26.5.13

Blanche XXVI

*  Aqui  terá o conto completo!

No tremulante arruado rural, o terceiro e último estabelecimento embarafustado adiante, também emoldurado pelo enovelado regato chorão, é a recém inaugurada (e necessária) alfaiataria.
É patrimônio de uma polida família negra: O letrado e milimetricamente minucioso Benhur, de porte diminuto, semblante pesado, palavras cativantes e o hábito de calcar o lábio inferior com os dentes incisivos laterais, alternadamente.
Sua irmã Shoe, ainda encantadora quadragenária, de esverdeados olhares agateados, descendo ao colo em recato,  solteirona e deficiente auditiva, coabita esgazeadamente junto a eles.
Encarrega-se dos afazeres domésticos e auxilia a cunhada na criação dos meninos Rick e Hírax. Em cada momento vago, dirige-se ao atelier e arremata as peças mais delicadas, com miudinha perfeição transcendental.
Sua comunicação gutural e gesticular, moldada ao abrandamento, não escandaliza e rapidamente se faz espontânea e de fácil entendimento, personalíssima ao interlocutor.
A esmerada e complacente Ingrid, esposa de Benhur, costureira e professora destas artes, altamente subordinada ao nevrálgico olhar marital, tem altura mediana, excessiva magreza, feito um capim panasco.
Grata demasiadamente pelo exponencial apoio da altiva Shoe, se ampara nela quando o esposo, alterado pelo secreto vício à bebida artesanal fermentada (alcoólica), invade sua oceânica alma.
Ingrid nunca reclama, nunca diz maledicências, sorri encolhidamente, mas sorri sempre. Desfrutou infância difícil e rende graças pela existência  privilegiada que alcançou, apesar da consumição.
A alfaiataria comercializa tecidos e aviamentos com audácia mercantilista. Um avultado devaneio para as mulheres roceiras, que nem sempre o concretizam, espionando ao longe, e desertando subjugadas à falta de numerário.
Blanche procedeu ao escambo de um suave vestido, por um airoso e amplo tapete para a alfaiataria. Os modelos são fulcrais: blusinhas em mangas longas, acinturadas, e as saias fartas, ansiando em varrer o pavimento. 
As cores escuras são favoritas, devido à complicação na lavagem de roupas à mão, naquelas tingidas terras secas. Um tom escuro de verde, com tímidas e esparsas florzinhas do campo, foi o tecido eleito.
As provas de roupas são diversas e extenuantes: tudo é detalhado, refeito, ajustado. O fato de Blanche comparecer escassamente àquele arruamento, faz com que alguns estágios necessitem ser galgados.
Enfim, aprontado... comporá um harmonioso par com as nupérrimas botinas. A garota, enviesando um sorriso, anseia que Eric fique visivelmente surpreendido, e cada vez mais a contemple em plena e sedutora mulher feita.
A flecha ervada desferida contra Eric, à maneira indígena, escaramuçando e debulhando seu coração, envenena-o um golezinho mais, no lastro amoroso.

25.5.13

Mão na Roda

Recebi um e-mail sobre o meu trabalho no período da tarde, então explico: ajudo na firma de usinagem do "Par", ao lado de casa.
Fazemos trabalhos em tornearia, soldas diversas, serviços de fresa, plaina, reparos em peças automotivas e sobretudo recuperamos rodas.
Você já ralou aquela linda roda de liga leve na guia, ao estacionar? Nós refazemos a pintura, diamantamos novamente, deixamos nova.
Não é propaganda, pois o "Fiotão (devido à engenharia) não trabalha mais aqui, e não damos conta do serviço.
Eu e o "Par" (só com os funcionários) não pensamos em ampliar a empresa, pelo menos enquanto o filho estiver fora.
Caímos na "burrada" de "confeccionar" um único bebê, agora estamos desfalcados de administradores e afins.
O marido já é aposentado, e eu jamais penso em deixar de ser professora. Trabalhar por conta, requer presença constante: "Só os olhos dos donos engordam o gado".
Quase não viajamos, somente fazemos passeios próximos aos finais de semana e feriados, pois a oficina não fecha. Muita coisa aqui, apenas o "Par" sabe fazer / resolver.
Meu canto do leste paulista ainda é calmo. Tenho medo, quando visito as cidades de Campinas e sobretudo São Paulo, pois não estamos acostumados a andar sobressaltados, olhando para trás, e até prefiro me aventurar aqui pelas redondezas.

Estas rodas eram prateadas. Costumizadas, ficaram branco e lilás.
 Cor hiper-prata (degraée: clareia e escurece). 
 Diamantação na face - brilho.
 Eu que encaixei os enfeites ("parafusinhos"). Nós pintamos em branco e diamantamos.
 Cor "cromo" (com montagem e balanceamento).
 Prontas "para outra ralada".
 Não trabalhamos só com coisas bonitas. Nesta roda de trator, será preciso trocar o centro. 
 Exagero: aro 26' . Tivemos que abrir um pouco o centro, vai para uma caminhonete.
 Milagre não fazemos - sucata.
 Ralada na face, será repintada.
 Pintura danificada - já entrou no "pronto-socorro". 

Doce de bananas

Domingo, no sítio, o primo colheu um cacho enorme de bananas, que mais parecia um "cachaço".
Algumas já estavam maduras, então fiz doce, com fibra de trigo.
A fibra faz com que ele seque mais rápido e não altera o sabor. O suco de um limão faz com que o doce não escureça.
Estas aí foram madurando durante a semana, e o pessoal da oficina degustou.
 O doce pronto, aguardando esfriar, para cortar em cubinhos.
 A panela vazia. Vamos raspar?
Não posso comer muito devido ao limão (gastrite).

Lua acesa e fumacê

Às 6 h 30, ainda estava escuro aqui no leste paulista, veja o esplendor do luar, quase se apagando: 
Ontem choveu (enfim) e a temperatura caiu, todavia o dia agora está límpido, com uma leve brisa sentido leste-oeste.
Nesta semana, tivemos um evento inusitado: devido a um caso de dengue na região, toda a área foi desinfetada.
Me lembrou a época em que eu morava no sítio, onde periodicamente, se passava "begacê" para matar o "bicho barbeiro" (o perigoso veneno B H C). O cheiro é igual. 
 Os "astronautas" da Zoonose nos deixaram meia hora na  rua, curtindo a tarde, até o veneno se dissipar.
 A belíssima "Toyotinha" da equipe (e não sou só eu que curto): 
 Terminaram a missão; estão tomando refrigerante.
 Adeus, dupla "envenenada"!

Professora coruja

A gente sempre acha que os próprios alunos são os mais inteligentes da Escola, os mais espertos e bonitos.
Sempre faço questão de acompanhar de longe, os meus ex alunos, até o quinto ano. 
Não fico muito próxima para não incomodar as colegas que estão com eles nos anos subsequentes. 
No ano passado, eu tinha 28 / 29 alunos (de 2º ano) nesta mesma sala pequena, e 11 casos de encaminhamentos diversos. O sofrimento é grande, pois não conseguimos dar a todos, a atenção necessária. 
Eu caminhava pela sala até o armário, e de tanta confusão / conflito / barulho / solicitação de atenção, constantemente me esquecia  sobre o que deveria pegar. É criança demais!
Neste ano, com 20 / 21 aluninhos, tudo está satisfatório. Eis a quantidade ideal para uma turma de seis anos de idade. 
Nota 10 para o MEC, que estipulou o máximo de 25 alunos até o 2º ano! Educação de qualidade começa necessariamente e principalmente pelo número ideal de alunos.
Já estão quase alfabetizados, os conflitos são mínimos, eu trabalho muito e consigo atender a todos, principalmente aqueles que requerem atenção individualizada. Nem preciso chorar no banheiro para expelir estresse, como era no ano passado.
Olha a turminha deste ano: não tenho razão? São os melhores da Escola!
Os belos cachos da B.; ela é a ajudante do dia, com carteira especial.
A primeira coisa que J.V. faz, é retirar os calçados. 
A mãozinha (com esmalte "para homens") de J.P. 
 A pele morena-jambo e os cabelos cor de canela da T.  
 W. acaba de perder o dentinho! Fazemos festa...
 Trabalhar postura nem sempre adianta, gostam de se empoleirar...
 Falar 1.000 vezes sobre a postura, literalmente!
 Os cílios mais lindos da Escola pertencem ao L.
 A pinta "na testa" mais charmosa, pertence ao G.
 Tatuagem de chiclete nas costas, e um belo coque; K é a mais vaidosa.


20.5.13

Blanche XXV

*  Aqui  terá o conto completo!

Na comunidade Riolama, famílias multiétnicas são habituais. Os homens, incoercívies, vêm sozinhos, ininterruptamente à região e “permutam” a esposa que possuir preço menorzinho, dentre indígenas ou negras, pouco importa. 
Devido à ascendência materna, a família de madeireiros nutre encantamento pelas insultuosas cavernas acima de seu quintal, abundantes e inusitadas, de negra melancolia.
Toda desapressada tarde de domingo exploram-nas idilicamente, desaparecendo silentes das vistas do mundo. Deslizam pelos estreitinhos, esfarrapando as gritantes desmentiras de grotesco "povo bicho". 
Algumas múmias naturais, parcialmente preservadas pelo clima seco das encostas arejadas, são de encarquilhados idosos e acidentados e ainda “vivem” assustadoramente em seus aposentos, no interior das tendenciosas lapas. 
A ulcerada subsistência, incluindo consumo cotidiano de insetos, feito crocantes tanajuras e delicadas larvas, não permitia aos indígenas, manter seus anciãos quando improdutivos, assim como os indivíduos inválidos. Exasperados acidentes eram corriqueiros nestes elevados. 
A eles era providenciado, em odres e embornais, estoque razoável de água e alimento, em uma minúscula gruta retirada. Ali permaneciam isolados, numa dolorosa lamentação, ou com um caritativo ente estimado, até perecerem atrocissimamente. 
Abundante material lítico e utensílios em terracota, cheinhos de entalhes, encontram-se junto às suas desidratadas múmias, murmurejando felizes a parecer puxar agrados.
Ferramentas em pedra debitada (visto que não conheciam o metal), rica cestaria, tecidos rústicos, peles lapidadas, unguentos, adornos, entalhes em madeira, estão furiosamente espalhados. 
Pequenos silos e cacimbas para acondicionamento de grãos e água, são vistos intercambiando-se entre as catacumbas, sempre encravadinhos por entre inóspitos barrancos pedregosos, desvalidos de vegetação, parecendo flutuar escorchantemente. 
Vestígios de reduzidas plantações, rodeadas por esparsas e estéreis árvores frutíferas, também se salpicam cá e acolá, inclusive com rudimentares sistemas de irrigação, semelhando rabiscos.
Muretas de pedras meticulosamente empilhadas, com os vãos das porteirinhas, ainda formigando vida no macio das gramíneas amareladas, revelam a domesticação descricionária de animais. 
As transcendentes cavidades são afastadas entre si, e algumas, visivelmente destinadas à suprema casta nobre, de inteira inflexibilidade: maiores, adornadas nuns sofismas e em locais privilegiados, mais próximas à água e em vistosos planaltos com mirantes. 
As escadas eram economicamente escavadinhas na própria terra, no lajeado de pedras ou feitas com cordas de fibra vegetal, onde de quando em quando, havia nozinhos para, numa descompostura, apoiar mãos e pés.
A arisca avó de Blanche era ainda criança quando, exasperados, bateram em retirada rumo à reserva, por detrás das montanhas, todavia lapsos de memória invocam a coercitiva procissão lamentosa, envolta em cânticos xamânicos e transes intermitentes.
Nos infinitesimais relatos revivescentes de sua memória amalgamada à imaginação, sempre exposta aos desmandos da natureza soberana, avó Lisa sonha com a devaneante época dourada.
Na planura do vale ou na ondulação das montanhas, que sempre adivinhamos lindas, ela esculpiu um passado que entrava fricativo pelas narinas, ouvidos e toda a pele. O ideal sobrepondo o real.

Cambuquira

Ontem, no sítio, fui caminhar cedinho e trouxe cambuquira de abóbora (também há de chuchu).
Para o almoço, lavei bem, piquei miúdo e refoguei com alho e um "tiquin" de gordura de porco. Acrescentei água para cozer e um tomate picado.
Há quem diga que a gordura de porco caipira (e orgânico) faz menos mal a nós e principalmente ao Planeta, que a soja (sempre transgênica). O sabor é inigualável!
Trangenia é a aceleração exacerbada de um melhoramento genético, que o homem, artesanalmente, levaria até milhares de anos para completar, dando tempo para a natureza se acostumar à mudança.
Cambuquira? São os brotinhos da abobreira: com os talos, flores, folhinhas, botões e até abobrinhas minúsculas.
Ato contínuo, fiz quatro omeletes fininhas, recheei com a cambuquira e enrolei (como panqueca). Servi com arroz feito com cubinhos de cenoura.
Complementei com docinho de bananas morninho e suco de limão cavalo, com água da serra, sem a máfia da controversa "aguinha mineral engarrafada" (E  existe água não mineral?).  
Nesta região serrana, a água de torneira é boa, meu irmão trata água (na Sabesp) a 15 anos, e confio na opinião dele.
E foi assim, a comida roceira simples, saudável e econômica, degustada ao sopé da Serra da Mantiqueira. Hoje devorei o restinho...

Fonte: http://www.cidadaonet.com.br/?pg=ceva-conteudo&id=7713

19.5.13

Sutianzada

É um evento anual que ocorre aqui, onde um grupo de mulheres sai pelas estradinhas rurais, a cavalo.
Neste ano, pelas contas dos primos, foram 68 amazonas, mais um grupo que sempre vai em pau de arara: bancos amarrados na carroceria do caminhão, cheios de madames.
Juntando uns 20 homens que foram de apoio, totalizou cerca de 100 pessoas. O evento iniciou-se ontem e terminou nesta tarde.
No percurso deste ano, as "sutianzudas" subiram ontem até o Mamonal (onde estive), almoçaram na vendinha do primo Luis, desceram até o bairro rural denominado "Óleo", onde deixaram os cavalos (dizem que alguns são caríssimos).
Dois ônibus as levaram a um hotel em Poços de Caldas - MG. Nesta manhã (não tão manhã assim) elas retornaram e almoçaram numa chácara aqui perto da Cidade.
Quando cheguei ontem ao sítio, a prima estava terminando de arrumar a bagunça remanescente do almoço. Segundo a prima, havia "sutianzuda" de Fortaleza (que vem sempre), de Cuiabá, de estados como S. Catarina e Paraná. Um dos cavalos veio de avião até São Paulo.
Consta que algumas "amazonas" não sabem cavalgar, nunca haviam montado: precisavam de apoio para apear e montar no animal.
Os primos são tão rústicos, que falam tudo com R (como os espanhóis): armoço, vorta, Gerarda, borsa. Para essas mulheres urbanas, deve ser o cúmulo do exotismo.
Hoje, quando eu e o "Par" descíamos a serra, topamos com parte delas também descendo. A sogra de meu filho estava no caminhão.
Ontem à noite, invejamos as "sutianzudas" e fizemos uma "carcinhada" no sítio de uma das primas. Nós éramos em 11 "carçudas" casadas, mais os dois homens da casa, três garotas adolescentes e cinco meninos.
A sutianzada custou R$ 390,00  "por cabeça", e a insultuosa "carcinhada" custou R$ 7,00 (com sobremesa).
Eu amei estar sozinha em meio a 21 pessoas rurais. Ali eu encontro subsídios para construir a meu conto.
Uma prosa agradável, uma volta às raízes, falavam de suas hortas, dos queijos que fazem, dos animais que criam, de como fazer sabão de cinzas, de nossos antepassados.
A prima foi na frente para cozinhar, eu fui à noite com três dos garotos. Me esqueci que havia trancado a porteira e tivemos que trepar   pular sobre ela.
Fomos pela estradinha, iluminados por uma lua rala, vestida de nuvens, quase apagada.

Calma, que também há a cuecada. Neste evento, nem mulher no apoio é permitido.

O dono deste cavalo está ali na vendinha, "mamando".
 Cavaleiros voltando à cidade (outro grupo).
 Vai amanhecer. Ó meu quartinho aceso, nos fundos do casarão, com a bela parede furadinha!
 Aí na venda, os priminhos da roça, que me levaram à "carcinhada".
 Nosso pasto, com um coqueiro jerivá.

12.5.13

Achei a casinha "dugout "!

A Beira do Riacho
Fonte: http://www.skoob.com.br/livro/33284-a-beira-do-riacho
No livro 4: "À beira do riacho" da belíssima coleção "Uma casa na pradaria", a autora Laura, à qual sou fã da época de adolescência, cita a época em que o pai comprou um pequeno sítio de um norueguês solteirão.
Eis a descrição do tal estrangeiro:"Tinha cabelo amarelo-claro, cara redonda e vermelha como a de um índio e olhos tão claros que dava a impressão de ter havido um erro qualquer."
O homem morava numa cabana escavada no barranco, coisa atípica na região centro-norte americana, que fez a menina ser ridicularizada na escola quando se mudou para lá. 
Veja na ilustração, a mãe passando roupas, enquanto a garota salta por sobre a casinha, com seu fiel cãozinho! 
Algumas fontes citam que a casa não existiu de verdade, todavia a Wilqui acaba de me provar que é possivelmente verídica.
Olha a foto que ela tirou nas proximidades da pequena vila em que reside na Noruega... gente, é a mesma casinha!
O norueguês a reproduziiu nos Estados Unidos, tal qual a tinha em seu antigo país.
Isso pode parecer uma bobagem, mas significa muito para mim. Foi grande a emoção em ver a foto. Pessoas moravam assim no séc. IXX.
É um bom abrigo contra a neve do inverno, que cai em ambos locais. No interior, havia uma chaminé para expelir a fumaça do fogão, e despontava no solo superior.
Eis agora, a descrição da tal casa:
"O carreiro (trilha - é português de Portugal) terminava num lugar mais largo e plano, onde virava e descia para o ribeiro, em degraus. Foi então que Laura viu a porta, que erguia-se no aterro relvoso, no ponto onde o carreiro virava. Era como a porta de uma casa, mas o que ficava atrás dela estava debaixo do chão."
http://veja.abril.com.br/blog/temporadas/tag/os-pioneiros/
Você já leu esta deliciosa coleção ou assistiu ao seriado de TV na adolescência? Está quase toda em e-book.
Esta é a casinha dogout que ainda hoje existe e a Wilqui fotografou... gostaria tanto de fotos do seu interior"! Será que há mesmo a chaminé? Como será o fogãozinho? Será que a porta ainda está presa ao portal? Como será a lateral e os fundos?
Fonte: http://wilquidias.blogspot.com.br/

Horrorizada

O Grito.jpg
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_(pintura)
A algum tempo, venho me horrorizando cada vez mais com a realidade nua e crua das escolas estaduais de segundo ciclo: sexto ao nono ano.
Nossas mães de alunos, que nem têm casa própria, estão arcando com escolas particulares após terminarem  seu tempo na escola municipal onde atuo.
A alguns meses, encontrei uma prima num velório. Perguntando pelos filhos, obtive a resposta de que o menor está amando a escola da prefeitura (segundo ano), todavia, o maior iniciou o sexto ano numa escola particular por absoluta falta de opção.
Meu Deus! Com seis aninhos eles já estão quase alfabetizados. Nos empenhamos em cursos, trabalhos em fins de semana, fazemos atividades lúdicas, trabalhamos todas as disciplinas do currículo (inclusive Ensino Religioso - ética, filosofia). 
Na última reunião, as mães estavam boquiabertas pelo potencial dos pequenos. Elogiaram a eles, a mim e à Escola. E com o passar do tempo, tudo vai se esvaindo, se banalizando...
Tem uma sala de quinto ano próxima à minha, e noto o desinteresse, desrespeito com a Professora, reclamações constantes para não estudar, ausência de pais nas reuniões, descaso com a lição de casa.
Sinto pena de minha colega, ao mesmo tempo me sinto privilegiada por estar com os pequeninos, que tanto amo e sou correspondida com avanços na aprendizagem.
Hoje falei com outra prima, que trabalha como empregada doméstica para minha avó. Ela está encantada com a professora deste ano. Seu garoto está em outro quinto ano em minha escola.
Quanto ao ano que vem, não há a menor chance dele "digladiar" com uma escola estadual. Ela já cotou preços e escolheu uma excelente escola particular aqui perto.
Como pagar? Ainda não sabe, mas cogita tentar algum trabalho extra.  
Outra prima que estava conosco, e tem o filho no primeiro ano ao lado do meu, está encantada por ele já estar lendo palavrinhas com seis anos!
Ela quis saber se todos estão no mesmo nível, está achando avançado demais. Expliquei que todas as seis classes de primeiro ano da Escola estão assim.
Ela também não consegue compreender como podem chegar ao sexto ano e enfrentar uma realidade tão diversa, tão caótica... onde estará a falha? Quais os principais pontos que consomem nossa escola pública estadual? Por que o declínio exacerbado em qualidade?
Esta minha prima disse que nem aos oito anos conseguia a aprendizagem que o filho já conseguiu aos seis.
Os professores do segundo ciclo têm um desafio astronômico diante deste caos, e o governo deve agir com ênfase "elevada ao cubo", antes que "o munda acabe" para as escolas estaduais.
Na época do "Fiotão", era tranquilo ficar até a antiga "oitava série" na escola pública e fazer apenas o ensino médio numa boa escola particular.
Eu mesma fiz ensino médio, depois magistério, tudo em escola pública. Apenas paguei o curso de pedagogia e a primeira especialização (a segunda, consegui numa universidade pública).
Nesta semana, uma professora de escola estadual (segundo ciclo) esteve em minha oficina, e expôs o retrato de horror que é trabalhar nestes estabelecimentos.
Os alunos se aliam e comandam tudo: é impossível ministrar aulas após o recreio, eles ficam ao celular, fazem rodinhas, ignoram a professora, respondem com palavras de calão, não têm receio ou respeito por nada, os familiares são ausentes...
Estamos em maio, e ela já vive à beira de um ataque nervoso, tomada pela angústia e desespero, enquanto os "bambambans" da educação assinam papeis em seus remansados gabinetes.

E você? Tem alguma opinião quanto a este quadro "deseducacional", que horrorizaria até mesmo  Edvard Munch?

Blanche XXIV

*  Aqui  terá o conto completo!

Neste adelgado vale abraçado por montanhas, temos a segunda propriedade "urbana" rumo à encosta: a rudimentar e recalcitrante madeireira do consciencioso casal Green e Zina.
Ela, uma indígena comprada (fato corriqueiro) e amplamente querida, quase uma exceção, adaptou-se naturalmente ao modo de vida europeu implantado na pradaria.
Um fator preponderante para a convivência pacífica de Zina foi o apreço despendido exaustivamente pelo esposo, que apenas homens com nobreza de alma alcançam.
Vista ao longe, vagando com as botinas negras, vestes estampadinhas recobrindo os membros até o final, lencinho branco à cabeça, tapando recatadamente as orelhas e densa cabeleira negra, nem se assemelha a uma índia.
Com o casal, congregam os celebrados filhos Brenda (noiva de Dory), Asper e Torben, e o rosado avô Lars, cabeleireiro masculino. `As mulheres, vistas como castiças desimportantes, não se permite tosquiar-se.
A Green, o que farta em cavalheirismo, escasseia em empreendedorismo. Embora exímio artesão, não domina a madeireira com punho cerrado. Na visão dele, dias iluminados existem para serem degustados. Seu pai Lars aposta nos jovens netos para o promissor futuro da empresa.
O azul viciante de seus olhos misturou-se ao negro supremo do olhar de Zina, conferindo às íris dos filhos estranhos tons agateados, que mudam ao longo do dia, conforme a insolação.
Os cabelos, dele clarinhas e encaracoladas penugens, e dela tão indígenas, forjaram nas crias todo tipo de nuances: Brenda com revoltosos fiozinhos cor de mel; Asper com potente cabeleira escura; e Torben numa espécie de ruivo mascado, com mexas aloiradas cá e acolá.
Os minguados conflitos familiares, geralmente apaziguados pelo avô, giram em torno da constante falta de recursos financeiros e da manipulação de duas culturas tão distintas entre si.
Green, adepto à tolerância devido a educação calvinista, sempre propõe. Zina, absolutista e de cultura tribal, por vezes se impõe. O tempero cabe a Lars, que recorre cuidadosamente às crianças para encontrar o fiel da balança.
Em Riolama, construções em madeira são uma constante. Silos, galpões, residências, abrigos de animais, são entabulados com as árvores abundantes das florestas locais. 
Numa impressionabilidade, os indígenas, anteriormente à reserva, habitavam escrupulosamente as cavernas esculpidas nas encostas, utilizando parca madeira. Numa polivalência, preferiam extrair frutos, cascas e raízes de suas intemeratas árvores.
A arenosa terra da encosta, propícia à escavação, gerou inúmeras cavernas, em tamanhos e formatos diversos, borbulhando feito olhinhos curiosos a espreitar a planície. 
Paredes eram formadas com adobe (barro e grama), e pedra amalgamada. O sincretismo de materiais em colóquio permanente, deixava as construções excêntricas e artísticas. 
Prodigalizando, as resistentes raízes, ossos especiais, fibras tecidas, grandes sementes e madeira retorcida eram entrelaçados em partes do adobe com intuito estético. 
Coloridas pedras polidas, angariadas ao “báculo rio” serviam de arremate. Outrossim  criavam desenhos nas paredes escavadas, feitos com terra colorida misturada a gordura animal, dando um sabor à fruição. 
Num magérrimo sorriso, Blanche sonha com os fragmentos desta época longínqua, contemplando as ocas encostas fantasmagóricas. Esta menina tem perdido parte de seu ar vadio e despreocupado... 
Envolta numa mexediça nuvem refulgente, Blanche, com sua crescente maturidade, lentamente imprime-se um porte senhoril que subtrai-lhe parte da graça, podando suas asas de veludo: ônus e bônus. 
Os pensamentos amarfanhados e poéticos, vão embaindo-se com atitudes prudentes. O amálgama denominado Blanche transborda em congestionantes tateios rumo à vida adulta, a existência descuidadosa afasta-se mais e mais.

Matriarca

No dia das mães, nada melhor que homenagear a mãe das mães: minha avó tem noventa anos e ainda está lúcida.
O "Fiotão" é seu bisneto mais velho: 27 anos. Ela já tem um trineto de 8 anos (popularmente dito como tataraneto).
Nesta foto, está na porta da cozinha, na casa da serra que ela tanto ama.
Nesta foto, está com a Maria, sua filha vaidosa igual a ela. A avó usa dois potes de creme no rosto todo mês; fica uma hora em frente ao espelho toda manhã. Eu não puxei nadica... 

Vó Nina teve sete filhas e um filho.
Hoje nos reunimos na casa dela para um churrasco. A turma ainda está lá.
Esta é sua filha mais velha, Corina; apenas 18 anos mais nova que ela: minha mãe. 

No ano passado, trabalhei a imagem abaixo, no calendário de maio com as crianças. Há doçura maior?
Fonte: http://bobodacorte.com.br/2012/05/13/dia-das-maes/
Sereno restinho de dia das mães para todas vocês!

11.5.13

Secura no leste paulista

Neste ano, a chuva estendeu-se atipicamente até meados de abril, todavia agora, em pleno outono, ela escasseou de vez.
Março foi um mês com cara de janeiro: úmido e fresquinho. Em maio fez mais calor que abril, contudo na última terça-feira chuviscou de madrugada.
Agora temos temperatura média própria à estação: gelado de manhãzinha e à noite, quente à tarde.
Até meados de setembro, a pele ficará um horror. Minhas canelas começaram a se coçar no meio da semana e somente untando em creme hidratante, abrandou.
Agora é a vez dos pulsos: vamos besuntar, senão eu coço até verter sangue. Os calcanhares também necessitarão de cuidados extras.
Eu uso meias constantemente e em duas noites por semana, passo bastante vaselina nos calcanhares, caso contrário, em fim de agosto podem partir a pele.
Quanto às crianças, vão assim à Escola:
É comum até mesmo os adultos usarem blusão enorme, bermuda e sandálias, sendo que os pés é que necessitam de mais proteção!
Esta usa casaco pesado sobre alcinhas e fica neste tira-põe. Mãe sem noção... Eu guardo todas as minhas roupas sem mangas e bermudas. 
Olha o exagerado (está de luvas)!  Isso numa temperatura em torno dos 20 e poucos graus.
Sinto até saudades do verão, quando vão todos iguaizinhos nos uniformes.

Rubem Alves

Capa
Fonte: http://books.google.com.br
Este excelente escritor também se embrenhou pela literatura infantil, assim como seu amigo Carlos Rodrigues Brandão (meu ex professor - PUC).
Guardo a sete chaves o livrinho "Estórias de Bichos" onde há cinco contos. Também colei o "retratinho" do autor na contracapa para demonstrar aos alunos.
Gosto de falar um pouco sobre a UNICAMP (onde ele trabalhou tanto). Quase todas as crianças já ouviram falar nesta renomada Universidade, devido aos tratamentos médicos oferecidos lá. 
Eu gosto de contar cada história em duas partes (dois dias seguidos), pois há vocábulos e temas complexos. 
Veja um trecho de "O pintassilgo e as Rãs":
"De um ponto de vista filosófico, faltava rigor ao discurso do pássaro, pois ele mais se aproxima da poesia que da ciência".
"De um ponto de vista ideológico, tratava-se de um discurso alienado, no qual não se fazia nem mesmo uma análise crítica das condições objetivas da sociedade ranal."
Trata-se de um grupo de rãs confinadas em um buraco, que recebe após muito tempo, a visita de um pássaro.
Ele conta ao "proletariado", sobre a vida lá fora. O grupo dominante simplesmente o mata e empalha para expor num museu (servirá de exemplo).
Certa vez, numa visita escolar ao museu, um aluninho questiona a professora rã:
_ E não seria melhor voar?

De acordo com cada faixa etária, rende um debate áureo; voemos com nossos pequenos, para que na vida adulta eles tenham asas! 

Fim de um longo ciclo

Fonte: http://www.dormiu.com.br/imagens/a-vovo-tirou-o-dia-para-fazer-faxina-16007/
Histórico: Gosto da faxina sempre às manhãs de sábado - meio período, pois estou aqui ao lado para qualquer dúvida que surja.
Então, em 2006, quando minha faxineira antiga arrumou emprego fixo, encontrei a Sandra, após um tempo sozinha.
Ela ficou apenas parte do segundo semestre... novamente eu estava "na mão". Consigo ficar de um a dois meses sem ajudante - depois não dou mais conta.
Os dois homens de casa não têm como me ajudar: O "Par" quase fica maluco tocando esta oficina, das 6 h às 18 h.  "Fiotão" trabalha fora e estuda à noite. Sem chance!
No início de 2007, a Néia (irmã de Sandra) me procurou, vinha da roça. Ficou comigo até início de 2010, quando arrumou num restaurante popular aqui no bairro (são todas minhas vizinhas).
A própria Néia treinou a filha da Sandra (Janaína) e sua própria filha (Luana) para a substituírem. Fiquei um ano com as duas mocinhas, quando optei apenas pela Luana.
Ela esteve até hoje comigo: arrumei-lhe emprego para cuidar de minha aluna (à época) como babá, no período da tarde, de segunda à sexta- feira.
Ela fazia o ensino médio de manhã. Tudo encaixadinho. Neste ano, ela passou a fazer um curso à noite e procurava emprego fixo.
Conseguiu numa lojinha aqui perto. Estou feliz (e já com saudades), pois é uma mocinha adorável. 
Ela canta no coral da igreja e as pessoas se emocionam a ponto de chorar, de  tão lindo.
Luana  tem um pouquinho de dificuldade em raciocínio lógico- matemático, assim como os irmãos. Todos estudaram na escola onde trabalho.
A mãe tem um filho moço, a Luana e mais duas garotas. A terceira menina (de 16 anos) passou a ocupar o cargo de babá.
A caçula, de 13 anos, irá cuidar da casa de manhã, pois estuda à tarde. E eu vou tentar com a senhora que trabalha aqui na vizinha ao lado.
Fui eu que arrumei a faxineira para a vizinha, esta senhora mora na rua de cima desde que me mudei para cá, em 1988.  
Este é o fim da saga destas quatro mulheres que muito me ajudaram, e que durou quase sete anos. Vida nova, apesar do aperto no coração!
A posteriori:  A Janaína, filha de Sandra, veio! Ficará com a vaga da prima. Afinal, tudo continua...Eba!

7.5.13

Abacate


Acabo de receber lindos e imensos abacates: seis! Eu os guardo em geladeira para não amadurecerem todos juntos, vou deixando um a um na fruteira.
O "Par" come um pedaço in natura toda manhã. Eu também gosto de levar à escola, para comer durante o recreio. É bem energético e sustenta até o almoço.
Quem me doou foi o tio Anísio: marido da irmã de meu pai. Ele tem uma pequena chácara aqui perto e sabe que gosto, então me fez este carinho.
A fruta é rica em magnésio (metaboliza a glicose e nutre os nervos e o cérebro), cálcio, ferro, fósforo (melhora o raciocínio), potássio (pressão arterial).
Faz bem ao coração devido à gordura monoinsaturada, também combate diabetes, colesterol (aumenta o HDL, que protege as artérias) e reumatismo. 
Contém o antioxidante glutationa e vitaminas A (visão), B1, B2 (ajuda a absorver carboidratos), E (fertilidade), K (formação dos cabelos).
Também contém açúcar, fitosterol (reduz o colesterol), lecitina (proteína que protege as células contra o câncer), tanino (sequestra radicais livres).
Tem ácidos oleico (filtra o colesterol ruim), linoleico (ômega 6), palmítico (usado em cosméticos).
Ajuda a reduzir a taxa de colesterol e pressão sanguínea; age contra prisão de ventre e perturbações digestivas.
É anti inflamatório; desintoxica o fígado; reduz fadiga mental; protege ossos e dentes; dá disposição; fortalece o sistema imunológico e ameniza doenças de pele (em emplasto).
Batido no liquidificador com água, torna-se uma ótima máscara para o rosto e restaura cabelos judiados. Basta aplicar e deixar uma hora.
Há inúmeros abacateiros nesta região e passarão 6 meses frutificando. São resistentes no pé, colhemos verdes e em poucos dias perdem o brilho e amadurecem. 
Nem precisa comprar, é abundante mesmo, sendo que na feira livre custam em torno de R$1,00 cada, ou três por R$2,00. Acessíveis a qualquer pessoa.