25.12.13

Blanche XLVI

Já na sombra da noite, um som retumbante ecoa intermitentemente da reserva. Tom, escarrapachado à terra fofa, se vê cada vez mais instigado pelas histórias, estilo de vida e pelo ser pensante dentro do menino de tranças.
O semblante de Tom, escancarado em devaneio, denuncia o conflito entre seus eus. Não se via índio até então... e nunca se viu branco... era mais prá negro. A identidade estilhaçada pela fuga materna e morte paterna, forjou-se no colo de Colen e Walacy e expande-se agora. É humano? Que humano?
É ele próprio meio índio, assim como Blanche, e sentindo-se momentaneamente parte numa quase família de três, se achega à fogueira que assa as batatas de feijão inhame (jícama), enquanto o braseiro suspira estilhaços. Em certo apego aflorado, puxa prosa. Cada pé descalço do trio cutuca pedriscos cada vez menores. 
Indiozinho pinta quadro cotidiano sobre a reserva, sem impropérios: festas, lutos, caças, plantio, lambidelas em frutos exóticos sob árvores espreguiçadeiras e as agruras da vida comunitária, banal e extraordinária, monótona e excêntrica, como qualquer vida, afinal. 
Blanche abstrai, recosta-se ao rochedo, mil estrelas a banham. Após horas de proseio, conclama “os irmãos” ao repouso, cada qual em seu recanto. Sua cabana, em telhado inclinado a aguardar a neve decenal, olha espreitadamente o vale por uma janela lateral, minúscula.
A solicitação do guri faz Tom retornar: no pensamento e na trilha. Estalinhos de gravetos e folhas secas. Refazer as tranças. Ao tocar os longos e sedosos cabelos lisos, sente a força e beleza daquela (agora sua) etnia. Sente a humanidade fluir com o leve aroma e ausência de luz daqueles fios.
Trançam um olhar excedentário, onde Tom, que apenas possuía um companheiro genuíno (Nick), passa a auxiliar assazmente o rapaz, que cresceu rodeado por diversos companheiros. Pensa nesta palavra: muito mais potente que AMIGO!
A túnica indígena, trançada por Blanche, confere identidade ao garoto despassarado de outrora. A perna algoz, antes inexcedível, transige aos pouquinhos. Já caminha com cajado. O apoio idiossincrático de Tom protege-o até a data da descida ao vale. 
Na noite anterior porém, cansado da rede espinhosa, em siricotico, rompe o terreiro a conversar com a cruviana madrugadeira. Circunda o paiol e entrevê o rapazote a ronronar. Bafora seu cachimbo com as cascas lisérgicas, bafora seu insignificante passado matuto, bafora um futuro sagaz.
Num rompante, corre, cai, esmurra a porta violentamente, assustando o rapaz. Decidiu ampará-lo na volta, ao chegar a hora. Necessita encontrar-se, centrar-se, requer desesperadamente esta jornada interior, apesar das assombrações que de lá voarão. 
Faz planos minuciosos, desenha o chão com galhinho seco, gesticula vigorosamente. O garoto compreende a custo, embarreirado pela fala enoseada e por seu sono arrancado. Fim do desenrascanço, admite impendente o mais recente companheiro!

2 comentários:

  1. Oi, Cristina. Janeiro, até hj, foi sem tempo para correr blogs.
    Cadê mais de Blanche?
    Beijo!

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  2. Olá, Lucinha!
    Estou mesmo em falta com minha querida Blanche... é que fiz um blog só prá ela, e estou editando os textos. Nesta semana termino e reinicio a escrita. Aguarde!
    Outros beijos a ti.

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