18.10.13

Educação quantitativa









Por ocasião do dia dos professores, encontramos diversas reflexões sobre (des)educação. 
A Beth lançou sua belíssima cartada no endereço: http://supremamaegaia.blogspot.com.br/.
Ela cita o texto de Cora Rónai, aqui: http://cronai.wordpress.com/2013/10/05/o-futuro-do-passado/.
Tão ricos quanto os textos, são os comentários diversos, que fazem nossa cabeça girar em busca de melhores caminhos.
Eu gostaria de destacar tudo que mais me marcou, e acrescentar algo que não vi (ou passou despercebido).
É citado por Cora, e reforçado nos comentários, que a educação passou por mudanças na era militar, decaindo. Por que será?
Torna-se importante ressaltar que esta verdade ocorreu entre outros fatores, porque a educação passou a abarcar a quase todos.
Como assim? Quando eu fiz o antigo primário (1ª à 4ª série) na roça, na década de 70, era hábito retirar o filho (de classes populares) da escola por qualquer desculpa.
Se não levasse muito jeito, ia para o roçado... ninguém ligava! Tive muitos colegas que não terminaram a 4ª série devido a este terrível pensamento comum.
Quando concluí esta fase e passei a estudar na cidade, usando ônibus estudantil gratuito (uma novidade), fui a única pobre daquela zona rural.
Terminando a antiga 5ª série, ao retornar no ano seguinte, muitos colegas haviam se evadido. No primeiro ano do ensino médio, novo gargalo. E não eram os filhos da elite que sumiam.
A esta exclusão "espontânea" se somava deficiências (intelectual, sensorial, física), distúrbios, síndromes, transtornos.
Era impensável um autista, um portador de paralisia cerebral, ou qualquer outro "diferente" matriculado no ensino regular.
Agora vencemos a questão quantitativa: todos estão conosco... abandono intelectual é crime. APAE é apenas um apoio.
O problema é que quantidade não gera contrapartida qualitativa. Massificou-se a educação: dava-se muita educação a poucos e passou-se a dar pouco a muitos.
A palavra de ordem agora é período integral, desde bebê até o ensino médio (educação espartana). É aí que a Somnia Carvalho está em sintonia comigo, no comentário que fez à Beth:
"As crianças passam tempo demais na escola, ao meu ver. Elas não brincam, vivem em salas de aula, copiando matérias, cansadas, entediadas..."
Este "bastantão" de horas na escola, mascara terrivelmente uma falsa qualidade. A família fica satisfeita, e o governo, sossegado.
Percebo que esta educação quantitativa, em período integral, pode afetar emocionalmente certas crianças, "criadas" por estranhos, em meio a ruídos e excesso de contingente.
A luta por qualidade implica questões inúmeras. Escola é muito mais que (falta de) comprometimento de professor e aluno, que aparecem na ponta do iceberg.
É força tarefa de governo, comunidade, sociedade, universidades, especialistas (cientistas), verba$.
Dinheiro sozinho não resolve tudo; eis o caso dos Estados Unidos e da própria Noruega (1º IDH do mundo),que não estão entre os melhores países do mundo em educação: veja
Formar uma cultura educacional implica décadas. A TV (concessão) deveria auxiliar nesta empreitada, numa reformulação total da programação. Veja a qualidade da "TV Escola"... quem assiste? Quase ninguém!  
Esta cultura perpassa pela valorização e respeito ao saber científico e ao mundo acadêmico, à elevação intelectual num patamar de empoderamento. 
Sabotar aulas é sabotar-se a si próprio, depredar escolas é destruir o que é seu, diminuir professores é desmerecer seu próprio raciocínio autônomo.
Atualmente, estou parcialmente satisfeita com a atuação do MEC na educação de base (alfabetização), caminhos novos estão sendo trilhados; e com a queda na fertilidade das brasileiras, um futuro incógnita nos aguarda...
Contudo, se comparada à família, a escola continuará seca e dura, principalmente para aqueles alunos transportados por vans, que ficam horas perambulando de bairro em bairro.
No mundo todo, os adultos procuram formas de trabalhar menos horas e passar mais tempo livre. O estudo é o trabalho do estudante, então ele se vê roubado de si mesmo, dobrando a jornada e consequentemente, dobrando a má qualidade, numa conquista ilusória!

Fonte da imagem:      

6 comentários:

  1. Cristina,
    Vim conferir seu post-comentário sobre o tema que lá abordamos.
    Muito bom seu enfoque, sua percepção já que está na ativa e ainda por cima numa parte do país que é importante, devido à ser mais distante, no interior, informando pros outros a quantas esteve e está o ensino.
    Como você viu por lá, a maioria é professora, convidei algumas que nem estão mais blogando ativamente, mas que se interessam no tema, e pudemos perceber tantas nuances que envolvem o descrédito e a situação precária a que chegamos, acima apenas da Indonésia, 29o.lugar, uma vergonha sem precedentes, porque explicação está toda contida nos comentários excelentes de cada uma de vocês.
    Há que se rever muita coisa no país, os tempos são outros e, desde às leis de uma maneira geral, ao ensino, tudo precisa de uma reforma e urgente. O problema é que como não se faz quase nada, ou se faz, como você bem disse, para mascarar a situação, calar a boca do povo, vemos então que só mesmo daqui a uns 50 anos é que colheremos bons frutos e isso se começarem amanhã a fazerem o que tem que ser feito. Mas, cá entre nós, você acha que políticos que aí estão, têm condições de fazer, pensar e sentir pelos problemas que tanto necessitamos? Esperança a gente tem,porque somos um povo religioso, um povo cordato, mas a cada dia ela se extingue um pouco.
    Desejo muito a vocês, profissionais da educação, que tenham, pelo menos, a ajuda da família, que ela seja a precursora de novas mudanças, pois ainda continua sendo a grande célula mater de um povo.
    Obrigada pelo cometário e link. adorei!
    beijinhos cariocas


    (vou puxar lá o seu link também)

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  2. Ah, Betinha!
    Quanto por se fazer... quantas barreiras, quanta distância entre teoria e prática...
    Minha maior preocupação no momento é principalmente com os pré adolescentes.
    Os miudinhos chegam tão bem trabalhados para nós, aos seis anos já estão se alfabetizando, são tão sabidos!
    Todavia depois que passam a estudar com várias professoras, no sexto ano, entram em uma cultura de desleixo estudantil que me assusta.
    Os especialistas necessitam intervir urgentemente neste ponto da etapa educativa, para que a autonomia e interesse intrínseco sejam focados.
    Se faz emergente levá-los ao final do ciclo com uma base mínima, para encarar os novos desafios do ensino médio.
    Os alunos com altas habilidades têm sido negligenciados... esses sim necessitam de educação em período integral, porém com qualidade superior, atendidos preferencialmente por mestres e doutores, pois serão os nossos Einsteins futuros.
    As crianças que não conseguem um desempenho acadêmico tão satisfatório, devido `as diferenças individuais, necessitam de ensino profissionalizante desde meados do ensino fundamental, com aprofundamento no médio, para atuar com afinco na sua localidade.
    Tem-se feito muitas experiências governamentais com a garotada, sem continuidade educacional, sem foco, à base do ensaio e erro, isso não pode persistir.

    Grata pela atuação em prol da educação, em prol do Brasil!

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  3. Gostei bastante de ler o seu texto.
    Tem razão quando afirma que quantidade não significa qualidade.
    As crianças, para além de frequentarem a escola, necessitam de tempo para brincar, para falar com a família e amigos, para ler, para ver os programas televisivos apropriados à sua faixa etária.
    Bom fim de semana

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  4. Oi, Catarina!
    Aqui no Brasil, educação para todos é coisa muito recente. Quando analisamos a excelente educação pública das décadas de 60 e 70, necessitamos levar em conta que muitos eram literalmente expulsos por questões banais.
    E a expulsão indireta era mais corriqueira ainda! Hoje eles chegam ao ensino fundamental com uma escolaridade sólida, conquistada na educação infantil. Daí em diante a máquina começa a emperrar...
    Fui criada na roça, ao ar livre, e me assusta ver os "depósitos de crianças": escolas em período integral, da 7 h às 17 h. O que sobra para se viver?

    Ótimo descanso também procê!

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  5. Olá, Cristina!

    Fiquei feliz por vir aquir ler seu post, mesmo depois de tanto atraso, e ler compartilhada sua experiência pessoal. Já conversei com pessoas que foram alfabetizadas depois de adultas que me relataram o mesmo.

    Beijos e obrigada,

    Michelle

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  6. Oi, Michele!
    Eu que agradeço sua visita.
    Na educação, caminhos estão sendo abertos: uns em campo aberto e outros por pedreiras cortantes.
    Creio que em uma ou duas décadas, perceberemos avanços. Sim, daqui vinte anos! Os passos são lentos...

    Outros beijitos a ti"!

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