22.11.13

Blanche XLIII

*  Aqui  terá o conto completo!

Ao arrebol do domingo, um desjejum com mingau para o trio de indiozinhos debutar a jornada à absorta reserva, que se avantaja para oeste. Perlustrarão a miríade e implacável trilha, que deslocou a cunhãzinha Noru e outros silvícolas ali mergulhados violentamente antes dela. 
Ração de carne defumada, rapadura de abóbora, farináceos e frutas passas a decantar a jornadona de tripla diária. Nova pederneira substitui a que rolou pela ribanceira com o guia. Arcos e estoque de flechas foram apetrechados ontem, assim como a zarabatana. 
O fraco garoto comandante albergar-se-á com o escopo de recobra da calamidade. Nick se foi ontem, aflitozinho com possíveis sequelas na quebradura... o risco de gangrena pela fratura exposta foi extinto, pois a febre cedeu. Resta saber se a solda deixará o osso defeituoso.
O ferido, todo ele acabrunhado, se exonera do desprendido trio, que segue bem antes do primeiro raio solar. Animais silvestres mantém a trilha aberta e fresca; bulícios e vultos do grupo se apagam gradualmente no cerne da mata. Foram-se!
O chefe enceta o relato à Blanche sobre o debilitante martírio, quando desvalou-se no penhasco, prostrado ferido na cava do assombroso vale, segregado ao lado dum poético regato correntoso e acachoeirado.
Fora resgatado devido ao importante posto de líder, outro integrante da equipe seria abandonado à míngua. Não se trata de maldade, é propiciatória tática de sobrevivência, pois necessitaram dois dias para o difícil resgate do ermo medonho.
Alterando a vereda, pela impotência em subir uma maca ao despenhadeiro,  extraviaram-se no espesso sertão bruto, se embrenhando na direção oposta à reserva, e próximo aos terríveis silvícolas isolados que vivem em plena idade da pedra.
Naquelas traiçoeiras brenhas do vale, transmudaram a vegetação emaranhada, com magnificente cipoal denso e árvores espessas de altura respeitável. Animais ferozes espreitavam em lacônica advertência.
O cruel sofrimento do cecerone, solavancado na maca, arrebatava seguidos desmaios. Na obscura luta pelo resgate, perdeu-se armas e mantimentos, sobrejando apenas o facão, que custou a ser resgatado.
A fome apertava, conquanto estavam habituados a ingerir insetos e castanhas de palmeiras, afarinhados frutos do jatobá, raízes e cascas de árvores. Riachos não minguavam, e por eles a equipe seguia.
O guia contudo, sobrevivera por semanas com meramente água e mel, sem comer ou dormir (arrancava cochilões), pela dor dilacerante e persistente. Em agoniada sofreguidão, abortando peso e ânimo.
Arrostou e solicitou a morte intermitentemente...
O cãozinho que sempre os acompanhou também emagrecera drasticamente, porém alegria nunca lhe escapava. Perseguia pássaros infantes, com corridinhas e volteio, grunhidos e latidos, tapeando os pobres; caçava pequenos animais e comia abundantes espécies de sapos à beira d'água.
Sem a pederneira para as fogueiras noturnas, que tanto apreciava, aninhava-se entre folhas secas, formando uma simpática bolinha preta, seguindo com as orelhas, a contínua bulha da floresta hostil.
De pequeno porte e agilidade indecisa, com longo rabinho peludo e olhar faiscante, como quem nos enxerga o cérebro. Era o achador de ovos para todos, menos prá si próprio... recusava-se à iguaria impalatável a si.

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