13.11.13

Blanche - XLI

*  Aqui  terá o conto completo!

Após semanas marinadas em rotina, na manhã desta quinta-feira chuvosa, ouve-se acabrunhadores gritinhos desusados à margem da floresta que se escorrega, magnificente e desimpedida.
Blanche colhia água fresca ao regato, corre até Nick e ambos averiguam. Surpreendentemente, silhuetas inquietadoras despontam pelo lado norte, estando a reserva indígena a oeste.
Visivelmente abatidos e esfarrapados, estão sem um pedaço sequer de pele de suçuarana a lhes proteger da chuva frigíssima. A uma distância prudente, estacam e estudam, medrosos, a dupla anfitriã.
Um vem de arrasto numa maca rudimentar, puxado intercaladamente pelos outros. Os quatro aborígenes a espreitar, aparentam estar na puberdade, aos quinze anos aproximadamente.
Acostumada de antanho, a receber visitas similares, Blanche se aproxima lentamente, falando baixinho na língua deles, embora sem muito domínio. Destarte, os homenzinhos brutos se exaltam.
Justamente o garoto da maca é o líder, e lhe dirige resposta. Necessitam adminículo urgente, pois estão à beira da inanição, perdidos a várias luas na selva sombria, enquanto caçavam, num rito de passagem.
Nick vai se achegando, toma o controle da maca e todos o seguem rumo à tulha. Ali instalados, enquanto ele cuida do enfermo em meio ao bulício, ela prepara generosa ração com escopo de arribá-los.
É servida uma paçoca de carne assada pilada com diversos farináceos. Frutas silvestres, castanhas e rapadura complementam o prato, que é devorado num chupão, em meio a olhares afoitos e confluentes. 
Blanche retoma a ordenha sozinha, pois conhece o temperamento investigativo de Nick... pelo restante da semana, ele descambará para a tulha. A garota, no entanto, não vê nenhuma exoticidade na soberba ocorrência. É acostumada.
Estirados à palha seca, refestelados e seguros, os três passam a cochilar instantaneamente, após inúmeras noites soltos à intempéries do relento. O quarto menino mira com ferocidade acentuada ao ser tocado na perna quebrada.
Melhor não bulir; o ferimento já vem de longe e a tala parece razoável. Arredio, insubmisso e intratável, o animalzinho acuado morde seu protetor, que não lança um esturro em respeito ao sono dos demais.
Sobreveio a tarde, e Nick preparou um vigoroso chá anti inflamatório, pois o acidentado arde em febre a diversos dias, castigado por indizível sofrimento. Amansado, cede ao esgotamento e dorme em sobressaltos.
Sua debilidade e abatimento devido ao ermo implacável são tamanhos, que ossos lhe saltam assombrosos. Respira com lacônica sofreguidão, ainda preso à calamidade inconveniente.
Nick admira longamente o quarteto, agora entregue à mansidão do sono. Vendo-se estatelado naquela imensa solidão árida e profunda, apenas rasgada pelos gritinhos de Blanche contra os caprinos, remete-se a seu próprio indiozinho: Tom!
Dialoga com o seu outro eu, do alto de seus poderes, sobre o estigma da solidão, que o quartetozinho não amarga conhecer. Numa conversa franca, inventaria seu "relacionamento" com Tom. Perde lágrimas quentes, que em dicotomia, traça uma trilha gélida no rosto e no coração.

6 comentários:

  1. Olá, querida Tina
    Quem tem o dom da palavra deve seguir escrevendo para edificar aos demais...
    Bjm de paz ebem

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  2. Ótima tarde, Rosália!
    Fico grata, todavia escrevo para me aperfeiçoar. Uma professora deve ler e escrever muito.

    Um beijo sereno.

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  3. Olá Cristina!
    Você parece ter conhecimento empírico sobre o comportamento indígena, pois o descreve com certa familiaridade...

    Abração
    Jan

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  4. Oi, Jan!
    Eu fui criada no mato, em meio a caboclos, que contavam muitas histórias de épocas antigas. Me deixavam fascinada!

    Outro abraço a ti.

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  5. Olá Cristina.
    lindo aperfeiçoamento, poderia virar um livro, adorei este capitulo vou procurar ler os demais capítulos.
    Uma linda semana. Beijos.

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  6. bom feriado, Verinha!
    Sempre gostei destas histórias mateiras, então tento reuni-las dentro do mesmo tema.
    Fico grata por ti!

    Outros beijos.

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