24.3.13

Blanche - XVIII

*  Aqui  terá o conto completo!

Avizinhada a Occan, fica a nababesca hospedaria da esguia Helen, fêmea rija que também é parteira e curandeira (das frações íntimas) feminina, respaldada por sua devota e reservada funcionária Emily, com trejeitos másculos.
O prédio cinzento, em madeira rústica, contempla um longo corredor com seus quartos em tentáculos. Ao final, o quarto de banho à esquerda e rouparia à direita. A grande sala de jantar engole o corredor, logo antes da esfumaçada cozinha.
Tudo se lava à refrescante margem do gozoso rio, repleta de pedras na cor do escurecer, após percorrer um longo terreno em declive, com horta, vasto pomar e galinheiro, na sequência em que se escreve. 
O resfolegante Occan reside ali, assim como a sexagenária senhora Holine, roliça e plácida viúva, benzedeira que lhe quitou a estada vitaliciamente, com o desmesurado terreno da pensão. Moradores de “Corda-Bamba”, vindo comercializar ou espairecer, hospedam-se aqui. 
Muitas mães estabelecem procissão, diligenciando pela requisitada Holine: além de benzer; ela “costura” mal jeito;  afasta quebranto; alivia dores; expulsa lombrigas; subtrai febres de bebês; corta medo (para crianças que custam a andar) com a “mão de pilão”; efetua simpatias e orações. 
Detém poderosas fórmulas de chás, banhos, pomadas, emplastros, patuás, incensos, cabaçadas (os ingredientes ficam em uma cabaça, curtindo por três luas).
Opera com aromáticos fármacos cultivados ao terreiro, e tudo que coleta pelas ricas encostas montanhosas, para pintalgar a vida alheia. Seu sogro e esposo medicavam em “Corda-Bamba”. 
Helen, em discernimento, providenciou o preâmbulo de um acesso no primeiro aposento à direita, para propiciar as consultas da imprescindível Holine diretamente ao logradouro. São totalmente gratuitas neste (único) consultório improvisado de curandeiria holística. 
A hospedeira Helen, muito clara e com cinzentos olhos agateados, foi prostituta em “Corda-Bamba” desde a puberdade, onde sobreveio coercitivamente após o pai lhe mercar. Nesta áspera vivência, adquiriu vasta experiência na terapêutica às senhoras. 
Poupou seu numerário e hoje subsiste remansada junto à amiga Emily, que retraiu ao inferninho e tem por concubina (secretamente). Alguns homens libertinos, segredam seu pretérito, e nada pronunciam por induzir comprometimento. 
Blanche, que não compreende o latim desta missa, julga aprazível sua vila: exuberante, repleta de odores e contemporaneidade, cromática. Ficciona conhecer os meandros da pousada, acoger-se por uma noite, receptando tudo à mão, sendo mimada; conquanto, após minguadas horas de estada, o incômodo já lhe irrompe. 
A vila aponta ruídos, movimentação, vaidades, apelo comercial, o trabalho metódico e extenuante de suas queridas amigas, sem mínimos respiros de contemplação: a trabalhar e trabalhar. Então a ânsia por voltar ao lar na montanha dos caprinos passa a beliscar-lhe.
A solidão deliciosa, de quem não recebe ordens, a convida. Seu mundo amarfanhado como um travesseiro dileto roçando-lhe o corpo. Hora de desertar temporariamente a baralhada civilização, tendoapenas os sons de animais a lhe esmurrar os ouvidos.

2 comentários:

  1. hein? o que é isso Cris?

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  2. Oi Nina!
    A Blanche é um conto em capítulos. Ela existe desde o início do blog; inclusive ele foi criado também para acomodá-la.
    Um beijinho.

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