7.4.13

Blanche - XX

*  Aqui  terá o conto completo!

Em Riolama, a derradeira instituição comercial a acariciar o desabalado rio, afronteirada pela descida saltitante do regato chorão, é a extensa e fina faixa da vivenda da estrebaria, com permuta de grandes animais (equinos, bovinos, muares, bubalinos), reabilitação, selaria, construção e reparação de carroças. 
O inóspito (e de beleza excêntrica) proprietário Willy, pintalgado com a pele amulatada, é esposo da cabisbaixa e rogativa Corinne, e genitor de Ariadne, Dory e da caçula Críscia.
Willy, hierárquico, governa a família com punhos de aço, já tendo sido advertido inclusive pelo reverendo Albert. A prole trabalha incessantemente a seu comando, e unicamente à insípida Corinne sobeja todo o expediente doméstico.
Homenzarrão, fala rouca e imponente. Seus olhos de jaboticaba cravam forte no interlocutor. Uma compleição física admirável, até mesmo entre companheiros. Disfarça um secreto medo (pavoroso) de abelhas.
Seus carroções, perfeitíssimos, são comercializados por toda a província; o aguardo por um exemplar estende-se por quadrimestres. Willy proíbe a qualquer ente ou camarada, assentar-se durante o expediente, inclusive à esposa, que traz feito a uma escrava.
A etapa de colocação do anel metálico (aro) nas rodas dos carroções, é um espetáculo à parte: vão se arrimando e a madeira se incendeia, enquanto dois homens açoitam com a marreta, um outro abduz com uma pinça. Uma cabaça d‘água chuviscadinha por Críscia ajusta finalmente a peça.
Dory é disponibilizado exclusivamente para um dia de aulas com Charlote, e as cachopas, com Ingrid. Saber coser amplia o dote, nesta região com inúmeros homens desgarrados e escassas (e valiosas) damas!
Apesar de esplendoroso, Dory herdou de Corinne a baixa estatura, o que o impulsiona a estar sempre montado aos domingos, e a refrear passeios a pé. Herdou também os longos cabelos negros, sempre esteticamente trançados e reclusos num tênue filete de couro. 
A proximidade do enlace de Ariadne aduz apreensão ao grupo familiar; a avó índia (materna), prostrada desde que fraturou o fêmur em ablução de roupas ao arteiro regato chorão, almeja avançar com ela. 
A árdua negociação com o futuro esposo será advogada por Dory, à ocasião oportuna. O coraçãozinho da noiva flutua, em atinar a possibilidade de arrebanhar consigo a frágil e reverenciada anciã.
Mesmo acamada, ela confecciona com junco e outras fibras, cestaria indígena delicada, concebendo subsistência com a vendagem, executada pelo ardiloso Lucano em “Corda-Bamba”. Tal fato privilegia a barganha em prol de sua comuta.
Críscia não se encontra preparada para o matrimônio com seu nubente Lucano: secretamente, angaria pedrinhas, cacos de “louça” em terracota, grandes sementes, e nos parcos momentos livres, “trabalha” simbolicamente, cuidando do fictício rebanho de ovinos a que tanto ama.
Blanche sabe que vasqueiramente irá rever Ariadne, e padece ao pensar na ocorrência. Pela infância, suas mãozinhas dadas seguiam por toda a celebração feminina dominical. Blanche dispunha nela um ancoradouro confiável, seu exclusivo “quase ente familiar” naquele "imenso" santuário.

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