17.3.13

Blanche - XVII

*  Aqui  terá o conto completo!

Em Riolama, a existência segue seu lento ritmo. As famílias rurais são a razão desta vila (região com cerca de 300 habitantes); conquanto somente aos domingos há impulso comercial, com transeuntes bem vestidos, propagando-se para a frente e para trás. 
Pela semana, um ou outro lavrador fragmenta a praxe dos prestadores de serviços essenciais. Forasteiros são parcos (e por vezes lesivos), quando vêm, atraem metediços olhares de meia-cara. 
Um dos quatro estabelecimentos comerciais tendo às entranhas o "imperioso rio", é o tosco galpão cheio de anexos do ferreiro Occan, também sapateiro e enfermeiro masculino (tira-dentes). 
Ele manufatura botinas "unissex" para todas as idades, restaurando-as constantemente. As ferragens das carroças, ferraduras e ferramentas diversas são forjadas e entalhadas por sua laboriosa equipe. 
Occan vem de longínquas terras gélidas, fugido da guerra, e apesar da deficiência física, sua saúde é tão férrea quanto a profissão. É proprietário de uma sapiência que surpreende; homem letrado, chegou assim ao sertão.
Comedido, metódico, exprime poucas palavras e vai pingando-as sonoramente, cochichando um prosear cantado. Seus olhos, tingidos num azul de myosótis, são de uma profundidade elegante.
Na jornada epopeica, foi privando-se de pertences estimados: o retrato dos irmãos, o cavalinho entalhado em madeira dos tempos de infante, documentos, um espelho presenteado pela genitora, o canivete que pertenceu ao avô paterno. 
Ele próprio está inteiro, então é o que basta, pois nestas lonjuras muitos perdem a visão, partes do corpo, o juízo. A jornada de trabalho aqui denomina-se “luz `a luz”: inicia-se com a primeira fagulha de arrebol e finda ao crepúsculo, ocasião da única refeição quente e completa.
Occan é assex feito Tom, talvez por natureza, ou compelido pelas barreiras de expatriado, porventura pela timidez, quiçá pela deficiência numa das pernas. Fato que só tem a seus eus interiores, e sendo muitos, lhe bastam.
Blanche encomendou via David (o irmão que lavora ali), outro par de robustas botinas, pois crescera, e aquele seu, já lhe espreme os dedos com a violência desembestada de um vendaval.
Todas dispõem metodicamente o mesmo modelo, na cor preta, tanto masculinas, quanto femininas. Fora da vila, não se traja calçado, com exceção dos dias em que neva, a cada cinco ou dez anos. 
A garota, toda ansiosa, aguarda sua confecção realizada em minúcias, ponto por ponto, enquanto remedia a bota idosa, lustrando-a com carvão embebido em gordura animal. Será doada aos irmãos.
Fará a paga, comercializando seus magníficos tapetes indígenas, tecidos em lã, que Lucano (o vendeiro) arrebata à cidade grande - Corda Bamba.

6 comentários:

  1. Olá Cristina.
    Tudo bem?
    Mais um lindo capitulo.Aguardando o próximo.
    Agradeço a visita e peço desculpas pela demora, mas minha net esta tão lenta, afff desanimo total. Paciência é uma virtude não é mesmo? rs.
    Boa semana amiga. Beijinhos.

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    1. Oi Verinha!
      Adoro suas visitas. Eu também fico sumida (muito trabalho).
      Grata pelo elogio ao meu conto.
      Ótimo "restin" de semana,
      Outros beijos.

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  2. A cada capítulo eu aprendo mais curiosidades sobre a vida nas pequenas aldeias daquele tempo.Vc traz tantas minúcias que vejo cada cena se desenrolando na leitura.
    Foi lírica a página do picnic da Blanche.
    Bjos, Cris.Boa semana.
    Calu

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    1. Oi Calu!
      Sua opinião é muito importante para mim. Fico lisonjeada.
      Ah, adorei a nova foto do perfil!
      Excelente resto de semana, e outros beijos.

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  3. Recuperado das minhas maleitas, passo para deixar um beijinho

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    1. Olá Carlos!
      Estimo mesmo as melhoras. Outro beijo para você também.

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