31.3.13

Blanche - XIX

*  Aqui  terá o conto completo!

Os intensos viventes da comunidade “Riolama” constituem um misto de seres incontestavelmente obstinados e seviciados, vencendo percalços na interseção entre o rural e o urbano, o rudimentar e a vanguarda que ronda este final de século.
A terceira herdade do vilarejo, divisada pelo “rio em priaprismo”, e apartada às outras, é dos vendeiros Adso e da mestiça indígena Núbia, com seu jactâncio e harmônico descendente Lucano.
Ali também opera a incipiente e pouco usufruída estação dos correios. Num desassossego, a família realiza escambo, adquirindo peles, pequenos animais, ovos, queijos, grãos, artesanato, e aduzindo bens manufaturados de Corda Bamba.
Celeremente, fazem para lá, o transporte de passageiros, em ritmo quinzenal, num carroção fechado (um luxo). Rob, genitor de Blanche, já usufruiu deste meio de locomoção diversos pares de vezes.
Núbia, dama empreendedora e sagaz, mesmo analfabeta, guia a família. Adso e Lucano acolhem seus pertinentes comandos; assim evoluíram de uma itinerante carroça de escambo à próspera propriedade urbana.
No anexo da mercearia, a residência é ampla e arejada; a chácara produz vitualha sortida, para o consumo e para venda, graças às lodosas enchentes do “rio precioso” e à dedicação do senhor Karly, um negro empregado prestimoso, de meia idade, que habita o porão.
Lucano cavalga e doma animais como tanajura em asas, inclusive detém os melhores espécimes equinos da região. Seu porte avantajado e beleza ímpar fazem dele um ser idílico, reputado dentre os demais rapazes.
As garotas não ousam apreciá-lo em seu olhar de esmeraldas, nem mesmo sua Críscia. Tal enlevo é terminantemente ilícito a qualquer ente feminino. A provável transcendência das jovenzinhas induz candura angelical.
Quando a galope ele irrompe da montanha, com o cesto de taquara repleto de colheitas exóticas, deixa um rastro de fragrâncias, que sendo açoitadas pela brisa, se espalham por cada fresta.
Adso é idoso e obeso, muito loiro e cosmopolita: já viveu em quatro países, em dois continentes distintos, repousando agora nestes confins a vinte anos, desde que se enamorou da esposa Núbia, uma geração mais jovem.
O sogro, também branco, a vendeu a prestações. Ela trouxe consigo a túnica que vestia e adornos corporais. Bichinho aprisionado, foi se abrindo à medida que a confiança aumentava. Expandiu-se celeremente, feito fermento ao calor.
Blanche comercializa aqui seus psicodélicos tapetes, onde emprega pura lã de ovinos da estância. A combinação dos nozinhos complexos repassada pela avó indígena torna o trabalho fabuloso.
Na montanha, apenas há caprinos, e mesmo não sendo endêmicos, estão amplamente adaptados a se dependurar absortos pelas encostas e escarpas montanhosas, feito floquinhos encardidos.

30.3.13

Mamonal

Dormi na roça, revi os primos roceiros, curti as aves, gado, porcos, cães e gata, muitos passarinhos.
Subi à serra na quinta-feira à noite e voltei ontem à tardinha. O suficiente para me renovar.
Os sons rurais noturnos, são para quem está acostumado: vaca berrando, sapo coaxando, galo cantando, pássaros com pios estranhos, cães latindo atrás de algo. Flauta para meus ouvidos treinados.
Às cinco da manhã estava tão frio e escuro, que ficamos mais um pouco na "cama", a relva estava lavada de orvalho, mas não havia neblina.
Nosso quartinho fica fora, onde era a queijeira, tão pequeno que só tem uma cama de solteiro, eu durmo no chão, feliz da vida.
Resolvemos tomar café antes de caminhar: o "Par" fez seu habitual café preto, enquanto eu fritei pastéis de vento. Colhi goiabas e acrescentei pão 12 grãos e requeijão. O leite sai mais tarde, primo não tem pressa.
Abri todo o casarão e subimos pela estradinha repleta de pássaros, dos mais variados. Lá em cima, colhi abacates (do primo Chico, que coloquei na mochila).
Mais adiante, um milharal com abóboras: Uma  delas, na beirinha da estrada, assoviou para mim! Então eu a trouxe para o almoço (não sei de qual primo é - desculpa aí, primo).
Fiz arroz branco, couve refogada da horta do Luís, a abobrinha fiz "batitinha" à moda caipira, omeletes com bastante cheiro verde e suco de limão com mexerica.
Lá na roça, não se come nada morto desta data. Então gritei o Esposo que estava jogando (conversa fora) na vendinha. Sentamos na varanda da frente e almoçamos, apreciando a vista em 120º de esplendor (ele comeu na panelinha). 
Após a "sesta" dele, fomos para o pedregal e ficamos à sombra de uma árvore, integrados: ouvindo o regato a se escorregar, participando da conversação dos pássaros. 
Trouxe bananas, goiabas, nêsperas, limões, mexericas, maracujás, abacates, cheiro verde, pimentas, ervas, queijo (único produto pago). 

Decoração rural: santinhos, flores plásticas, crochê, móveis antigos virados de canto.

A nona Narcisa (bisa), veio do norte da Itália aos 12 anos. Ficou dois meses no navio com o Nono e não se conheceram. Se enamoraram por estas serras, num moinho de fubá. Cá chegaram a cerca de 100 anos. Ela morreu aos 94 anos.
O patriarca nono Daniel (esposo da bisa): veio de Sassari, na Sardenha - ilha italiana. Morreu com pouco mais de 60 anos, quando minha mãe nasceu. 

A mala para viajar à Aparecida do Norte (visitar a Santa). Todo ano, após a colheita do café, um ônibus pegava todo o pessoal para o único passeio costumeiro. Patrões e empregados eram quase como parentes, pois o café era de "meia" - trabalhava-se por conta própria.

O forro do casarão, e os retratos na parede. A avó quer que passemos óleo de peroba em todas as molduras.

O porta-chapeus e a cristaleira. A fresta da sala; este piso de assoalho é para pés descalços. A avó está brava porque não enceramos.
Ao pisar "martelado", faz um barulhão, tudo balança e range. E mesmo em passadas leves, ele range (delícia). 

O quarto da Avó com a colcha de retalhos. veja o acendedor da lâmpada dependurado sobre a cabeceira. 
O terreiro: pela esquerda, a vendinha do Luís, o paiol, o galinheiro e a casinha onde se matava e limpava porco, fazia-se sabão, torrava-se café. Belo horizonte oeste...
A varanda da frente (onde almocei) e os carros dos primos.
UMA PÁSCOA SERENA PARA TODOS VOCÊS!

28.3.13

Barracão

Finalmente, após duas semanas "janeirosas", as chuvas sumiram e os pedreiros avançaram o serviço. Amanheceu uma quinta-feira santa tomada por neblina, após a noite geladinha (para nossos padrões).
Hoje o dia está decididamente outonal: límpido, com ventinho frio, embora haja nuvens cândidas por todo o céu.
Irei dormir no sítio! Só eu e o "Par", pois o tio (mais animado) está se recuperando de uma cirurgia e os parentes de Americana não vieram.
Não tenho coragem de, sozinha, levar a avó de 90 anos. Se ela souber que fui, ficará brava, afinal é a dona da casa, mas é muita responsabilidade, ela é "serelepe".

Agora, veja como meu barracão (aqui do outro lado da rua) já está alto: as primeiras fotos, tirei na semana passada, e a última tirei agora. E não é que a valente quaresmeira sobrevive à obra?
Há uma garagem atrás da caçamba, com corredor. Pertencerá à casinha lá nos fundos (que eu já tinha e senti pena em desmanchar - é boa, com dois quartos).
Sobre a garagem, será o escritório do barracão. As duas janelinhas são dos sanitários, um deles, adaptado para deficientes. 
A estrutura metálica já está pronta, aguardando o respaldo dos pedreiros. 

Dá para ver (pela frestinha) que ele tem uma grande porta voltada aos fundos. É fundamental para arejar e fazer a utilização de parte do quintal.
Depois de proto, vamos pensar no que fazer com ele e a casinha. Talvez alugar.

27.3.13

Alfabetizar com a Sensibilização Cromática

As criancinhas chegam ao primeiro ano, por vezes pré-silábicas: para escrever "gato" usam BHSTESV,  por exemplo. Muitas letras são de seu próprio nome.
Rapidinho conseguimos levantá-las para a fase silábica, com a ajuda do alfabeto e de palminhas para as sílabas ( "ga-to: A-O"). É a fase em que elas têm valor sonoro mais centrado nas vogais (ou ainda não têm o valor sonoro, usando duas letras aleatórias).
Atingindo o valor vogal, entra-se fortemente com a Sensibilização Cromática. Para tal, necessitamos que o alfabeto exposto na sala seja cromático: o nosso tem a cor vermelha para as cinco vogais, e as consoantes são azuis (sendo elas cores primárias): A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V X W Y Z .
Eu fico doida, fazendo trocas de gizes com as professoras de quarto e quinto anos: Forneço quaisquer outras cores, e elas me trocam por azuis e vermelhos.
Feito o estoque dos gizes cromáticos, passo a escrever palavras-chave, próprias para a reflexão sobre o sistema de escrita (alfabético), cromaticamente.
Coloco todas as vogais em vermelho, leio com eles: A O (gato) e pergunto se podemos escrever assim, somente com elas. 
Peço aos silábico-alfabéticos (aqueles quase alfabetizados), para não se pronunciarem. Levo à lousa, dois alunos centrados fortemente nas vogais e vou questionando-os, reforçando os fonemas (pronunciando de forma exacerbada), fazendo os articulemas  e demonstrando o alfabeto exposto.
Os articulemas do R e par CKQ/ G são guturais (na garganta); então coloco as costas de seus dedinhos em minha própria garganta e faço:  RRRRRRRRRR (de Rato), GGG (de Gato), CCCKQ (de Cão).
Os articulemas M e N são na narina: tapa-se uma das narinas, fecha-se a boca para dizer MMM e abre-se a boca para articular NNN.
Os pares F/V, J/X, S/Z, articula-se assoprando o dedinho para sentir a saída do ar.
É fundamental levá-los ao conflito pedagógico, para que se desequilibrem e haja posterior aprendizagem. Enquanto eles estão confortáveis e confiantes nas vogais, as consoantes serão simplesmente ignoradas.
Somente agora peço ajuda dos mais avançados e completo a Sensibilização Cromática:     G A  T O, lendo bastante com eles, cada sílaba separadamente.
Com todas essas técnicas, eles avançam rapidinho, mesmo em grupos de vinte, como os meus, e com excesso dos outros conteúdos (trabalhamos em média 9 conteúdos diferentes por dia, 45 por semana - todas as disciplinas e Ensino Religioso).
Apoio-me na "Coleção Gato e Rato" da Mary França, para criar sequências  reflexivas como:
R  A  T O
P  A  T O
G A  T O
A  L O  
A Sensibilização cromática não é divulgada como a famosa correspondência grafofonêmica (letra-som), mas auxilia muito, pela visualização. Trata-se de mais um canal sensorial rumo à aprendizagem.

Deleitança

Fonte da imagem: www.poesiaspoemaseversos.com.br
Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos.
Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.


Manuel  Bandeira.

26.3.13

Caminhando

Imagem: http://criaturasbr.blogspot.com.br/2013/01/mitos-da-lua-cheia.html
Após o expediente, subi à casa, fiz uma sopa com legumes que cozi; lentilhas liquidificadas e coxas de frango que estavam prontos e descongelando desde o almoço, e apenas acrescentei.
Estamos numa atípica quinzena chuvosa e fresquinha. Atrapalha um pouco a construção de meu barracão ao outro lado da rua.
Enquanto esfriava a sopa, fiz a caminhada noturna costumeira. Adoro sair ao escurecer: vou captando a essência da cidade, estando meio invisível.
A elegante lua cheia estava despontando a leste, embrulhada num branco véu de nuvenzinhas esparsas, e sentia-se uma  finíssima (capilar) garoa intermitente.
Faço o mesmo itinerário nas noites de semana e observo diversos personagens: aquele velhinho acamado que se enxerga pela calçada, o pé de carambola perfumando o quarteirão, o pessoal nos bares e padaria.
Uma mulata bonita e novinha que está sempre à calçada, hoje discutia com um rapaz:
_ Não vou aceitar esta merreca, Rafael, não mesmo!
Ele respondia algo imperceptível, e ela replicava:
_ Agora é tudo no juiz, você nunca deu um pacote de fraldas ou um vidro de remédios para o menino!
Tudo dito em bom som, numa fala bem coloquial, entremeada com termos de baixo calão.
Ele respondia imperceptivelmente, e eu passando em meio à discussão.
Segui imaginando aquela mocinha, aquele garoto e o bebê eternamente ao meio dos dois. Será meu aluninho daqui a seis anos?
Ela tem ou terá uma fonte de renda? Ele tem os pais a respaldar esta futura pensão alimentícia? 
O cantinho em que ela mora é humilde e em área de enchente do Córrego do Bananal. Possivelmente ele vive nas adjacências...
Nunca mais passarei por lá indiferentemente, e no futuro provavelmente verei o tal bebê, fruto da peleja.

24.3.13

Blanche - XVIII

*  Aqui  terá o conto completo!

Avizinhada a Occan, fica a nababesca hospedaria da esguia Helen, fêmea rija que também é parteira e curandeira (das frações íntimas) feminina, respaldada por sua devota e reservada funcionária Emily, com trejeitos másculos.
O prédio cinzento, em madeira rústica, contempla um longo corredor com seus quartos em tentáculos. Ao final, o quarto de banho à esquerda e rouparia à direita. A grande sala de jantar engole o corredor, logo antes da esfumaçada cozinha.
Tudo se lava à refrescante margem do gozoso rio, repleta de pedras na cor do escurecer, após percorrer um longo terreno em declive, com horta, vasto pomar e galinheiro, na sequência em que se escreve. 
O resfolegante Occan reside ali, assim como a sexagenária senhora Holine, roliça e plácida viúva, benzedeira que lhe quitou a estada vitaliciamente, com o desmesurado terreno da pensão. Moradores de “Corda-Bamba”, vindo comercializar ou espairecer, hospedam-se aqui. 
Muitas mães estabelecem procissão, diligenciando pela requisitada Holine: além de benzer; ela “costura” mal jeito;  afasta quebranto; alivia dores; expulsa lombrigas; subtrai febres de bebês; corta medo (para crianças que custam a andar) com a “mão de pilão”; efetua simpatias e orações. 
Detém poderosas fórmulas de chás, banhos, pomadas, emplastros, patuás, incensos, cabaçadas (os ingredientes ficam em uma cabaça, curtindo por três luas).
Opera com aromáticos fármacos cultivados ao terreiro, e tudo que coleta pelas ricas encostas montanhosas, para pintalgar a vida alheia. Seu sogro e esposo medicavam em “Corda-Bamba”. 
Helen, em discernimento, providenciou o preâmbulo de um acesso no primeiro aposento à direita, para propiciar as consultas da imprescindível Holine diretamente ao logradouro. São totalmente gratuitas neste (único) consultório improvisado de curandeiria holística. 
A hospedeira Helen, muito clara e com cinzentos olhos agateados, foi prostituta em “Corda-Bamba” desde a puberdade, onde sobreveio coercitivamente após o pai lhe mercar. Nesta áspera vivência, adquiriu vasta experiência na terapêutica às senhoras. 
Poupou seu numerário e hoje subsiste remansada junto à amiga Emily, que retraiu ao inferninho e tem por concubina (secretamente). Alguns homens libertinos, segredam seu pretérito, e nada pronunciam por induzir comprometimento. 
Blanche, que não compreende o latim desta missa, julga aprazível sua vila: exuberante, repleta de odores e contemporaneidade, cromática. Ficciona conhecer os meandros da pousada, acoger-se por uma noite, receptando tudo à mão, sendo mimada; conquanto, após minguadas horas de estada, o incômodo já lhe irrompe. 
A vila aponta ruídos, movimentação, vaidades, apelo comercial, o trabalho metódico e extenuante de suas queridas amigas, sem mínimos respiros de contemplação: a trabalhar e trabalhar. Então a ânsia por voltar ao lar na montanha dos caprinos passa a beliscar-lhe.
A solidão deliciosa, de quem não recebe ordens, a convida. Seu mundo amarfanhado como um travesseiro dileto roçando-lhe o corpo. Hora de desertar temporariamente a baralhada civilização, tendoapenas os sons de animais a lhe esmurrar os ouvidos.

22.3.13

Desinvenção da alfabetização X Alfabetizar letrando

Fonte da imagem: letramentopro.blogspot.com.br
A Dra. Magda Soares aponta a perda de especificidade do processo de alfabetização, com a implantação distorcida do Construtivismo, nas décadas de 80/ 90, que “jurava” acabar com as excessivas repetências no 1º ano de alfabetização.
Ela considera que a contribuição da Psicogênese da Língua Escrita é incontestável na compreensão da trajetória da criança rumo à descoberta do sistema alfabético, todavia também creio que houve demasiada confusão entre pesquisa e método pedagógico.
Equívocos e falsas inferências ocorreram na transposição desta abordagem para a prática educacional: O privilégio à faceta psicológica obscureceu a faceta lingüística, crucial à alfabetização.
O paradigma psicogenético estava incompatível com os métodos de alfabetização até então cartilhados (BA-BE-BI-BO-BU).
E agora, como fazer? O professorado deveria jogar fora seu aconchegante e seguro chinelinho havaianas (a cartilha) para adotar um tamanco salto altíssimo que as deixavam cambaleantes para a direita e para a esquerda (Construtivismo), ao se esgueirarem em meio a uma classe de quase quarenta alunos?
Escondidinho, elas buscavam o chinelo na gaveta. Iam trabalhando e sondando: ao primeiro sinal de visita (supervisão), lá vinha o tamanco belíssimo “brincar de escolinha”!
Aquelas que realmente prenderam o tamanco a sete chaves aos pés, também não lograram o sucesso devido.
Conseqüência: os alunos continuavam sem aprender devidamente, porém, com o advento dos programas de progressão continuada, uma parcela passou  a chegar à quarta série sem atingir sequer a fase alfabética.
Então qual a contribuição de teóricos como a Dra. Magda Soares e sua equipe para aproximar os pedagogos da solução deste problema gigantesco?
Alfabetizar letrando: Reflexões sobre o sistema de escrita alfabética, inseridas em práticas de letramento.
A distinção (mas não separação) entre os termos alfabetização (aprendizagem sistemática de leitura e escrita) e letramento (práticas sociais, com utilização de textos reais: panfletos, quadrinhos, folclóricos, clássicos, texto epistolar) traz o fiel da balança nesta questão.
Através de pesquisas, concluiu-se que é possível a apropriação do sistema de escrita alfabética enquanto vai-se ampliando as experiências de letramento.
Atividades sistemáticas de alfabetização levam a refletir sobre o sistema de escrita alfabética, tanto quanto a leitura e produção de textos diversificados, de forma reflexiva e lúdica, consolidam as correspondências grafofônicas.
Será que conseguimos o casamento perfeito? Fato é que as crianças se alfabetizam facilmente aos seis anos, desde que não apresentem sérios problemas como deficiências (principalmente intelectual moderada)  disfunções, dislexias, distúrbios, síndromes, transtornos.
Para se aprofundar:
http://pt.scribd.com/doc/18892732/Artigo-Alfabetizacao-e-Letramento-Magda-Soares1

20.3.13

Algo sobre mim


Recebi carinhosamente o selinho da amiga Joana, do blog Boneca de Neve, para blogs com menos de 200 seguidores. Estou atrasadíssima com as respostas, mas me programei e hoje consegui (nem trouxe cadernos para corrigir).
Agradeço a ela por lembrar do meu bloguinho! Então vamos às perguntas e respostas:

1 - Qual e sua canção preferida?
No momento, amo cantigas infantis.

2 - Um sonho por realizar...
Talvez um dia vir a ter netos (com este mundo complicado até dá medo).

3 - Você é otimista ou pessimista?
Muito realista, muito pragmática.

4 - Filme preferido:
Amo documentários, todos. Sei que retratam apenas uma facção da realidade, mas mesmo assim sou doida por eles.

5 - Que qualidades você valoriza mais nas outras pessoas?
Empenho, capricho (que necessito melhorar em mim), ter controle financeiro, devolver o que emprestam (dar uma devolutiva sobre tudo - eu estava com dor na consciência sobre a Joana - pelo atraso).

6 - Que qualidade você admira mais em si mesma?
A determinação: pela dura vida roceira que tive, forjei-me em aço.

7 - Cafe ou Chá?
Decididamente chá. No momento, degusto um chazinho de alfavaca. Servidos?

8 - Uma memória de infância:
A vida solta na zona rural: desprovida, porém despreocupada. Vivíamos num mundinho à parte.

9 - Em que altura do dia você e mais produtiva?
Com toda certeza, de manhã. Acordo levíssima e feliz, às cinco da madrugada, para deixar o almoço preparado, louça lavada, lanche para esposo e filho tomarem café no trabalho.

10 - Você ganhou 10.000 euros/dólares! O que compraria com esse dinheiro?
Traduzirei para minha moeda: R$ 50.000,00.
Então juntaria com um pouco que sempre deixo guardado e compraria uma casinha para alugar (financiando uma parte), para pagar a "casa de repouso" no futuro. 

11 - Ídolos da adolescência:
Mal tive adolescência, que dirá ídolos! Meu tempo era tão escasso: trabalhar dez horas diárias desde os treze anos, estudar à noite e faxinar para a mãe aos sábados. Nada de ídolos.

Para quem gosta de falar um pouquinho de si, eu ficaria feliz se participassem. É só copiar e colar.

17.3.13

Blanche - XVII

*  Aqui  terá o conto completo!

Em Riolama, a existência segue seu lento ritmo. As famílias rurais são a razão desta vila (região com cerca de 300 habitantes); conquanto somente aos domingos há impulso comercial, com transeuntes bem vestidos, propagando-se para a frente e para trás. 
Pela semana, um ou outro lavrador fragmenta a praxe dos prestadores de serviços essenciais. Forasteiros são parcos (e por vezes lesivos), quando vêm, atraem metediços olhares de meia-cara. 
Um dos quatro estabelecimentos comerciais tendo às entranhas o "imperioso rio", é o tosco galpão cheio de anexos do ferreiro Occan, também sapateiro e enfermeiro masculino (tira-dentes). 
Ele manufatura botinas "unissex" para todas as idades, restaurando-as constantemente. As ferragens das carroças, ferraduras e ferramentas diversas são forjadas e entalhadas por sua laboriosa equipe. 
Occan vem de longínquas terras gélidas, fugido da guerra, e apesar da deficiência física, sua saúde é tão férrea quanto a profissão. É proprietário de uma sapiência que surpreende; homem letrado, chegou assim ao sertão.
Comedido, metódico, exprime poucas palavras e vai pingando-as sonoramente, cochichando um prosear cantado. Seus olhos, tingidos num azul de myosótis, são de uma profundidade elegante.
Na jornada epopeica, foi privando-se de pertences estimados: o retrato dos irmãos, o cavalinho entalhado em madeira dos tempos de infante, documentos, um espelho presenteado pela genitora, o canivete que pertenceu ao avô paterno. 
Ele próprio está inteiro, então é o que basta, pois nestas lonjuras muitos perdem a visão, partes do corpo, o juízo. A jornada de trabalho aqui denomina-se “luz `a luz”: inicia-se com a primeira fagulha de arrebol e finda ao crepúsculo, ocasião da única refeição quente e completa.
Occan é assex feito Tom, talvez por natureza, ou compelido pelas barreiras de expatriado, porventura pela timidez, quiçá pela deficiência numa das pernas. Fato que só tem a seus eus interiores, e sendo muitos, lhe bastam.
Blanche encomendou via David (o irmão que lavora ali), outro par de robustas botinas, pois crescera, e aquele seu, já lhe espreme os dedos com a violência desembestada de um vendaval.
Todas dispõem metodicamente o mesmo modelo, na cor preta, tanto masculinas, quanto femininas. Fora da vila, não se traja calçado, com exceção dos dias em que neva, a cada cinco ou dez anos. 
A garota, toda ansiosa, aguarda sua confecção realizada em minúcias, ponto por ponto, enquanto remedia a bota idosa, lustrando-a com carvão embebido em gordura animal. Será doada aos irmãos.
Fará a paga, comercializando seus magníficos tapetes indígenas, tecidos em lã, que Lucano (o vendeiro) arrebata à cidade grande - Corda Bamba.

15.3.13

A paineira

Havia uma fileira delas no caminho à escolinha rural, todavia a "nossa" era aquela mais idosa, com muito tronco e poucas folhas, que se encontrava pedregosamente no barranquinho, ali no terreiro da escola.
Nesta época do ano, o atapetado rosa nos levava por mais de 500 metros. Nós permanecíamos ali, e ele ainda seguia em frente, até o término da casa da Tchana.
Lá do alto, quando descíamos a falda íngreme onde habitávamos, apreciávamos as rosadas moitonas das exuberantes paineiras em flor. Tudo estava bem, era a vida em êxtase.
Mas a nossa paineira não, essa mal florescia, raquítica, anêmica, talvez asmática pela baixa intensidade de folhinhas.
Aquelas flores suculentas, carnudas, cheias de personalidade, que fossem pouquíssimas, porém de cor rosa mais intenso. Era nossa paixão a paineira. 
Os garotos, durante o recreio, atravessavam o regato sombreado pela pequena capoeira para catar cipó. Circulavam de uma margem à outra, campeando com um majestoso canivete, sem molhar os pés, pulando dentre as tantas pedras soltas.
As cristalinas águas, que nasciam ali na serra, provavelmente eram minerais devido ao complexo alcalino de Poços de Caldas (vulcânico).
Então os meninos, após o ritual de se deitar, lavar a cara e beber, sorvendo diretamente com a boca n'água, voltavam com cipó o suficiente para "pular cipó" e fazer o balanço na mãezona paineira.
Sinto perfeitamente o vento me lambendo, sinto os pezinhos descalços roçando o gramado alto desta época do ano, em cada vai e vem, galeando no balanço de cipó.
É claro que logo eles se ressecavam, e num galeio mais voluptuoso, éramos lançados para longe. Ninguém reclamava, sequer chorava; avisar um adulto? Proibido! Os ossos do ofício somente nos levavam a outra e mais outra balançada cooperativa na saudosa e querida.

Esta excêntrica paineira, lá atrás, fotografei no "Caminho da fé" (carnaval 2013).


Ponte da Ferrovia vista da rodovia Águas da Prata - Poços de Caldas
fonte da imagem: www.panoramio.com/photo
A escolinha abandonada, fica logo abaixo deste local, veja o viaduto da ferrovia. Esta vista, é de quem sobe pela rodovia. Mais alguns quilômetros e temos o marco divisório entre São Paulo e Minas Gerais, aproximando-se da magnífica "Poços de Caldas".

9.3.13

Blanche - XVI

*  Aqui  terá o conto completo!

Erin e Lisa aguardavam Blanche, todavia não com certeza. Transbordantes, foram tocadas quase que de surpresa. Soltando ruídos indígenas característicos com auxílio das bochechas, revelam sua alegre exaltação.
Todos se encaixam em cerzidas roupas confortáveis e a garota, na túnica indígena em pano cru, vai se imiscuindo entre os seus. Nada pode conscurpar esta tarde de querência. 
Neste mundinho suspenso, estão fortes e livres como a suçuarana. Estouram pipocas; servem num odre de terracota, o fumegante chá de cascas de arbustos, adoçado ao mel.
As frutas de época complementam o prato, servido no terreiro, embaixo da dançarina moita de bambus. Esta refeição do meio dia aqui na circunscrição é mero paliativo, sempre um lanche rápido e leve. 
Logrando o calor remanescente, fogem da triarquia, enfileirados para a margem do "briguento rio", ela e as crianças. Naquela curva fechada, forma-se uma praiazinha, não de areia, mas de arteiros pedriscos bem lisos.
As cerejeiras silvestres, ainda em escassos frutos tardios, assombram e refrescam o local. Os garotos, habituados, mergulham sorrateiros ao cantinho oposto à correnteza. 
Acte e Blanche, sem roupas, deitadas à margem, recobrem-se com as úmidas e geladas pedrinhas, aproveitando um cristalino e macio veio d`água que por ali desponta, beijando constantemente o másculo rio.
Acima, ao céu, montinhos de nuvens desfiadas brincam ciranda, enquanto as amadurecidas cerejas se despencam sobre ambas, ao sopro da malandrinha brisa leste. 
Num mísero segundo, o sol se abaixa, denunciando a hora de Blanche retornar num voo à estância. A despedida não dispensa um sortido jacá de taquara, repleto com víveres; as recomendações da avó e o lamúrio geral.
Encaixando o jacá, ela galopa graciosamente “em pelo”, chicoteando com os pezinhos nus as grossas ancas do cavalo paterno, que será devolvido por Walacy oportunamente. 
Com o carroção a postos na estância, todos aguardam alvoroçados, a vinda  da menina à entrada da casa de tábuas. Tom, esquivo e silencioso, subirá com ela para uma semana enfadonha e laboriosa.
Novas despedidas, o olhar animoso abraçando Eric, e ela se aconchega, viajando de costas sob a boleia, acenando um lenço de bolinhas, até a primeira curva apagar aquela digressão valorosa. 
Leva o lenço à cabeça e prende-o sob o queixo bem esculpido, refaz mentalmente os momentos pulsantes, sobretudo próxima a Eric. Mistura de melancolia e êxtase se apoderam daquele corpinho a sacolejar na penumbra, para lá e para cá.
Tom, em mudez facultativa, apressa a ofegante parelha para escaparem ao negro véu noturno que se acerca. 
Após romper a montanha, estar no lar é um alívio desgastante: Esvaziar toda a carroça, chegar trato aos animais, ordenhar ligeirinho os caprinos, preparar ovos mexidos com nozes, enquanto as brasas já assam uma farta batata doce.
O chá das lisérgicas e perfumosas cascas de bergamotas selvagens, trará o relaxamento necessário à noite indolente. Tom, em olhar pidão, o necessita com todo vigor.
A lisergia do chá equilibra emoções, irrompe sentimentos suaves, traz um entorpecimento flutuante, onde todos os fios de cabelo, energizados, ganham vida própria.
Tom tudo faz por estas murchas cascas nefelibatas, assim como vários outros homens (viciados) do vilarejo – usufruindo, lentamente, a letarga herança indígena.

Pactuando

Agora, com o "Pacto" em andamento, menos tempo me resta. Mesmo acordando costumeiramente às 5 h, e estando na oficina do "Par" 6 h 30, na Escola 6 h 50... 
Após realizar 1000 coisas com 20 belas e inteligentes criancinhas (que me divertem e orgulham), volto 12 h à oficina. Numa brecha, subo à casa para almoço ligeiro e colocação do uniforme. 
Trabalho e interligo atividades escolares no computador do escritório (Esposo olha torto); funcionários pedem ajuda na produção e digo um redondíssimo "não"!
Bem queria eu estar na produção a tagarelar asneiras com eles, em vez de imersa em preparação de aulas,  estudos de textos técnicos e lição de casa enorme do tal "Pacto Nacional para a alfabetização". 
Então agora é assim: após 18 h, corro à casa, arrumo jantar (Fiotão faz mecânica à noite), caminho um pouco e mergulho em caderninhos, tarefinhas, colagens, pesquisa de atividade, correção de livros didáticos; gosto de tudo arrumadinho para meus alunos.
Toda segunda-feira tenho reunião pedagógica das 18 h às 20 h. Agora "pactuamos" três quintas-feiras ao mês, das 10 h às 22 h. Melhor levar colchonete e acampar pela Escola.
Também gostaria de dormir no sítio... mas e a roupa a lavar durante toda a tarde? E amanhã a passagem a ferro? E o "Par" com joelho zangado, curando hora a hora a vinagre e sal (além de anti inflamatórios)? Nada de bicicletas amanhã. 
Literatura? Somente infantil (pelo menos adoro), e posso ler meus queridos blogs, escrever. Nem tudo é perdido. Cai uma massageante chuvinha a horas, pode ser a tal enchente das goiabas, famosa lá na serra!
Este recadinho é de meu aluno do ano passado ("profesora"). Isto não compensa qualquer sacrifício?

2.3.13

Alfabetização


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Mostrarei agora para vocês um pouco da minha paixão ( e motivo de meu sumiço)!  
Alfabetizar criancinhas de quase seis anos. Um trabalho artesanal e individualizado.
Começamos pelas vogais: correspondência grafofonêmica ( letra - som). As crianças repetem os sons de cada vogal, como na foto ao lado. 
Passamos pelos encontros vocálicos:  OI ;  AI, etc...
Todo o alfabeto, com as fotos das boquinhas de um menininho da idade deles, e formas das letras, fica afixado sobre a lousa.

Ao introduzir as consoantes, trabalho os pares surdo - sonoros: que têm a mesma boquinha:  começo pelo par  P / B.
Sigo com as  consoantes M e  N, que não são pares, pois só a M é plosiva (sonzinho com a boquinha fechada). A  letra N é nasal, mas pronunciada com a boca aberta.  A consoante L também não tem par. 

Curiosidade: as plosivas P / B  e  M (sem par), únicas de boquinhas fechadas, são os três primeiros grafemas que o bebê  produz, por isso  suas primeiras palavras costumam ser: "PAPAI, MAMÃE, BEBÊ, PAPINHA"; os pais dão significado ao "PAPAPAPAPA". Inclusive em diversas línguas de matrizes fonéticas próximas, estas palavras são parecidas.
Ó as boquinhas aí!  Lembrando que P/B têm uma só foto, com a mãozinha apoiada sob o queixo. M e N são pronunciadas com uma narina tapada.


Quem já observou um "Nenê" maiorzinho fazendo: "NÃNÃNÃNÃNÃ ; LÃLÃLÃLÃLÃ ? Eis a sequência (lógica).
      

Trabalho o parzinho T / D;  depois introduzo  os três pares F/V  ;  J/X ;  S/Z (aquelas em que a criança assopra o dedo indicador e sente um ventinho). As crianças tapam delicadamente os ouvidos com os dedinhos e fazem: T/D;   F/V;  X/J;   S/Z  por diversas vezes, até perceber a surda e a sonora: "uma sai e a outra entra".  Aqui há boquinhas para as oito letras citadas, par a par. F/V têm os dedinhos em V, "amarrando" o queixo.
       

Nos fonemas S/Z, puxa-se uma bochechinha.

    

Por fim, eu introduzo o C  ;   K  ;  Q,  fazendo par  com  a  consoante  G.   São três letras para um único som: o "CAN" gutural; difícil a beça para eles! As pontinhas dos dedos sentem a movimentação na garganta.
E ainda confundem o G com o H (GA), então demonstro que o H inicial não tem som, pois não há boquinha para ele.

O  "Rr" eu deixo para o final, pois trata-se de uma única boquinha para três sons diferentes: o R forte de "RRRato", onde se 'limpa" a garganta. O "r"  brando de arara, onde se "enrola" a língua.
E ainda temos o nosso R caipira aqui do interior paulista e sul mineiro, "ERRR de porrrrrta": o r retroflexo. Este fonema é exclusivo, somente nós o temos. De tão caipira chega a ser chique (pela exclusividade).
Esta sequência, recebi da Fonoaudióloga Cíntia (então doutoranda na UNICAMP).

O H, K, W e Y ficam sem boquinhas no alfabeto, porém há sons equivalentes que devem ser demonstrados: K eu já expliquei. W - V ou vogal U; Y - vogal I.
Importante fazer os sons onde o H vem após outra consoante: CH, LH, NH - som de X, L "enrolado", e N "enrolado".            
Estas atividades são orais, para o início da aula. Temos inúmeras outras para escrita. Demonstramos as quatro formas das letras, mas só utilizamos para escrever, a bastão (imprensa caixa alta).
Os termos "infantilizados" que utilizei aqui, são devido a faixa etária em que atuo; em sites fonoaudiológicos se encontra os termos técnicos adequados.
Outro dia falarei sobre a "Consciência Fonológica", que é outra coisa (também oral).
As fotos são da fonoaudióloga Ive, minha ex professora num curso de alfabetização fônica que fiz em 2005. A apostila (parcial), inspirada neste curso citado, é de autoria de minha atual Coordenadora (Beth Cruz), que ministrava um curso pago em outro município juntamente com minha atual Diretora.      
Não utilizo totalmente a apostila. Caso alguém a queira, está completa no link abaixo.
Não coloquei o alfabeto da Ive, porque está salvo no computador da oficina, remediei com as fotos da apostila por serem as mesmas da Ive, visto que aqui o foco é nas boquinhas.        
É possível salvar e ampliar, para imprimir com tinta colorida.    
http://promaluzinha.blogspot.com.br/2011/05/metodo-fonico.html
Veja minha aluninha A. ensinando um sonzinho à amiga M.:

       
                                                         

Blanche - XV

*  Aqui  terá o conto completo!

Blanche se aninha na carroça, agora envolta num leve tecido devido à nuvem poeirenta. Eric desce a seu lado pretextamente pelo pé enfermo, que inchou levemente.
Enquanto os outros três tagarelam absortos na boleia, a garota roça seu pezinho ao dele. Aprovisionada em minutos tão substanciosos, lança olhares abstêmios a seu preferido. 
Mais uma curva e já se avista o garboso Vilarejo: Contempla-se a estradinha emoldurada por quatro propriedades “urbanas” dando fundos ao luxuriante rio, bem lá embaixo, à direita dos carroções.
À esquerda, temos a branca capela sempre a sorrir, com a sineta reluzindo no campanário e seus utilitários anexos, e mais duas propriedades, encravando-se longitudinalmente no íngreme sopé. 
Num solavanco, a menina é lançada em Eric. Oportunamente se encostam de forma acetinada, para só depois retomarem as posições originais; logo haverá público exigindo a compostura.
Os pelos do braço esquerdo de Eric ficaram eriçados: num gesto discretíssimo ele lhe demonstra, carinhoso. Ela rapidamente atira-lhe um beijinho mudo, fala qualquer coisa para disfarçar e tudo se normaliza. 
A idiossincrasia desta região se faz, mesclando a cultura indígena nativa, negra remanescente da escravidão, e de brancos oriundos de localidades tão diversas, contudo europeu, dominadores.
Amor e ódio dançam aqui, impossibilitados de se amalgamarem (e de se repudiarem) totalmente, um barril e um pavio no vilarejo “Riolama”. 
Apeiam todos, Rob e as crianças aguardavam ansiosos. A traquina Acte reluz num vestidinho florido de garota branca, feito em costureira, pois a mãe índia não dada a estas artes.
O lencinho à cabeça, com um farto barrado no mesmo tecido, complementa o visual. Tem o maroto sorriso em janelinha, enquanto corre descalça, numa timidez misturada a excitação. 
Um último olhar sigiloso dirigido a Eric, e apartam-se inquebrantavelmente todas as damas, rumo ao anexo.
Novidades após sete longas semanas... e o esperado reencontro com a amiga Ariadne! Seria este o último? Após o desenganado casamento estará tão longe, tão triste, tão sozinha. 
Terminadas as orações, unem-se todos para um descontraído colóquio e piquenique sob as arvorezinhas, porém Blanche seguirá no carroção do pai para a estância, delimitada pelo seu saudoso "Orgástico Rio" (a tradução não é literal, pois não há equivalente em nossa língua para a denominação indígena do fértil rio).
Num abrupto e instintivo ato, Eric rodopia Acte pelas mãozinhas minúsculas e a deposita nos braços de Blanche: ele sabe ser este o último e precioso toque em seu par, antes do afastamento inexorável `a montanha dos caprinos. 
Após despedidas, Blanche segue com o progenitor e irmãos para lanchar junto à mãe e avó na propriedade rural. Rob nunca pode participar do piquenique na vila, por confinar parte da mestiça família à residência.
Seguem na carroça, entoando singelas cantigas religiosas. A delicada Acte no regaço de seus braços, David e Joe esparramados no assento, a sacolejar. O dia claro confere mais alegria ao descontraído grupo familiar.