24.2.13

Infância

Imagem:  http://produto.mercadolivre.com.br

Me situo bem lá atrás, iniciando a idílica década de 70 na roça, pelos meus 8, 9 aninhos, numa tarde ensolarada de domingo veraneio. 
Os caseiros da Fazenda "Santa Maria" foram levar costura à minha mãe: aquele bando de crianças traquinas se aglomerou.
Aproveitei para estrear meu novo par de chinelinhos havaianas. Subimos ao regato para brincar, pois era estação chuvosa e ele estava volumoso.
Este regato, tão inquebrantável em minha vida, na verdade é um canal acinturando a montanha, que abastecia com água diversas habitações sob seu curso.
Fora construído provavelmente por escravos, a levar água à antiga  fabriqueta de farinha de milho na fazenda do Tio Antenor.
Após muita brincadeira morro acima, adentramos o mesmo, onde ele desviava água para a casa do Tio "Lia". Ali se acumulava muita areia ao fundo, e a correnteza era forte.
Numa pisada mais funda, meu chinelinho ficou preso na argila mole debaixo da areia. Entrei em pânico, pois acabara de estreá-lo, estava novinho! 
Tinha convicção de que ele havia rodado regato abaixo, e segurando o outro com as mãos, pedi ajuda; campeamos por tudo logo adiante, fuçamos sob as moitinhas que se debruçavam na água, e nada...
Mais uma vez fui ter ao regaço de minha salvadora - a vovó me compreendeu sem xingatório e voltamos as duas à cena da tragédia. Experiente, ela remexeu a areia e arrancou milagrosamente aquela peça valiosa!
Me recordo vivazmente todo o frenesi inicial com a chegada das visitas; o desespero pela perda de um bem quase animista; e no desfecho, a delícia frutuosa; embutidos nesta infanta tarde domingueira.

22.2.13

Blanche - XIV

*  Aqui  terá o conto completo!

O sol de arrebol invade o recinto pelas frestas, despistando as movediças nuvens peroladas. No salão, mesa posta com chá de alfavaca borbulhante, pinhões cozidos e bananas da terra assadas.
Ovinos por ordenhar, equinos a arrear, porcos e galinhas a nutrir, antes de todos seguirem à celebração religiosa no vilarejo. O coração da jovem cabeceia em ansiedade. 
Blanche, recostada ao portal num só pé, alimenta curiosidade pela gravidez adiantada da cunhada; conquanto enrubescida e pouco contrançada, nada questiona, nem a toca, siderada pelo tabu. Um novo bebê na família induz uma delícia retorcida. 
Sendo a generatividade ligada ao ato sexual, não se fala sobre o enxovalzinho, sobre a dissimulada barriga por onde seu olhar navega absorto, nem sobre a (perigosa) parição, mesmo que em fala enrodilhada.
Colen, sempre com os beiços arregaçados, não conta nesta segregação, pois entre ela e Sara não há o mínimo sigilo, estão amalgamadas. O parto rústico ficará a critério e responsabilidade somente de ambas. 
Resignada, Blanche entretece as pontas do avental nos dedos indicadores, se contentando com o posto de segunda amiga, sendo apenas a visitante querida e aguardada, todavia não tão íntima.
O apego entre Sara e Colen é carne viva e todo hermético, esta é o esteio daquela. Bobagem tentar ler com esforço míope o pacto ternural traçado nas entrelinhas.
Enquanto a bugrezinha veste seu único vestido à altura da celebração, as amigas seguem à cabana de Sara, vão aprontar as esguias crianças, empanadas pelos dançantes fachos de sol.
Serão duas carroças transbordantes: Na primeira, os caseiros com a família de Sara; em seguida, Blanche com os seus, acocheirados pelo prestativo e nefelibato Tom, de voz velada. 
Os raios dourados chuparam o orvalho e tingem a falda desbotada pela estação seca. Costumeiramente, os habitantes levam seu almoço para o piquenique na Vila, ancorados em mútua hospitalidade. As toalhas abraçam veladamente a relva, numa tímida carícia. 
Temos os pinhões que sobraram, ovos cozidos, queijo ervado e frutas da estação. Blanche, toda nostálgica, fará esta refeição rápida com sua família de origem. Enquanto devaneia, o restinho de cruviana lhe alvoroça os cabelos.
No caminho que segue a nordeste, somente as duas carroças brutescas, não há outros habitadores devido à cadeia montanhosa a sudoeste. Os homens vão acomodados à frente, na boleia, enquanto a menina se recosta lateralmente no piso do carroção.
Eric, quase anestesiado, morde o cantinho do lábio inferior enquanto seu olhar amadurecido penetra Blanche às migalhas, quando lhe vira sorrateiramente a cabeça, nos solavancos das curvas.
Um arrepio percorre longitudinalmente o corpo da garota. As mãos espalmadas junto ao chão de tábuas ondulam acompanhando o curso da estrada. Nenhum som, sôfrego que seja. Qualquer coisa de secreto parece lhes invadir as almas, no toque negado.
Blanche sorve o odor lisérgico do amado através da cortina de poeira, que dança, afogando o quase casal, e desmaia no vento que lambe a silhueta de Eric à frente. Presença pura atiçando a tentação de enovelá-lo.
Aproximando-se do abrupto e trovejante “Rio orgástico”, que galopa por todo o vale, começam as encruzilhadas de propriedades a leste, desembocando nele. A terceira é de Rob, e Blanche indaga se o pai já seguiu. Pela assinatura marcada na terra, sim. 
É o acontecimento a reunião domingueira e obrigatória, junto à capela. O Reverendo Albert alinhava toda a região: Em meio à semana, cavalga as propriedades arrebanhando, aconselhando, politizando.
Seu papel preponderante faz dele O líder. Detém poderes junto ao governo e é apaziguador dos constantes conflitos. Raspa com força o orgulho enredemoinhado nas mentes perdidas.
Charlote, sua intelectual e grisalha esposa, arquiva com lógica própria, numa “Biblioteca” no anexo da capela, toda a documentação referente ao vilarejo e seus habitantes, para que as palavras nunca entrem em divórcio com o pensamento.
Na predominância de lares iletrados não faz sentido armazenar papéis ilegíveis, então quando necessitam de burocracia é à exclusiva dama escriba que recorrem, confiando-lhe cegamente. 

16.2.13

Canela

Não se imagina o aroma delicioso neste recinto. Estou a fazer um panelão de arroz doce com a canela retirada à própria árvore na terça-feira.
Colhi-a no Mamonal - pomar do tio Nísio, raspei bem para expelir os líquens parasitados nela, lavei e cortei em tiras finas, pois ao secar se enrolam todas.
É uma bela árvore, porém ainda adolescente. Retira-se umas lascas com a ponta da faca, e logo ela se recompõe. Há nela algumas cicatrizes de colheitas anteriores.
É delicioso dar o começo e ir puxando levemente aquela cascona. Se solta toda perfumada em nossas mãos, deixando naquele espaço um tronco nu e liso.
No depósito de bebidas aqui na quadra há deliciosas balas de canela, em formato de bolinhas. Sempre que passo por lá, compro três: duas para mim e uma para o Esposo. São divinas.
Deixei as cascas secando à sombra por quatro dias e estão prontas. Coloquei-as ao fogo com um copo grande (raso) de arroz e cinco de água; açúcar o suficiente.
Agora que o arroz já amoleceu no fogo e secou bem, coloquei um litro de leite integral. Torna apurar até estar cromoso. Será bom.
Pouco antes de desligar o fogo, deve-se adicionar uma gema de ovo batida num golinho de leite, fará  a receita encorpar. Uma pitada de sal para quebrar a doçura, e estará pronto.
No sítio, as tias fizeram doce de mamão com muita canela. As visitas foram todas servidas, de domingo à terça-feira de carnaval.
A máquina fotográfica está na oficina (trancada e com alarme), então não garanto as fotos...  Esta da net tem os paus de canela idênticos aos meus, só não ralei para extrair o pozinho da casca.
Está caindo um chuvisqueiro fresco para acompanhar meu prato quentinho. Estão servidos? Então venham ao leste paulista!
Fonte da imagem :   http://saborprazer.blogspot.com.br
A canela é carminativa (reduz os gases), é antiulcérica e facilita a digestão. Ajuda na gastrite, por diminuir a acidez, e estimula o apetite.
Auxilia na cura de doenças respiratórias pela sua riqueza em propriedades antibacterianas, expectorantes e anti-inflamatórias, sendo especialmente indicada contra  bronquite, resfriados e tosse.
Ajuda na má circulação periférica nos dedos das mãos e dos pés, auxilia na menstruação; é antisséptica, combatendo infecções vaginais. Uma especiaria imprescindível para aromatizar nosso chá.

14.2.13

Sóror Mariana - quinta carta



Em homenagem ao dia de S. Valentim (digite Sóror em "pesquisar" e terá as 5 cartas)

Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir, na diferença de termos e modos desta carta, que finalmente acabou por me convencer de que já me não ama e que devo, portanto, deixar de o amar.
Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me resta ainda de si. Não receie que lhe volte a escrever, pois nem sequer porei o seu nome na encomenda. De tudo isso encarreguei D. Brites, que eu habituara a confidências bem diferentes. Os seus cuidados não me serão tão suspeitos quanto os meus. Ela tomará as precauções necessárias para que eu fique com a certeza de que recebeu o retrato e as pulseiras que me deu. Quero porém dizer-lhe que me encontro, há já alguns dias, na disposição de me desfazer e queimar essas lembranças do seu amor, que tão preciosas me foram. Mas tanta franqueza lhe tenho mostrado que nunca acreditaria que eu fosse capaz de chegar a tal extremo. Quero sentir até ao fim a pena que tenho em separar-me delas e causar-lhe ao menos algum despeito.
Confesso-lhe, para vergonha minha e sua, que me encontrei mais presa do que quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti outra vez necessidade de toda a minha reflexão para me separar de cada uma em particular, e isto quando já me gabava de me ter desprendido de si. Mas, com tantos motivos, consegue-se sempre o que se deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites. Quantas lágrimas me não custou esta resolução! Depois de mil impulsos e mil hesitações, que nem pode imaginar, e de que certamente não lhe darei conta, roguei-lhe para me não voltar a falar nelas, nem mas restituir ainda que lhas pedisse só para as ver uma vez mais e, por fim, remeter-lhas sem me prevenir.
Não conheci o desvario do meu amor senão quando me esforcei de todas as maneiras para me curar dele, e receio que nem ousasse tentá-lo se pudesse prever tanta dificuldade e tanta violência. Creio que me teria sido menos doloroso continuar a amá-lo, apesar da sua ingratidão, do que deixá-lo para sempre. Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão, e sofri penosamente em combatê-la, depois que o seu indigno procedimento me tornou odioso todo o seu ser. O orgulho tão próprio das mulheres não me ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e teria suportado o ódio e o ciúme que me provocasse a sua inclinação por outra! Ao menos, teria qualquer paixão a combater. Mas a sua indiferença é intolerável. Os impertinentes protestos de amizade e a ridícula correcção da sua última carta provaram-me ter recebido todas as que lhe escrevi e que, apesar de as ter lido, não perturbaram o seu coração. Ingrato! E a minha loucura é tanta ainda, que desespero por já não poder iludir-me com a ideia de não chegarem aí, ou de não lhe terem sido entregues.
Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu para me dizer pura e simplesmente a verdade? Porque me não deixou com a minha paixão? Bastava não me ter escrito: eu não procurava ser esclarecida. Não me chegava a desgraça de não ter conseguido de si o cuidado de me iludir? Era preciso não lhe poder perdoar? Saiba que acabei por ver quanto é indigno dos meus sentimentos; conheço agora todas as suas detestáveis qualidades. Mas, se tudo quanto fiz por si pode merecer-lhe qualquer pequena atenção para algum favor que lhe peça, suplico-lhe que não me escreva mais e me ajude a esquecê-lo completamente. Se me mostrasse, ao de leve que fosse, ter sentido algum desgosto ao ler esta carta, talvez eu acreditasse; talvez a sua confissão e o seu arrependimento me enchessem de cólera e de despeito; e tudo isso poderia de novo incendiar-me.
Não se meta pois no meu caminho; destruiria, sem dúvida, todos os meus projectos, fosse qual fosse a maneira por que se intrometesse. Não me interessa saber o resultado desta carta; não perturbe o estado para que me estou preparando. Parece-me que pode estar satisfeito com o mal que me causa, qualquer que fosse a sua intenção de me desgraçar. Não me tire desta incerteza; com o tempo espero fazer dela qualquer coisa parecida com a tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a odiar: por de mais desconfio de sentimentos de sentimentos exaltados para me permitir intentá-lo.
Estou convencida de que talvez encontrasse aqui um amante melhor e mais fiel; mas ai!, quem me poderá ter amor? Conseguirá a paixão de outro homem absorver-me? Que poder teve a minha sobre si? Não sei eu por experiência que um coração enternecido nunca mais esquece quem lhe revelou prazeres que não conhecia, e de que era susceptível?, que todos os seus impulsos estão ligados ao ídolo que criou? que os seus primeiros pensamentos e primeiras feridas não podem curar-se nem apagar-se?, que todas as paixões que se oferecem como auxílio, e se esforçam por o encher e apaziguar, lhe prometem em vão um sentimento que não voltará a encontrar? , que todas as distracções que procura, sem nenhuma vontade de as encontrar, apenas servem para o convencer que nada ama tanto como a lembrança do seu sofrimento? Porque me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto de uma afeição que não deve durar eternamente, e a amargura que acompanha um amor violento, quando não é correspondido? E por que razão, uma cega inclinação e um cruel destino, persistem quase sempre em prender-nos àqueles que só a outros são sensíveis?
Mesmo que esperasse distrair-me com nova afeição, e deparasse com alguém capaz de lealdade, é tal a pena que sinto por mim que teria muitos escrúpulos em arrastar o último dos homens ao estado a que me reduziu. E embora me não mereça já nenhum respeito, não poderia decidir-me a tão cruel vingança, mesmo se, por uma mudança que não vislumbro, isso viesse a depender de mim.
Procuro neste momento desculpá-lo, e sei bem que uma freira raramente inspira amor; no entanto parece-me que, se a razão fosse usada na escolha, deveriam preferir-se às outras mulheres: nada as impede de pensar constantemente na sua paixão, nem são desviadas por mil coisas com que as outras se distraem e ocupam. Creio que não deve ser muito agradável ver aquelas a quem amamos sempre distraídas com futilidades; e é preciso ter bem pouca delicadeza para suportar, sem desespero, ouvi-las só falar de reuniões, atavios e passeios. Continuamente se está exposto a novos ciúmes, pois elas são obrigadas a certas atenções, certas condescendências, certas conversas. Quem pode garantir que em tais ocasiões se não divirtam, e que suportem os maridos somente com extremo desgosto, e sem qualquer aprovação? Como elas devem desconfiar de um amante que lhes não peça contas rigorosas de tudo isso, que acredite facilmente e sem inquietação no que lhe dizem, e as veja, confiante e tranquilo, sujeitas a todas essas obrigações!
Mas não pretendo provar-lhe com boas razões que me devia amar. Fracos meios seriam estes, e eu outros usei bem melhores sem nenhum resultado. Conheço de sobra o meu destino para tentar mudá-lo. Hei-de ser toda a vida uma desgraçada! Não o era já quando o via todos os dias? Morria de medo que me não fosse fiel; queria vê-lo a cada momento e isso não era possível; inquietava-me com o perigo que corria ao entrar neste convento; não vivia quando estava em campanha; desesperava-me por não ser mais bonita e mais digna de si; lamentava a mediocridade da minha condição; pensava nos prejuízos que lhe podia acarretar a afeição que parecia ter por mim; imaginava que não o amava bastante; receava, por si, a cólera de minha família; enfim, encontrava-me num estado tão lamentável como aquele em que estou agora.
Se me tivesse dado alguma prova de amor, depois de ter saído de Portugal, teria feito todos os esforços para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai, que teria sido de mim se não se importasse comigo, depois de estar em França? Que horror! Que loucura! Que vergonha tão grande para a minha família, a quem quero tanto, depois que deixei de o amar!
A sangue-frio, como vê, reconheço que podia ainda ser mais digna de piedade do que sou. Ao menos uma vez na vida falo lhe ponderadamente. Quanto lhe agradará a minha moderação, e como ficará satisfeito comigo! Mas não quero sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho para não me escrever mais.
Nunca reflectiu na maneira como me tem tratado? Nunca pensou que me deve mais obrigações do que a qualquer outra pessoa? Amei-o como uma louca, tudo desprezei! O seu procedimento não é de um homem de bem. É preciso que tivesse por mim uma aversão natural para me não ter amado apaixonadamente. Deixei-me fascinar por qualidades bem medíocres. Que fez para me agradar? Que sacrifícios fez por mim? Não procurou tantos outros prazeres? Renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para campanha? Não foi o último a regressar? Expôs-se loucamente, apesar de tanto lhe haver pedido que se poupasse por amor de mim. Nunca procurou um meio de se fixar em Portugal, onde era estimado. Uma carta de seu irmão bastou para o fazer abalar, sem a menor hesitação. E não vim eu saber que, durante a viagem, a sua disposição era a melhor do mundo?
Forçoso me é confessar que tenho razões para o odiar mortalmente. Ah, eu própria atraí sobre mim tanta desgraça! Acostumei-o desde início, ingenuamente, a uma grande paixão, e é necessário algum artifício para nos fazermos amar. Devem procurar-se com habilidade os meios de agradar: o amor por si só não suscita amor. Como pretendia que eu o amasse, e como havia formado tal desígnio, não houve nada que não tivesse feito para o atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar-me, se tal fosse preciso. Mas percebeu que o amor não era necessário para o êxito do seu empreendimento, nem dele precisava para nada. Que perfídia! Pensa poder enganar-me impunemente? Se por acaso voltar a este país, declaro-lhe que o entregarei à vingança da minha família.
Muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horrorizam, e o remorso persegue-me com uma crueldade insuportável. Sinto uma vergonha enorme dos crimes que me levou a cometer; já não tenho pobre de mim!, a paixão que me impedia de conhecer-lhes a monstruosidade. Quando deixará o meu coração de ser dilacerado? Quando é que me livrarei desta cruel perturbação? Apesar de tudo, creio que não lhe desejo nenhum mal, e talvez me não importasse que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se tiver coração?
Quero escrever-lhe ainda outra carta para lhe mostrar que daqui a algum tempo, talvez já tenha mais serenidade. Com que satisfação lhe censurarei então o seu injusto procedimento, quando este já não me importunar; lhe farei sentir que o desprezo; que falo da sua traição com a maior indiferença; que esqueci alegrias e penas; e só me lembro de si quando me quero lembrar!
Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu era nova, ingénua; haviam-me encerrado neste convento desde pequena; não tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si; toda a gente me dispunha a seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o meu amor… Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade.
Ao devolver-lhe as suas cartas, guardarei, cuidadosamente, as duas últimas que me escreveu ; hei-de lê-las ainda mais do que li as primeiras, para não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah, quanto me custam e como teria sido feliz se tivesse consentido que o amasse sempre! Reconheço que me preocupo ainda muito com as minhas queixas e a sua infidelidade, mas lembre-se que a mim própria prometi um estado mais tranquilo, que espero atingir, eu então tomarei uma resolução extrema, que virá a conhecer sem grande desgosto. De si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e não pensar mais em si. Creio mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de todos os meus sentimentos?
De: Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado, traduzidas por Eugénio de Andrade (pseudón.), Edição bilingue, RTP, Março de 1980, 80 págs.

13.2.13

Pocinhos do Rio Verde

Rampinha na ponte de pedra, para brincar com o jipe.
Aqui não há ponte, os peregrinos têm uma pinguela à direita, no mato. Nós adentramos o riacho fundo.

Videiras. Fazem vinho artesanal nesta região, perto de Andradas-MG. Logo atrás há inúmeras estufas de rosas.

Cantina da bocaina - cerveja caseira.  Cavalo elegantíssimo de um cliente.
Cachoeirinha no riacho caudaloso e límpido, de nascentes logo acima.

Restaurante em Pocinhos, onde almoçamos. Há pousada à esquerda. Cheio de turistas de cidades grandes. O prato especial é aquela carne suína pronta e curtida numa lata, recoberta de gordura (a "geladeira" dos antigos).

Cachoeira no Rio Verde, em Pocinhos. Aqui é um distrito de Caldas-MG. 
O escritor "Ruben Alves" tem (ou tinha) um sítio a poucos metros - aquele de porteira azul, subindo à esquerda. 
À direita (e sem porteira) fica o sítio "Rosa dos Ventos" onde seu amigo e também escritor "Carlos Rodrigues Brandão" reúne a molecada da UNICAMP. Ele anda descalço por este paraíso (amei ter sido sua aluna na PUC).
E depois disso tudo, fui direto ao sítio, dormi lá duas noites e me refastelei.

Caminho da Fé.

À direita é a subidinha para o "Pico do Gavião", que fica acima desta mata - ponto de decolagem para voo livre. Famosíssimo.
Os peregrinos seguem por cerca de 500 Km; haja devoção e determinação! Antes deste grupinho de idosos, encontramos uma dupla com uniformes na cor cáqui.
O Xandi (vizinho) segue à frente de troler, ladeado pelos eucaliptos.

Mais um membro do grupo de peregrinos, com seu cajado.

O cercado montanhoso no complexo alcalino de Poços de Caldas. O tão falado "vulcão de Poços", na verdade compreendia um grupo de quase vinte crateras; a maioria já sumiu pelas mãos humanas.

Estamos dentro deste enorme complexo vulcânico. Nas bordas há um veio de terra negríssima de uns 30 cm. Será resquício de lava? No google earth vê-se uma falha imensa esbrangendo-se para as cidades vizinhas.


Na estação seca, os barrancos afloram uma palheta de terras coloridas: roxa, rosa, amarela, branca, vermelha, ocre, negra. Há minérios radioativos (e placas de aviso). A CNEN (antiga Nuclebrás) extrai urânio e outros, a Alcoa extrai alumínio, a Cerâmica Togni extrai argila para refratários e louças sanitárias.

Há pedreiras que extraem granitos e exportam para a Itália e outros países (Carrara exauriu-se).

Rompendo a alameda escura.

Piloto com asa delta (no teto do carro) dando passagem. Segue para o pico do gavião.

No caminho de volta, às 16 h, encontramos um grupo de nove ciclistas - e logo desabou o céu em chuva sobre eles. 

Mantiqueira

Saída de Águas da Prata-SP rumo a Caldas-Mg. As nascentes desta estação chuvosa melam a estrada. Estamos na rabiolinha da Mantiqueira.

 Fica tudo ensaboado, liso. Os veículos tracionados não veem problemas, só solução! Os outros podem ladear e bater num barranco, ou encravar.
Milharal, batatal, eucaliptos imperam nas propriedades rurais. Por aqui não há café. O perfume destas flores de milho é fantástico!

Colônia em fazenda de gado, muito gado sobre o morro. Cheirinho bom de esterco encharcado.


Chegando à cachoeira da Ponte de Pedra pelo mataburro (e porteira para o gado); eu vim de lá.

Marco do "Caminho da Fé", que segue à Aparecida do Norte-SP praticamente todo por terra batida. 

Quebrando à direita, a famosa tilha da vaca morta até o "Pico do Gavião". Fiz de moto a dez anos, depois fiz de caminhonete - bem "braba".

Atalho para a vaca morta - brinquedin de jipeiros e gaioleiros.

A trilha da ponte de pedra. Fiz três vezes no jipe do vizinho. Danada de forte, parece que o veículo vai tambar. A água límpida da cachoeira desce por debaixo desta laje; e à direita, mais acima, hidromassagem natural.


Crochê

Não tenho tempo para este gostoso artesanato, contudo um biquinho na toalha de renda consigo completar.
O neto de minha amiga de adolescência fez um ano, e na festinha levei também uma lembrancinha caseira à avó Ci:
O biquinho em ponto alto é muito simples e dá um bom efeito na toalha. Fiz com barbante fininho, próprio para centros de mesa e afins.

Este anjinho aqui na embalagem simboliza o neto dela: Luis Filipi. Na verdade fiz sessenta. Sim, cinquenta para o varal de atividades de meus alunos anjos e dez para prender os embrulhos de presentes para o natal. Quem inventou o modelo foram minhas amigas professoras Val e Ju. 

São confeccionados em EVA e presos com cola quente, decorados com cola gliter e os rostinhos são feitos com caneta esferográfica preta. Atrás, um prendedor de roupas recoberto para torná-lo um "agarradinho".
Fica bom para fechar aquele pacote de bolachas começado...

9.2.13

Blanche - XIII

*  Aqui  terá o conto completo!

Após se esgueirarem por duas horas na trilha “Deus me livre”, onde o vento brame incessante, enfim Blanche vê Eric. Traz no pé esquerdo, um rasgo desbeiçado, coxeando num cajado.
Não subiu e não resguardou, há trabalho demasiado. Nestas montanhas não se sucumbe ao sofrimento, apenas degusta-o. 
Apartam-se sorrateiramente do grupo. Ela o admoesta quanto ao desvelo ao ferimento, e ele sorri a dizer que não pode ser assim tão séria aos dezesseis, pois quando sucumbir à terra, ela ainda flutuará em juventude.
Blanche irrompe em murros como furação, ao dorso dele; abomina esta inexorável realidade. Eric aclara que se cruzaram em direções avessas na trilha vitalina: Ela sobrevindo e ele afastando-se.
Estão temporalmente distantes, e o tempo é implacável. Há vinte anos, seu ferimento não decorreria de uma denunciante cicatriz, conquanto agora ainda lhe vem a febre. Eis a bravia regra do jogo etário. 
O ferreiro Occan costura com espinho de laranjeira, todavia a ferida necessita estar fresca, e o candidato, ébrio a toneladas para se desvencilhar da dor!
A castanha linha de crina de equinos, fina e sedosa, arremata a carne dilacerada, num remendo firme. O ferido, torturado às ultimas forças, desmaia e se refaz, intermitantemente.
Eric não pratica estas detalhices. Colen vai marinando seu pé em réstias de ervas todas as noites. 
Então Verna se aproxima, enfia os dedinhos do pé esquerdo em terra solta, tímida; o “almojantar” está servido.
Nestas paragens, a refeição quente e substanciosa é servida pouco antes do por do sol, não importando a hora-relógio. Então cessa-se o lavor, para o refastelamento familiar noturno. 
Mandiocas cosidas a quase se desmanchar, o guisado de coelhos e salada multicor, acompanhados de leite fresco, angariado por Tom às ovelhas tagarelas.
Os favos de mel, sendo mastigados de leve, expelem um exótico eflúvio das fezes secas dos caprinos, a que são retiradas pelas abelhas para o fabrico da iguaria. 
Após o repasto, Walacy tocou insoluvelmente sua gaita. Ao todo, doze pessoas dançaram no amplo salão: Peter, Sara e os três rebentos, Blanche, os caseiros, Tom, e os moradores da casa, Eric, Nick e Scott.
Seguiram-se duas horas de descontração, que são reverberadas a cada visita da garota. Os homens, tão rústicos, se albergam pelos cantos do salão até o dia alucidar.
Na zona rural, andar a pé à porta da meia-noite aduz mal agouro, então não se volta `as cabanas. Sara e Colen adormecem num dos três dormitórios; necessitam descanso profundo, pois prepararão o desjejum antes do primeiro relampejo de aurora surgir.
Sara, franzina, tropeça na penumbra da gravidez, aguardando à luz seu último bebê, todavia não é motivo para esmorecimento. Sempre enviesando um sorriso tremido com a boca vergada. 
Blanche se acalenta covilmente com as crianças, diz remediar a saudade dos irmãos. Conta-lhes histórias indígenas repassadas pela avó.
É uma folia aguardá-la nessa região desprovida de visitação. O trio de irmãos espreita com volúpia cada olhar, cada toque e cada feixe de voz da adolescente tia.

Extraterrestres

Uma praça na cidade de Varginha
Fonte da imagem: http://pt.fantasia.wikia.com
Eu estive conversando com alguém sobre Varginha, uma cidade mineira aqui perto que esteve envolvida num caso sobre extraterrestres na década de 90.
Hoje há estabelecimentos comerciais na Cidade explorando o tema, inclusive fantasiando ao máximo, alimentando um mito. 
Quanto à questão em si, há um grupo leigo que afirma ser verídica, e relatos oficiais lidam como folclore.
E você, o que pensa sobre ETs?
De minha parte, partindo da lógica e analisando o nosso próprio Planeta, veremos que há inúmeras formas de vida: bactérias, fungos, vírus, germes, plantas de espécies tão distintas, assim como animais para todos os gostos.
Então o que há de espetacular aqui? Há uma única dentre estas inúmeras espécies, citada como detentora de inteligência superior, capaz de explorar o espaço sideral, capaz criar a rede mundial de computadores - nós mesmos.
Então a lógica aponta para que encontremos primeiramente os tais fungos, germes, bactérias, vírus ou algo similar em forma de extraterrestres. 
Há planetas em condições para tal, pois já encontramos água em Marte. Obviamente um ET em forma de bactérias não traz muito glamour. Inclusive, cientistas estão escarafunchando justamente por esta vertente.
Posteriormente  deveríamos encontrar vidas não tão elementares, quem sabe um vegetal exótico?
Quanto a seres tão ou mais inteligentes que nós, pela mesma lógica, deveriam ser tão raros quanto nós mesmos somos, portanto muito mais difíceis de existir.
Mas se houver, e eles vierem ao nosso encontro? Seriam tantas espécies assim? E todos causariam a mesma lisergia?
Segundo os relatos pelo mundo, foram possivelmente avistados com diversas formas físicas, e bípedes como nós, todos bípedes, não é no mínimo curioso?
E por que o sigilo? Se as visitas realmente acontecem, elas remontam à pré história. Então não haveria nenhuma intenção comunicativa?
Qual o intuito de visitas perigosas e dispendiosas? E as várias espécies, vindas possivelmente de locais diversos, apresentariam o mesmo comportamento clandestino? Algo não se encaixa... 

Realidade crua

Feliz, Inverno, caricatura, crianças, círculo, isolado,...
Fonte da imagem:  http://www.canstockphoto.com.br
Ontem, na rodinha de conversa, estava eu a conhecer a família dos aluninhos. Cada um ia dizendo onde o pai e a mãe trabalham.
Chegou a vez do JV:
_  Minha mãe trabalha não, Tia! Fica lá no fundão do Santo Antônio fumando drogas com os noias.

O que responder? Me vi em saia-justa.
Um garotinho pergunta:
_  Ela dorme com você? Santo Antônio é um pouco longe...
_ Não,  dorme por aí com os andarilhos, e de vez em quando fica duas noites lá em casa.
Outro garoto:
_ Mas ela gosta de você?
_ Ih, nem liga prá mim quando vai lá em casa...
Eu intervi, dizendo que a avó é a mãe substituta - cuida dele e o ama muito, sendo que naquela idade ainda trabalha fora para dar-lhe o necessário.
Expliquei que a mãe está doente, pois a dependência química é uma escravidão.

Na saída, uma mãe (sem saber da conversa) pede para afastar o filho do JV, pois no ano anterior ele apanhava muito deste.
_  Esse moleque é terrível, Tia! Tome cuidado para que não machuque os outros.
Me calei e pensei: Por seu histórico é um heroi!

8.2.13

Carnaval? Onde?

Aqui no leste paulista, o carnaval não chega a ser mixuruca, todavia é artesanal, quase.doméstico. 
A molecada se diverte nas cidades vizinhas: Durante o dia Pinhal é melhor; à noite seguem para Vargem; na Prata é para adolescentes; Muzambinho (em Minas) requer mais tempo; em Caconde há a vantagem de poder acampar na prainha, à beira da maravilhosa represa.
Aqui mesmo na Cidade, há shows na praça central culminando com o bailinho de rua "vai quem quer".
Temos  escolinhas de samba, daquelas em que os integrantes usam um colant surrado e adereços reformados de outros carnavais!
Há os bailes de clube com uma gostosa matiée (pelo menos na Esportiva deve haver).
Quanto a mim, pretendo fazer trilhas de jipe pela esplêndida Serra da Mantiqueira (o vizinho já convidou). Vou também ao sítio, dormir ao menos uma noite.
E estou com saudades da magnífica Poços de Caldas, aqui ao lado. São tantas cidadezinhas bucólicas para um almoço mineiro!
Segunda-feira não abriremos a Firma, e na Escola só volto quinta. Chuva? O tempo está carregadíssimo, chuvisca com pancadas intermitentes, e a temperatura caiu. Fiotão vai à praia, o que me enche de preocupação.
Localização de São João da Boa Vista
Ó eu aí! Nas adjacências da manchinha vermelha...
Fonte da imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/
Entre Campinas e o sul mineiro há inúmeras opções de laser. Gosto das cidades não turísticas.

5.2.13

Volta às aulas

Centro da Prata - morro.
Quase toda a Cidade - ó a igreja!
Escola indígena
Fonte: educarencantando.blogspot.com.br
Tivemos trabalho intelectual na sexta-feira; muita documentação, as mudanças costumeiras, reuniões, voltei para casa um pouco zonza.
Preparei aulas e atividades no sábado, contudo estou radiante com meu primeiro ano... Um aluno mais fofinho que o outro! Por enquanto só compareceram dezoito, mas há vinte e um na lista. 
É a primeira vez que recebo uma turma pequena. Há uma nova lei que estipula o máximo de 25, e não mais  de 30 alunos em classes de alfabetização. Vitória grande para pais, professores e principalmente alunos!
Por enquanto, não há nenhuma criança especial no grupo; e entre os regulares, nenhuma suspeita de encaminhamento ainda. 
Ontem, sendo o primeiro dia, apenas a E esteve chorosa, e não quis participar da rodinha na hora da história. Deixei-a sossegada e logo estabeleceu seu local de querência.
Há muitos garotos na turma, 60% a mais que garotas, e alguns já trazem histórico de serem bem levados. No geral, o grupo é esperto, inteligente, e aprende rápido. 
Passado este deslumbramento inicial, haverá trabalho árduo. No final do ano estarão compondo textinhos (exceto alguns casos).
Já estou inclusa num pacto desde o ano passado, trata-se de um treinamento (curso) via MEC: 
Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa   que se iniciará nas noites de quinta-feira. 
Em 2013 - Português; Matemática em 2014. Escasseia-se o tempo para meu amado blog.

2.2.13

Blanche - XII

*  Aqui  terá o conto completo!

Sábado surgiu, Blanche não desce a sete semanas... Nutre louca saudade por Eric! Acordou na penumbra, chama por Nick no anexo em voz monocórdica.
Tudo deve ser aprontado: Dia turbulento, fatigado, sem serenar. Pretendem iniciar o declive com o sol a tombar para oeste, ainda sobranceiro.
Sobre o leito arrumado, ajeita o vestidinho azul em duas peças, corpete acinturado abotoando à frente, golinha boba, mangas longas fininhas, com a saia se abrindo num leve godê, quase aos pés. 
Nick angariou dois coelhos machos nas armadilhas (as fêmeas são soltas). Serão para o guisado. Por sobremesa, levarão favos de mel.
Presenteará os sobrinhos Bencio, Verna e a bebê Roya com rapadura de amoras montanhesas ácidas. 
Enclausurarão os caprinos para não deambularem ao pasto. Predadores da floresta permanecem à espreita.
O curral de pedras recebeu a tempos, um espaço coberto, desfavorecendo chuva e frio. Os rústicos e destemidos cães farão a guarda (inclusive do chiqueiro e galinheiro). 
Tom estará obstinado à espera: Mãos em punho à boca, aguardando de longe pelas miúdas bergamotas silvestres. O chapéu tapando a cara, o olhar espadaúdo, vestes surradas. Se aproximará sorrateiro, assim que solicitado. Haverá nítida remitência no humor de Nick. 
Alarico, pai de Tom, foi homem amulatado e bruto, porte atarracado, cabisbaixo. Quando já instalado na estância, furtou a mãe índia, batizando-lhe Grace. Toda excêntrica, nunca se adaptou à vida exfiltrada. 
Pariu Tom solitária no matagal, rasgando-lhe o cordão umbilical com os próprios dentes. Voltou com ele atarracado ao seio nu.
Nada comunicou, pois não se esforçava para tal, mesmo que fosse em gestos. Ausente, estranha, vaga, arrebatada. 
Por todo o dia anterior, Walacy e Colen a viram correr desesperada, para lá e para cá, do terreiro ao triozinho.
Não compreenderam ser aquilo um penoso e introspectivo trabalho de parto indígena. Passaram a auxiliar sobremaneira na criação do menino, desde então. 
Quando grávida novamente, já de boa barriga, acolheu furtivamente um índio desgarrado. Numa oportunidade, seguiram floresta acima rumo à reserva, aventando pelos cursos d’água. Extinguiram-se. 
As reminiscências que Tom possuía sobre ela, evaporaram-se todas, restando apenas seu odor nos escassos pertences: Um pente em madeira, ainda com fios de seu cabelo, as tradicionais pulseiras em terracota, fitilhos para prender as tranças. Nenhuma veste ou tecido artesanal. 
Alarico afigurou-se aliviado, cansado das dolorosas mordidas desferidas por Grace. Faleceu dez anos depois, numa queda de cavalo em terreno íngreme.
Só foi encontrado três dias após o regresso do animal, denunciado por camirangas. Enterraram-no lá mesmo, onde se erigiu uma baliza de pedras com cruz em madeira, denunciando o jazigo.
A partir daí, Tom era por si, emancipado. A herança do pai era o caráter e o conselho de que, mesmo sendo tratado às regalias, saberia seu lugar de cafuzo agregado. O trabalho caprichado garantia a altivez, e a paz de espírito garantia a sanidade.