24.8.13

Espartanos

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Trabalho com crianças a mais de vinte anos e vejo que cada vez mais, o Estado tenta ocupar o lugar dos pais, como educador de nossas crianças, determinando o que devem ou não aprender, com quem conviver, quantas horas permanecer com estranhos.
Sendo professora, vejo a educação por dentro ( com as "teorices" todas, e com a mão na massa) e também por fora (como cidadã, que ajuda a pagar caro por ela).
De manhã, uma colega veio à oficina e me informou que o ensino médio das escolas estaduais será parcialmente integral a partir de 2014.
Poxa, qual será a qualidade? Se nem a primeira fase do fundamental (como os meus alunos) é coberta pela educação integral... para deixá-los num verdadeiro "depósito de crianças", prefiro que tenham apenas meio período e usem a net para aprofundamento (educação parcialmente à distância - blogs para interação escola/família).
Hum... detesto a confusão entre quantidade e qualidade! Tudo em demasia, extrapola a sensatez. Educação acadêmica é diferente da educação de berço. Fui criada no mato, pessoas analfabetas tinham uma educação louvável, que recebiam na família e levavam ao túmulo. É esta que está em risco.
Com a net, os alunos do ensino médio poderiam permanecer mais com a família, e gozando de aprendizados significativos (monitorados), sendo parcialmente à distância, incentivando a autonomia e pesquisa. 
Na prática, quase todo professor percebe (e comenta) a queda de rendimento e consequente desinteresse dos estudantes após o recreio. Temos inclusive o "horário nobre" para os conteúdos mais importantes - logo ao início da aula.
Alunos de ensino médio devem estudar e estagiar em empresas (por no máximo trinta horas semanais), como já ocorre. É a melhor escola, e aprendem a lidar  com o próprio salário (bolsa).
Caso queiram a miraculosa educação integral para o ensino médio, que o façam no Instituto Federal, pois o temos aqui no Município. Seria mais propício.
Grandes escritores, quando falam de sua alfabetização, relatam que foram educados em casa: pela mãe, pelo pai, ou por um professor particular (e se tornaram grandes escritores).
Isto agora é impossível no Brasil, e passível de punição penal por "abandono intelectual". Sigo o blog da Dani  http://flechasnamao.wordpress.com , que mora na Irlanda. Ela educa em casa os seus seis filhos.
Comentei com ela, que sendo professora alfabetizadora, eu também gostaria que meus futuros netos tivessem a opção de ir apenas uma vez por semana à escola (caso a família assim decidisse).
Seria apenas para a socialização com os pares, troca de informações, desapego regrado da família, o restante eu sei fazer sozinha.
Realmente não é possível a educação doméstica integral, nem mesmo para ciganos ou circenses, que ficam pouco tempo em cada lugar (já tive alunos destes dois grupos).
Temos os bebezinhos quase retirados das mães para frequentar creche, pois teoricamente não sabemos educá-los devidamente, delegando-os desde os quatro, seis meses à uma creche profissional e fria, mesmo se não trabalhamos fora.
Fui monitora de creche e também coordenadora. Não falo como leiga. Certa vez, tive mais da metade dos bebês do berçário acometidos por pneumonia (e internados em hospital).  Os que se livraram, foi por eu ter alertado as mães, então permaneceram umas semanas com parentes. 
Muitas genitoras optam pela praticidade e conforto ocasionados pela creche, nem pensam na quantidade de antibióticos e "amor de especialista" que virão no pacote. Tornam-se heterônomas como mães! 
A terceirização dos filhos, nestas "franquias" escolares (não falo das particulares) pode vir a ser uma faca de dois gumes. Forma-se o cidadão padronizado, com habilidades superiores, e perde-se a individualidade  e intimidade familiar, crucial para o equilíbrio emocional.
Criar programas de orientação aos pais, sobre estimulação precoce das crianças e afins, usando a TV (que é uma concessão pública) não seria mais barato (para nós que pagamos) e mais saudável para a relação familiar?
Quando as mães trabalham fora, é justo que a creche esteja presente, todavia levar o bebê a este local e voltar para casa sozinha, como ocorre hoje, achando ser o melhor, é o cúmulo.
Será que uma educadora profissional cuidará melhor de seis ou oito crianças ao mesmo tempo, que uma mãe apenas com seu filho, no sossego aconchegante de seu próprio lar? 
A Educadora conseguirá sentir uma "emoção profissional" com a primeira palavra, o primeiro dente, o primeiro reptar, o primeiro passo, mesmo com um "estoque" tão grande de crianças, e tanto tumulto?
Nas creche, tudo necessita ser executado no atacado, como linha de produção, devido ao contingente: uso dos sanitários, alimentação, sono, momentos de estimulação.
Nenhum bebê pode fugir ao padrão, escolher outro horário. Você gostaria de ter sido criado assim? gostaria de sair de casa todas as manhãs, faça chuva ou sol, faça calor ou frio, esteja alegre ou debilitado?
Na outra ponta, os idosos não são beneficiados por creches (ao menos no meu município). Eles, que já não possuem os pais para lhes cuidar, acabam sendo um grande peso para os familiares restantes.
Minha avó, com noventa anos, e demente, tem o auxílio de três profissionais durante a semana, pois seus filhos têm vida própria. Eles cuidam dela nos fins de semana.
A família despende com ela, quatro vezes mais do que ela recebe em pensão (salário mínimo). E onde podemos encontrar o fiel desta balança? Será que estamos refletindo sobre o quanto pagamos em impostos e como se emprega este montante? Não é possível outras opções, além daquela governamental?
Obs.: Entrevistei várias colegas professoras antes de compor este texto. Todas sentem os ombros pesados por educar filhos de estranhos, pois ao menor problema, eles atacam.

2 comentários:

  1. Cristina, as mães que podem ficar em casa, sem trabalhar, certamente devem ficar com seus filhos. Mas a grande maioria de crianças (aqui na minha cidade, capital) que ficam o dia todo pelas ruas, em suas comunidades, enquanto os pais trabalham, certamente ficariam melhor em uma creche. O ideal, para o período integral, em que escola fosse, seria que as aulas se dessem pela manhã, pausa para o almoço e depois atividades variadas à tarde, desde recreação a aulas de reforço. Para os mais velhos, aulas de artes, para irem descobrindo sua habilidades e aptidões. A maioria das famílias é formada por pais que trabalham o dia todo e seria muito melhor que as crianças ficassem em um local, protegidas, em vez de nas ruas, sujeitas a todos os perigos. Claro que a família é mais importante, criar os filhos junto aos pais e outros familiares é o ideal, mas não corresponde à realidade dos grandes centros, não posso falar por cidades pequenas.
    O mundo mudou muito e temos que ir no embalo, queiramos ou não.
    (minha neta de 4 anos fica comigo, pois não aceitei que ficasse ainda no período integral, mas é questão de tempo, prefiro-a junto com outras crianças do que junto aos avós, que não têm mais o pique para olhá-la por muitas horas).
    Beijo e boa semana.

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  2. Olá Lúcia! Tudo bem?

    Então, para estas crianças sem companhia, o período integral seria ideal. Não é necessário que seja numa escola, um ambiente neutro é melhor para o emocional deles (com transporte gratuito).
    Temos aqui um projeto (assistencial) para o horário oposto ao escolar, onde as crianças de 7 a 11 anos são atendidas. Fazem tarefa, se alimentam e recebem aulas alternativas.
    Este projeto, em outro local, é bem parecido ao que você cita. O importante é que não ficam o dia todo num mesmo espaço, e o número de crianças não é tão grande.
    Tenho dois priminhos, cuja escola passou a integral, e o "bulliyng" aumentou muito, inclusive um deles está sofrendo estas consequências.
    Minha cidade é pequena, e o ensino médio atual contempla meio período na escola e possibilidade de estágios em escritórios de empresas.
    Eu preferiria que o poder público atendesse primeiramente as crianças de 7 a 11 anos em algum projeto, em vez de fazer mais uma experiência com o médio .
    A opção de escolha deveria ser das famílias, não do governo. Há pais, que se refletirem melhor, optarão por não terceirizar tanto a educação dos filhos.
    É importante que os familiares se conscientizem de que a criança aprende a toda hora, em todo lugar (aprende o bom e o mal, dependendo das companhias).
    Não é somente a escola que ensina. E deixá-los o dia todo num local apertado, apinhado de crianças, com tanta confusão, ruído... afeta o emocional. Só compensa mesmo, se a qualidade for superior.
    Nós temos quatro recreios na escola, para amenizar conflitos, e mesmo assim, eles voltam à sala de aula se queixando, agitados, querendo ir embora logo.
    Quando eu tenho que ficar o dia inteirinho na escola, eu volto para casa como se estivesse sido moída, estressadíssima. Não é bom, eu não gostaria de ter sido criada o dia todo fechada numa escola.
    Em certos países da Europa, a licença maternidade é estendida para um ou dois anos (revesada por ambos pais), porque custa bem mais barato para o governo, que a creche.
    Nós não temos transparência de quanto a população paga para manter cada criança numa creche. Em certos casos, é mais que o próprio salário da mãe, e a qualidade no atendimento jamais será a mesma que aquela de mãe para filho.
    Admiro sua filha cuidar dos três meninos! Eu também fiquei quase quatro anos em casa, com o meu (depois, minha mãe ajudou).
    No futuro, a qualidade emocional deles será recompensante, pois os valores, limites e regras são como caderneta de poupança: ficam guardadinhos.
    Procure estimular e instigar ao máximo a sua netinha de quatro anos, durante os afazeres domésticos, o esforço vale demais a pena!

    Uma ótima semana também a ti. Outros beijos.

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