: num gesto discretíssimo ele lhe demonstra, carinhoso. Ela rapidamente atira-lhe um beijinho mudo, fala qualquer coisa para disfarçar e tudo se normaliza. 
A idiossincrasia desta região se faz, mesclando a cultura indígena nativa, negra remanescente da escravidão, e de brancos oriundos de localidades tão diversas, contudo europeu, dominadores.
Amor e ódio dançam aqui, impossibilitados de se amalgamarem (e de se repudiarem) totalmente, um barril e um pavio no vilarejo “Riolama”. 
Apeiam todos, Rob e as crianças aguardavam ansiosos. A traquina Acte reluz num vestidinho florido de garota branca, feito em costureira, pois a mãe índia não dada a estas artes.
O lencinho à cabeça, com um farto barrado no mesmo tecido, complementa o visual. Tem o maroto sorriso em janelinha, enquanto corre descalça, numa timidez misturada a excitação. 
Um último olhar sigiloso dirigido a Eric, e apartam-se inquebrantavelmente todas as damas, rumo ao anexo.
Novidades após sete longas semanas... e o esperado reencontro com a amiga Ariadne! Seria este o último? Após o desenganado casamento estará tão longe, tão triste, tão sozinha. 
Terminadas as orações, unem-se todos para um descontraído colóquio e piquenique sob as arvorezinhas, porém Blanche seguirá no carroção do pai para a estância, delimitada pelo seu saudoso "Orgástico Rio" (a tradução não é literal, pois não há equivalente em nossa língua para a denominação indígena do fértil rio).
Num abrupto e instintivo ato, Eric rodopia Acte pelas mãozinhas minúsculas e a deposita nos braços de Blanche: ele sabe ser este o último e precioso toque em seu par, antes do afastamento inexorável `a montanha dos caprinos. 
Após despedidas, Blanche segue com o progenitor e irmãos para lanchar junto à mãe e avó na propriedade rural. Rob nunca pode participar do piquenique na vila, por confinar parte da mestiça família à residência.
Seguem na carroça, entoando singelas cantigas religiosas. A delicada Acte no regaço de seus braços, David e Joe esparramados no assento, a sacolejar. O dia claro confere mais alegria ao descontraído grupo familiar.

4 comentários:

  1. Cristina, não conhecia a sua faceta de escritora. Gostei de ler, suas descrições são muito vívidas! Abraços

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  2. Ah, Joana!
    Não sou escritora, sou apenas escrivinhadeira "male-má".
    Um beijão de além mar.

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  3. Vou acompanhando a história de Blanche. Por vezes me esqueço, tenho que volta lá adiante. rs
    Você escreve, no mínimo, diferente, num ritmo lento e singular. Não conhecia essa cultura que descreve, está emocionante.
    Beijo, Cristina. Bom domingo.

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  4. Olá, Lúcia!
    Fico grata por se apegar à minha Blanche. Logo teremos mais.
    Ótimo domingo para você também.
    Outro beijo.

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