4.11.13

Blanche - XL

*Digite "Blanche" em "pesquisar" e terá toda a série (tarja azul marinho - lupa).

E as leves asas do tempo voaram desmesuradamente... a desacorçoada Ariadne é acordada de súbito numa noite seca, pouco antes da madrugada. Um desconhecido, a cavalo, esmurra-lhe a janelinha de paus engretados. 
Ela gira a tramela e sonda de meia cara; à luz vazada da lua, se depara com um vozerio masculino, informando em supetão, que lhe trouxera o corpo do esposo. Notícia suspensa, sem dono.
Arranca solavancadamente da mula aquele corpo inerte, amarrado, desgastado. Assim que a porta se abre, deposita-o num canto do cômodo, sobre um pano xadrezinho que Ariadne estende. Sem esticar prosa, o vulto se vai; missão cumprida.
Temerosa, assustada e em parte com alívio, não toca o defunto, nem mesmo se aproxima...faz uma breve oração em cochicho poemado, pois é obrigação derradeira de esposa. Acocora-se ao canto oposto, descalça, com o barrado da saia entre as pernas, velando solitária.
A noite escorrega lisa e lenta, puxando-se as rédeas; um sorvedouro invade a viúva, enquanto a cruviana  sibilante assopra pelas gretas do barraco. Em litígio, madrugada e arrebol disputam, até que irrompe a luz. 
Uma emboscada o desertara em meios-trajes, até mesmo as velhas botas... o desertaram sem vida, e as poucas autoridades de Corda Bamba, em protocolo, apenas cuidariam dos trâmites documentais. 
Ariadne se apressa a contratar um serviço para o enterro, embaixo da mesma macaubeira, lado oposto à avó. Sem lágrimas, sem flores, sem vazio... numa estroina densa, mantém distância inteligente. 
O menino, correndo aos braços da garotinha vizinha, segue absorto, as borboletas sem graça que pousam nas fezes bovinas do terrapleno sem cercas. Era um pai? Nem percebe. 
Para a quinzena, Lucano a visita, costumeiramente, e recebe a notícia em sobressalto: a cunhada não deve durar em desamparo. Agora, definitivamente casado com sua irmãzinha após a orfandade, faz-se homem da família. 
Sem rodeios, Ariadne planeia um futuro lidador, de mulher possantona e liberta: do pai, do reverendo, do esposo e do cunhado em antemão. Já dividiu a viçosa vivenda em quatro compridos lotes, arrematando-se ao rio. 
Havia algo na conta bancária, fará cômodos comerciais. E inclusive manterá um deles à frente do barraco, para sua oficina pessoal. Haverá trabalho infindo com as redes e os bordados.
O bebê na barriga não tarda, aquela dura bolinha desgrudada destoando do corpo magro, que ainda amamenta. Será a remota alusão às cruéis amarras servis. 
Riolama? Pro futuro, assim que amputar a heteronomia e desbastar empreendedoristicamente um aceiro seguro, neste conflagrado mundo masculinizado, angariando pingo a pingo, convicção e credibilidade comercial.

4 comentários:

  1. Olá Cristina, alcancei você!
    Venho lendo esta história capítulo a capítulo e agora... ;-)
    Gostei da linguagem usada... rude como a cultura machista local, transportando o leitor por estradas poeirentas a moradias rústicas.

    Sabe, eu li vários capítulos seguidos e cheguei sentir medo de "ver" o "carroção" cair penhasco abaixo, em meio a enormes pedras? rsrsrs

    Abração
    Jan

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  2. Oi, Jan!
    Que bom você ter se envolvido... eu estou atarefada com a escola, meu curso e a oficina, não consigo escrever / ler / visitar.
    A Blanche me pisoteia para ser expelida!
    Sabe que preciso reler (para não ficar descosturado) e nem isso consigo? Todavia em 20/12 chegam as férias escolares!

    Fico grata pela leitura,
    outro grande abraço interiorano.

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  3. Belas descrições para que a leitura seja agradável e desperte a curiosidade.
    Construção perfeita Cristina.
    Meu terno abraço.

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    Respostas
    1. Bom dia, Toninho!
      Grata pelo elogio. A Blanche está envolta em tantas aventuras... aos poucos vão se externando.

      Outro grande abraço.

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