18.9.13

Blanche - XXXVII

*  Aqui  terá o conto completo!

Amanhece um generoso domingo empurrado pela brisa. Ao refulgir o sol, todos terminam o desjejum na casa de tábuas. Blanche, de beleza perigosa, à medida que encarrega-se de Isaac, vela pelos maiores, amestrando-os num jogo indígena de pedrinhas. 
Em cuidadosos trajes de “ver Deus”, e prontos para partir, não podem amarrotar-se. De repente, Bencio contesta lá no cantinho do salão, que Verna soltara uma ventosidade anal abundantemente ruidosa, assim: pororóóó...
A garotinha, desfavorecida, num misto de vergonha e pavor, encolhe-se um bocado, a ponto de ficar miudinha embaixo da bancada. Regurgitando o branco dos olhos, mãozinhas espalmadas no assoalho, mordidelas ao beicinho, aguardando punição. 
Roya se abana, tentando interceptar inutilmente o possante fedor. Blanche, em fisionomia leve, discursa que até mesmo os indiozinhos espelem flatulências... E os convida a uma aventura altamente secreta.
Já no quintal, se dirige ao galinheiro e agarra um ovo choco, dos que não vingam em pintinhos. As donas de casa os utilizam como indês (mostruário) no ninho, a estimular postura de ovos pelas galinhas.
Todos quietinhos, pé ante pé, seguem a tia até o baita lageado de pedras próximo à porteira. A regra do jogo indígena, é permanecer o maior tempo possível bem próximo ao ovo, de fedentina insuportável, após a quebra.
Todos se posicionam a uma distância inteligente, para que o conteúdo fétido e tóxico não espirre em tão nobres vestimentas. Blanche exerce galeios com o ovo em mão, mirando no meinho de um ponto saliente.
Atira masculamente a bomba biológica bem ao cume do rochedo. Instantaneamente se dispersa o cheiro nauseabundo, quase visível, quase palpável. Seus olhos impossíveis gritam!
Cada integrante da equipe deve aproximar-se ao máximo do epicentro catinguento, sem esboçar náuseas. Blanche, com ar de quem se pertence toda, comanda a bagunça sigilosa.
Quem fraqueja, deserta o território demarcado por gravetos. Isaaczinho, nos braços de Blanche, resmunga e se retorce, apoquentado. Ela não se aproxima o quanto apreciaria, em respeito a ele.
Obviamente, Bencio tornou-se triunfante, pois as duas garotas sofreram tanto receio em vomitar nas tenras vestes, que efetuaram prudência demasiada. Ele receptara em medalha, um belo limão cavalo, na sua madurês dourada.
Blanche retirou um fininho cipó por entre os arbustos, fincou no limão, fez um colar e laureou o vencedor, conquanto ele permaneceu bem arcado para frente... aquela ácida fruta a pingar... sua indumentária a resguardar.
A tia, após período suficiente, retirou-lhe a medalha e escondeu-a sob a pedra, para que o sol não a avarie. Será resgatada no revir do vilarejo.
Acocorados à outra borda do pedregal, mãozinhas enlaçando os joelhos, ouviram dela que o jogo é célebre entre seu povo: os deixa fortes, destemidos, empreendedores, rústicos; atributos necessárias à vida tribal. 
As carroças se abeiram e Blanche corre restituir o bebê à Colen, que não irá. Com semblante de santinha perante Sara, acondiciona Bencio e Verna sobre o assoalho forrado por tecido rustido.
Estrategicamente acomoda-se na segunda carroça, juntinho às costas de Eric, abaixo da boléia. Com Roya ao colo, trança-lhe novamente os cabelos enquanto venera o adorado. Tão perto e tão distante...
Esbanjando confiança, contudo sem se fazer de fácil, pensa e diz com propriedade, assuntos másculos, enfatizados com o dedinho indicador eriçado. A voz modulada, baixa e firme, expele as palavras, que se espalham na pastagem.
Os homens da família: Nick, Scott, Tom e Eric, o agregado, fazem gestos de admiração enquanto ela, cheia de si, discorre com propriedade sobre os problemas da vila. Com gargalhadas no olhar, nota, assim de supetão, alguma solução inusitada.
Peter, à frente com Walacy e a família,  alheio ao discurso exaltado, canta hinos religiosos. Scott, acomodado ao chão, em frente à "esposa", alisa a selecionada palha de milho, na pontinha da faca, sobre a coxa robusta. Uma cariciazinha que apenas emprega ao cigarro, bem cuidado, sem pregas.
Nas pontinhas dos dedos, esfarela o fumo picado, perfumento, e vai pitadeando num filete. Umedece levemente a libidinosa língua e beija de sul a norte, a borda da seca palha: cola natural.
O restinho de cuspe que sobra, Scott lança `a distância, admirando a "esposa" Blanche. Vai acendendo com pitadinhas minguadas, e mastiga a fumaça, satisfeito. Golfa espaçado, as bolotinhas perfeitas - um artista no ofício.

2 comentários:

  1. Uma história e tanto, a cada capítulo uma surpresa. Embora a linguagem seja rebuscada, o entendimento é fácil, mesmo porque se fala de gente. Igual no mundo todo, embora tantas diferenças culturais.
    Beijo, Cristina.

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  2. Olá, Lucinha!
    Este capítulo é adaptado de fatos absolutamente reais: vivo isto com meus aluninhos. E esta era uma de minhas brincadeiras de infância! Eles adoram ouvir.

    Outros beijicos.

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