25.8.13

Blanche - XXXV

*  Aqui  terá o conto completo!

Num piscar, o sábado raiou sequinho e fresco. Tudo foi providenciado para o gostoso declive à fazenda. Blanche enfim apreciará o incógnita bebê Isaac. Um fofo tapetinho malhado foi confeccionado para ele. 
Ela manufaturou um borbulhante tacho de rapadura (sua especialidade), com azedinhas amoras silvestres. Presenteará as crianças Bencio, Verna e Roya, além de reservar um naco à sua família de origem.
O viçoso canavial que cultiva, à nordeste da casinha de troncos, assim como as outras plantações, recebe irrigação do regato que desce sobre a cabana e o anexo (o rancho anterior). Devido ao excesso de pedras, ele parece azulejado em sua extensão próxima à residência.
As águas cristalinas formam um espraiado a oeste, dando início a uma série de cachoeiras, que rompem o despenhadeiro a sudoeste, formando deliciosas piscinas naturais, esculpidas em momentos de tempestades.
A descida nesta tarde está perigosa: demasiada pedra solta, as pesadas rodas da carroça as atiram com violência às patas dos cavalos, que se assustam freneticamente, em meio à nuvem poeirenta.
Estão carregados com os apetitosos queijos ervados e um buliçoso cabrito corpulento para abate. As secas cascas de bergamotas para Tom e as interessantes sementes de especiarias (da horta do cotiguaçu) para Colen, não poderiam estar ausentes.
Na longa e lenta descida, Nick vai revelando `a Blanche o previsto destino da hermética Ariadne, aquela que o amara platonicamente, desde tenra infância. Deu à luz um entesourado menino, e ingere o pão que o diabo amolgou com as nádegas, pelo bronco marido.
Possessor de uma tropa de carga, cinge a região mascateando. Já em meia idade, de feiura caricaturesca, rosto pontiagudo e nariz mole, com minúsculos olhos (que se querem) amedrontadores.
A avó indígena sucumbiu antes da nascença do bebê, gerando flagelo em redobra. O esposo esteve comerciando nos dois episódios, deixando-a entregue à casualidade, que não a favoreceu. Acordada na rede ao lado da ancestral rija, apressurou-se a clamar por amparo.
Uma benzedeira carrancuda e baixa foi quem assegurou a morte, de supetão. Auxiliou Ariadne na inumação, no quintal da residência (em Corda Bamba), sob uma macaubeira. A neta fez a paga com um frango e uma galinha velha. Um canteiro floridinho recobre os restos mortais.
O menino demorou. Foram dois meses de vazia solidão. Inculcada pela avó, seguiu só e calada com as facínoras dores preliminares. Parede-meia, os moradores adjacentes auscutaram a derradeira agonia.
Mãe e filha vizinhas se aligeiraram a acudir. Com a ponta da faca, descerraram a frágil tramela que detinha a porta. Recostada ao canto do cômodo, agarrada ao portal por detrás, Ariadne e o garoto trabalhavam arduamente.
Saltitou em cócoras, porém meramente a cabeça vinha fora. A senhora ordenou que se dependurasse ao caibro do telhado, arrancando suas últimas forças. Foi esticando aquele corpinho, enquanto untava em banha de porco as entranhas da geratriz, arrimada pela filha.
Uma criança perfeita! Com os suaves traços maternos, miudinho e moreno. Os paninhos do enxoval Ariadne fez à mão, bem poucos por sinal. Complementava os cuidados, valendo-se de trapos que acumulou durante toda a gravidez.
Oito cueiros bordadinhos; duas toquinhas com orelheiras; três mantilhas bem quentinhas; uma dúzia e meia de fraldas (em pano próprio); cinco jogos de pagõezinhos e mijões com rendinhas delicadas, quatro pares de botinhas estampadas.
Teceu três redes para mantê-lo aconchegado, tanto em casa quanto no terreiro, enquanto realizava os afazeres. Lindinho vê-lo a balançar, na redinha presa entre dois arbustos, assistindo a mãe lavando roupas à beira do rio, sobre pedras.
O pai descortês, embora satisfeito pelo machinho, espancou Ariadne ainda no resguardo. Motivo frívolo, como sempre. É que a produção de bordados mingou e as encomendas se acumulam.
Todavia, quando o achavascado viaja, ela é momentânea serenidade com seu prêmio amarradinho ao corpo, à moda indígena. Acima de tudo, tece a mais linda e trabalhada rede para a filha da vizinha que a amparou.

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