7.12.13

Blanche - XLV

*  Aqui  terá o conto completo!

Com o advento de Tom à Montanha dos Caprinos, o garoto ferido persevera nos relatos, dia após dia, no decurso do “almojantar”. Evasivo e silente, Tom arraiga-se às proximidades da tulha, estimulado pelo intuito de atinar a estoica façanha.
Gesticulando com trejeitos de agonia, e aguardando a tradução por Blanche, ia o menino narrando cada etapa, cada dia da madrasta aventura na brenha de volume impotente no tudo e no nada. O respirar ofegante, o embargamento de voz, denunciavam a veracidade profunda daquele relato:
E então, agora sem a salvaguarda do cão, a latir com furor, o abnegado grupo acolitou morro acima e enveredou fatigante, por um monótono ribeiro. Portando bordunas, distendeu-se lentamente, devido ao catre do ferido, naquela opulenta natureza selvática.
Abduziram-se da fumaça, dos rastros e ruídos peculiares dos errantes e ameaçadores silvícolas isolados. Eles impõem respeitável fama de canibais e nutrem rancor mortal a qualquer outro grupo, vivendo em constrição, ainda no período neolítico.
Porquanto, não mais se depararam com cabaças quebradas, cestos de palha rustidos, escória de ocas e temíveis tacapes ornados, que os deixavam inquietos e apavorados. A fobia de emboscadas já não lhes espreitava com ardor, estando o som  dos borés cada vez mais distante.
Após enrolarem um morro abrupto, foram completamente embriagados pelo tinido da sineta da capela... era proclamação de óbito no vilarejo. Gritaram e saltitaram assanhadinhos, à borda do abarrancamento com fundas gargantas de rochas a repeli-los.
Foram impulsionados por aquele providencial retumbar, vindo espaçadamente de trás do maciço. O som lhes era íntimo, pois ouviam-no constantemente da reserva. Uma réstia de esperança percorreu seus frágeis corpos surrados naquela tardinha abafada; a caminhada passou a render consideravelmente.
Quando o ribeiro se afinou, transmutando em regato, montaram bivaque debaixo de uma espessa  e encarnada moita, de odor inebriante. Com crassas folhas de inhame, angariaram peixinhos minúsculos e girinos, engolindo vivos, sem piedade ao paladar.
Nuvens colhiam espaço no céu grafite, em meio à noite foram despertos pelo assopro impetuoso do vento, que varria folhas secas, assoviava e rugia na encosta, chacoalhava a vegetação, anunciando iminente temporal.
Alarmados bramidos de feras com hábitos noturnos ecoavam, desencadeava-se a busca por abrigo na flora pródiga, com as estropiadas nuvens indecifrantes a avolumarem-se. Os incomensuráveis  insetos de vargeados lamacentos ecoavam em sinfonia.
Foi o catadísmico aguaceiro da jornada: estreado por amplos granizos, que cingiam a pele e roçavam a densa moita, seguiu-se então a intempérie elétrica, com raios cintilantes e trovões estridentes, atuando numa luta titânica.
Passado o horror, um fino e persistente chuvisqueiro acompanhou-os em suplício gelado até o alvorecer. Com árvores inferiores, desvencilharam-se mais fluentemente e beiradejaram a encosta, sugando suculentos gomos de cana de açúcar.
Foi quando astuciosamente romperam a pastagem: lá estava possivelmente o antigo chão sagrado dos ancestrais. Haviam caminhado cerca de quatro horas, pelos cálculos de Tom. Foi quando apregoaram pelo ajutório de Blanche.

2 comentários:

  1. Olá, acabo de visitar seu blog e segui-lo. Lhe desejo foco, sucesso e força. Que conquiste muitas realizações através do mesmo. E também convido você e seus/suas leitores/leitoras a conhecer o meu blog: toobege.blogspot.com.br . Beijinhos e espero você lá também *0*

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  2. Oi, Mariana, seja bem vinda. Irei te visitar, conhecer seu cantinho também!
    Outros beijos.

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