20.5.13

Blanche XXV

*  Aqui  terá o conto completo!

Na comunidade Riolama, famílias multiétnicas são habituais. Os homens, incoercívies, vêm sozinhos, ininterruptamente à região e “permutam” a esposa que possuir preço menorzinho, dentre indígenas ou negras, pouco importa. 
Devido à ascendência materna, a família de madeireiros nutre encantamento pelas insultuosas cavernas acima de seu quintal, abundantes e inusitadas, de negra melancolia.
Toda desapressada tarde de domingo exploram-nas idilicamente, desaparecendo silentes das vistas do mundo. Deslizam pelos estreitinhos, esfarrapando as gritantes desmentiras de grotesco "povo bicho". 
Algumas múmias naturais, parcialmente preservadas pelo clima seco das encostas arejadas, são de encarquilhados idosos e acidentados e ainda “vivem” assustadoramente em seus aposentos, no interior das tendenciosas lapas. 
A ulcerada subsistência, incluindo consumo cotidiano de insetos, feito crocantes tanajuras e delicadas larvas, não permitia aos indígenas, manter seus anciãos quando improdutivos, assim como os indivíduos inválidos. Exasperados acidentes eram corriqueiros nestes elevados. 
A eles era providenciado, em odres e embornais, estoque razoável de água e alimento, em uma minúscula gruta retirada. Ali permaneciam isolados, numa dolorosa lamentação, ou com um caritativo ente estimado, até perecerem atrocissimamente. 
Abundante material lítico e utensílios em terracota, cheinhos de entalhes, encontram-se junto às suas desidratadas múmias, murmurejando felizes a parecer puxar agrados.
Ferramentas em pedra debitada (visto que não conheciam o metal), rica cestaria, tecidos rústicos, peles lapidadas, unguentos, adornos, entalhes em madeira, estão furiosamente espalhados. 
Pequenos silos e cacimbas para acondicionamento de grãos e água, são vistos intercambiando-se entre as catacumbas, sempre encravadinhos por entre inóspitos barrancos pedregosos, desvalidos de vegetação, parecendo flutuar escorchantemente. 
Vestígios de reduzidas plantações, rodeadas por esparsas e estéreis árvores frutíferas, também se salpicam cá e acolá, inclusive com rudimentares sistemas de irrigação, semelhando rabiscos.
Muretas de pedras meticulosamente empilhadas, com os vãos das porteirinhas, ainda formigando vida no macio das gramíneas amareladas, revelam a domesticação descricionária de animais. 
As transcendentes cavidades são afastadas entre si, e algumas, visivelmente destinadas à suprema casta nobre, de inteira inflexibilidade: maiores, adornadas nuns sofismas e em locais privilegiados, mais próximas à água e em vistosos planaltos com mirantes. 
As escadas eram economicamente escavadinhas na própria terra, no lajeado de pedras ou feitas com cordas de fibra vegetal, onde de quando em quando, havia nozinhos para, numa descompostura, apoiar mãos e pés.
A arisca avó de Blanche era ainda criança quando, exasperados, bateram em retirada rumo à reserva, por detrás das montanhas, todavia lapsos de memória invocam a coercitiva procissão lamentosa, envolta em cânticos xamânicos e transes intermitentes.
Nos infinitesimais relatos revivescentes de sua memória amalgamada à imaginação, sempre exposta aos desmandos da natureza soberana, avó Lisa sonha com a devaneante época dourada.
Na planura do vale ou na ondulação das montanhas, que sempre adivinhamos lindas, ela esculpiu um passado que entrava fricativo pelas narinas, ouvidos e toda a pele. O ideal sobrepondo o real.

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