31.8.13

Leste paulista

Recebi um e-mail solicitando informações sobre esta minha região do Brasil. Este país é muito grande, então vou falar unicamente daqui.
Custo de vida:  Os imóveis estão muito valorizados (compensa vender, não comprar). O supermercado também está exorbitante - opte pelos alimentos naturais, pois os industrializados são vistoriados com relativa infantilidade pela ANVISA. São carregados em química, gordura, sal, açúcar... os preços, incompatíveis.
Frutas, legumes e verduras são muito baratos, se optarmos por aqueles de época. Há feiras livres em todos os quadrantes da cidade, variando os dias da semana.
O setor de serviços também está em alta. Numa faxina de 5 horas, pago R$50,00; salão de beleza e afins; setor automobilístico; reparos em eletrodomésticos; construção e manutenção em imóveis, tudo com preços altos.
Turistas / Estrangeiros: A região é turística, mas não se vê nada escrito em inglês, ou atendentes que falem a língua, para facilitar a vida do turista estrangeiro. Não se vê muito turista estrangeiro por aqui, alguns asiáticos.
Moradores estrangeiros também são poucos, eu mesma nunca tive um aluno estrangeiro, e trabalho com crianças a mais de 20 anos.
Segurança: Aqueles telejornais que "pingam sangue" espirram uma sensação de insegurança geral. De vez em quando aparece um "caveirão" aqui para arrumarmos as rodas. As empresas de monitoramento, alarmes domésticos e cerca elétrica proliferam, e vão de vento em popa.
Meu estabelecimento comercial existe a doze anos e nunca sofreu um assalto ou furto. Nunca ninguém invadiu minha casa, contudo arrombaram a do meu irmão e furtaram aquelas coisinha miúdas. Isso é corriqueiro e todo cuidado é pouco.
Há golpes telefônicos de origem distante e ao vivo (tipo bilhete premiado). Estupros? Dizem que apenas em 2013 tivemos quatro casos no município (com 83.000 hab.). Um aumento enorme, mas as fontes não são oficiais.
Drogadictos temos aos montes, todavia muitos não fazem mal a ninguém, ficam andando a esmo pelas ruas...
Faço caminhadas noturnas sozinha, ando de bicicleta de madrugada com o Par, saímos pelas roças de moto e nada nunca aconteceu, porém minha nora (linda) foi seguida por um bicicleteiro.
A omissão da polícia causa mais insegurança que os bandidos em si. Se ligamos, eles mandam chamar o guardinha particular que há em alguns bairros ( que só atende quem os paga, lógico).
Já tivemos quadrilhas de fora invadindo mansões e fazendas algumas vezes (aparentemente da região de Campinas). Furtos de carros sempre existiram.
Escola pública: Na escola onde atuo, aqui pertinho, muitos pais chegam com cada carrão para entregar o filho... são no geral, microempresários do próprio bairro. 
Sempre há alunos tendo casa com piscina e um padrão de vida bom: vão à praia mais de uma vez ao ano, fazem churrasco mais de uma vez ao mês, possuem mais de um carro, planos de saúde.
A maioria é pobre: tem uma casa própria "popular" e ambos pais trabalham. Não temos favelas na cidade, mas diversos parentes dividem o mesmo quintal (dois cômodos daqui, três dali). Uma minoria paga aluguel. Neste ano, tenho um único aluno classe média alta, mas já tive turmas com vários.
Transportes: O carro e a moto são os mais usados; mesmo pessoas sem casa própria têm um ou outro (geralmente os dois).
Ônibus circular é mais usado por idosos e adolescentes. Pessoas de meia idade preferem o moto-táxi, com o dobro do preço e o triplo da rapidez.
A bicicleta é usada por operários homens, pessoal da construção civil, adolescentes homens. Dificilmente uma mulher usa bicicleta, mesmo em situação de lazer. Estranho! Ciclovias não temos, mas há promessa de uma que leve à cidadezinha vizinha (para lazer).
Eu pedalo tranquila aos domingos de madrugada, pois não há trânsito - vou ao centro da cidade, por motivos de segurança (seguro morreu de velho). 
Temos os horários de pico, mas em outros momentos o trânsito é tranquilo, muito mais rápido que o ônibus circular, por isso a opção da população.
Eu uso a moto: é econômica, rápida, fácil de estacionar e pilotar, deliciosa! Evito o horário de pico e ruas muito movimentadas, pois perde longe em segurança.
Emprego: Para mulheres com curso superior, a educação absorve um grande contingente (pedagogia). O salário líquido (livre de imposto de renda) de uma professora concursada que dobra período (dois cargos), gira em torno dos R$ 4.000,00, no serviço público (particular é um vexame). Muitas psicólogas, advogadas fazem pedagogia em vão dar aulas... fácil? Não! De jeito nenhum.
A trabalhadora "por conta" - faxina, estética, setor de alimentos, tem renda maior que as assalariadas do comércio. A empregada doméstica está em extinção, porém a cuidadora de idosos está muito mais presente que os familiares.
Para homens, a microempresa ou trabalho liberal é a melhor opção.  Como empregados, há uma gama enorme; serviço braçal "por conta" é valorizado (pedreiro e afins). Não há grandes indústrias na região, mas muitas médias. O serviço público, como em todo lugar, traz segurança, mas o ganho é baixo.

Saudosa


Imagem  Google


Nesta semana, fiz exames de rotina e me lembrei que há alguns anos, quando eu me dirigia ao postinho de saúde aqui da esquina, tudo era mais simples e prático.
Nesta época, a enfermeira chefe se sentava comigo, analisava os exames, dava explicações e esclarecia dúvidas, numa deliciosa formalidade quase informal.
Se não houvesse nada suspeito, eu não tinha NENHUMA necessidade de passar pelas chatas consultas médicas. Era orientada a refazer os exames em determinada data, e pronto!
Após algum tempo, esta atividade foi proibida pelos enfermeiros. O "bairrismo" médico neste Brasil vem de longa data...
Hoje eu marco consulta, aguardo a data, chego no horário e aguardo, aguardo... fico cinco minutos com ele e recebo a resposta de que tudo vai bem. Santo Deus! Precisa um profissional tão caro realizar um trabalho tão banal?
Com tanta escassez médica nos serviços de saúde pública, é absurdo não se mudar a legislação, delegando mais atribuições aos heroicos enfermeiros, que convivem praticamente submissos aos médicos.
Nesta região aqui, os salários das duas profissões são abismáticos. Não entendo por que um enfermeiro com curso superior, concursado, não possa sequer ler o resultado de um exame médico...
Em diversos países europeus, o enfermeiro tem um papel preponderante na área de saúde, fazendo com que o número de médicos possa ser muito menor.
Com tanta polêmica sobre a importação de médicos, são sei porque esta questão relacionada à enfermagem não vem à tona. Oremos!

29.8.13

Sorvete de macaúba



Esta palmeira é praga (jamais prá mim) nos pastos aqui da região. Cresci chupando esta polpa amarela e degustado esta amêndoa seca, muito seca.
Engastalha nos vãozinhos dos dentes, meleca a palma da mão, todavia quanto mais dá trabalho, mais a gente ama. Esta polpa fervida com leite, além de deliciosa, é medicinal (para os pulmões).
O sorvete de macaúba é tradição aqui no município, e a maior das delícias. E neste inverno esfria-esquenta, minha garganta faliu na sequência: ardência, inflamação, rouquidão (alunos riem de mim).
Quando a primavera chegar, tenho a missão de encontrar um sorvetão de macauba e tomá-lo sozinha (mentira, é também tradição eu e o Par dividirmos o mesmo sorvete).
Palmeira espinhenta, rústica "quinen" eu, aguenta até fogo no pasto. Tão produtiva! Quando o primeiro cacho madura, e solta as bolotas, o segundo e mais outros já se encontram em diferentes estágios de produção.
Ela não se preocupa com boa hospitalidade, aliás te recebe de pedras nas mãos: espinhos - muitos, dos grandões aos miudinhos. Mas a cara de brava esconde um aconchego sereno, que impossibilita a não aproximação.
Vingando entre pedras, nas ribanceiras, e com a sombra longe de si, torna-se um aprazível recanto de deleite, para "quentá sor" nas manhãs frias, e se esconder dele nas tardes ardentes da serra.
Eta cabocla mulata, bonita e de pé no chão! Sua caipirice faz dela um dos meus maiores amores arvoris, deixando para trás, até mesmo seu franzino e romântico namorado - o jerivá.
Ah, e o seu apelido carinhoso  lá na roça é macaúva, assim que gosto de pronunciar!
Jerivá - namorado do macaubeira.
Os dois vivem sempre por perto, um do outro!
Imagens Google

26.8.13

Mingas



Era um senhor que morava na zona rural onde cresci. O chamávamos "Minga"; somente em adulta vim a compreender seu nome correto.
Portador de  deficiência física, devido à paralisia infantil. Uma das pernas ficou atrofiada, ele se locomovia com uma moleta.
Um homem bastante habilidoso e produtivo, quase um "professor pardal". Nunca se casou (morava sozinho), mas uns sobrinhos da cidade passavam as férias com ele.
Não tinham a mesma índole que o tio. Viviam tentando aprontar para cima de nós, crianças da roça; tentavam nos perseguir; gritavam palavras de calão.
Certa vez, o maior (com uns 12 anos) tentou furtar um cavalo nas imediações, interpelado por um transeunte. Nunca mais voltaram lá, pois o tio se sentiu humilhado.
Vivia como caseiro nas terras do tio Antenor (tio de minha avó), e era o melhor amigo de meu pai. Foi a primeira pessoa pobre da região a ganhar uma TV (quando o tio trocou a sua).
Então, sua casinha consolidou-se como a gamela oficial da "homarada" das redondezas. Na roça era assim: tudo que havia de melhor era fornecido ao homens. Mulheres e crianças ficavam com o troco (patriarcalismo).
Toda tardinha, após o jantar (que era sempre arroz, feijão e "mistura"), meu pai pegava a trilha rumo à casa do Mingas, voltando somente após dormirmos.

De vez em quando, o Mingas fazia uma janta: polenta com frango caipira, tatu assado (que os amigos levavam), etc. Todo seu grupo de amigos participava. 
No caminho da escola, uma vez ou outra, eu e minha prima desviávamos a trajetória e adentrávamos o terreiro do tio. Contornávamos a casinha, mas nunca adentrei - tinha muita curiosidade!
Aparentemente eram apenas dois cômodos, anexados à oficina da fazenda. Tinha uma varanda em frente, onde ficava uma carroça.
A casa do tio tinha aquela escadaria imensa, típica de fazenda. Lá, eu entrei algumas vezes com a mãe, inclusive para assistir TV (que era um chiado só).
Após viver na cidade, meu pai continuava a visitar o Mingas esporadicamente, levando inclusive os netos para conhecê-lo. Até que, lá pelos 70 anos, morreu "de repente".

Imagem Google

25.8.13

Aliança

É o nome desta estradinha em terra batida, devido à maior fazenda da região. Fomos de moto, a tarde estava quente e clara.
São 10 km daqui de casa ao fim da estrada (ela não tem saída - vai, volta). Há grupos de garotos passeando de bicicletas, também quero ir, pois quase não há movimento e a via é plana. Uma higiene mental!

Mangueiras gêmeas em meio à terra arada.
 Céu com fiapos de nuvens.
 Açude plácido.
 Igrejinha abandonada.
 Sede da Fazenda Aliança.
 Escura alameda de bambus.
 Equinos.
 Celeiro com janelas especiais.
 Ficheira.
 Primavera.
 Tulha suspensa.
 Outra sede de fazenda.
 Cachoeira aliança.
 Patos selvagens (não dá para ver).
 Mais alameda.
 Árvore pelada.
 Moita de bambus.

A negra senhora idosa



Sobe minha rua. Lenta, séria, parando cá e acolá. Vai de bolsa e sacola. Vai de saia austera e lenço na cabeça. Vai de sapato fechado.
Idosa, talvez quase octogenária... sobe a rua mais íngreme, contudo vem da cidade, sempre à tardinha, quase ao escuro.
A tempos a vi saindo de uma mansão. Na rua de minha tia. Fui questionar - provavelmente é a senhora que trabalha para outra idosa: Mulher rica, branca, morando sozinha, porém acolhida por um filho.
A alguns dias, por volta de vinte horas, a senhora negra saía do mercado, abarrotada por sacolinhas, quase reptando pela noite fria. Estava suprindo o lar.
Mora aqui por perto... será que sozinha? Será que com netos? Tentei um "boa noite" por diversas vezes, tentei um sorriso. Não há brecha.
A quase minha amiga não está para amigos. Será saudável ou convalesce em segredo? Será que lhe invejo a garra? Será que lhe lastimo a sina? Será que aceito as circunstâncias?
A sisuda amiga negra não se deixa atingir, não se deixa abater, não me deixa... a olho e vejo o passado, vejo tanta história, tanta gente branca nestas mãos. 
Começou na infância? Na adolescência? Teve adolescência? Possivelmente não... nem eu a tive! Trabalha hoje pelo dinheiro ou pela lealdade?
Corro a sondar, toda vez que miro a senhora negra. A vejo subir, subir, até desaparecer. A carrego na mente, sem nome, sem atenção.
A negra senhora idosa, na total ignorância, tem uma amiga, a admirá-la, a mirá-la. E continuará a ignorar-me.
Imagem Google.

Blanche - XXXV

*  Aqui  terá o conto completo!

Num piscar, o sábado raiou sequinho e fresco. Tudo foi providenciado para o gostoso declive à fazenda. Blanche enfim apreciará o incógnita bebê Isaac. Um fofo tapetinho malhado foi confeccionado para ele. 
Ela manufaturou um borbulhante tacho de rapadura (sua especialidade), com azedinhas amoras silvestres. Presenteará as crianças Bencio, Verna e Roya, além de reservar um naco à sua família de origem.
O viçoso canavial que cultiva, à nordeste da casinha de troncos, assim como as outras plantações, recebe irrigação do regato que desce sobre a cabana e o anexo (o rancho anterior). Devido ao excesso de pedras, ele parece azulejado em sua extensão próxima à residência.
As águas cristalinas formam um espraiado a oeste, dando início a uma série de cachoeiras, que rompem o despenhadeiro a sudoeste, formando deliciosas piscinas naturais, esculpidas em momentos de tempestades.
A descida nesta tarde está perigosa: demasiada pedra solta, as pesadas rodas da carroça as atiram com violência às patas dos cavalos, que se assustam freneticamente, em meio à nuvem poeirenta.
Estão carregados com os apetitosos queijos ervados e um buliçoso cabrito corpulento para abate. As secas cascas de bergamotas para Tom e as interessantes sementes de especiarias (da horta do cotiguaçu) para Colen, não poderiam estar ausentes.
Na longa e lenta descida, Nick vai revelando `a Blanche o previsto destino da hermética Ariadne, aquela que o amara platonicamente, desde tenra infância. Deu à luz um entesourado menino, e ingere o pão que o diabo amolgou com as nádegas, pelo bronco marido.
Possessor de uma tropa de carga, cinge a região mascateando. Já em meia idade, de feiura caricaturesca, rosto pontiagudo e nariz mole, com minúsculos olhos (que se querem) amedrontadores.
A avó indígena sucumbiu antes da nascença do bebê, gerando flagelo em redobra. O esposo esteve comerciando nos dois episódios, deixando-a entregue à casualidade, que não a favoreceu. Acordada na rede ao lado da ancestral rija, apressurou-se a clamar por amparo.
Uma benzedeira carrancuda e baixa foi quem assegurou a morte, de supetão. Auxiliou Ariadne na inumação, no quintal da residência (em Corda Bamba), sob uma macaubeira. A neta fez a paga com um frango e uma galinha velha. Um canteiro floridinho recobre os restos mortais.
O menino demorou. Foram dois meses de vazia solidão. Inculcada pela avó, seguiu só e calada com as facínoras dores preliminares. Parede-meia, os moradores adjacentes auscutaram a derradeira agonia.
Mãe e filha vizinhas se aligeiraram a acudir. Com a ponta da faca, descerraram a frágil tramela que detinha a porta. Recostada ao canto do cômodo, agarrada ao portal por detrás, Ariadne e o garoto trabalhavam arduamente.
Saltitou em cócoras, porém meramente a cabeça vinha fora. A senhora ordenou que se dependurasse ao caibro do telhado, arrancando suas últimas forças. Foi esticando aquele corpinho, enquanto untava em banha de porco as entranhas da geratriz, arrimada pela filha.
Uma criança perfeita! Com os suaves traços maternos, miudinho e moreno. Os paninhos do enxoval Ariadne fez à mão, bem poucos por sinal. Complementava os cuidados, valendo-se de trapos que acumulou durante toda a gravidez.
Oito cueiros bordadinhos; duas toquinhas com orelheiras; três mantilhas bem quentinhas; uma dúzia e meia de fraldas (em pano próprio); cinco jogos de pagõezinhos e mijões com rendinhas delicadas, quatro pares de botinhas estampadas.
Teceu três redes para mantê-lo aconchegado, tanto em casa quanto no terreiro, enquanto realizava os afazeres. Lindinho vê-lo a balançar, na redinha presa entre dois arbustos, assistindo a mãe lavando roupas à beira do rio, sobre pedras.
O pai descortês, embora satisfeito pelo machinho, espancou Ariadne ainda no resguardo. Motivo frívolo, como sempre. É que a produção de bordados mingou e as encomendas se acumulam.
Todavia, quando o achavascado viaja, ela é momentânea serenidade com seu prêmio amarradinho ao corpo, à moda indígena. Acima de tudo, tece a mais linda e trabalhada rede para a filha da vizinha que a amparou.

Férias infantis

    
Me lembro de quando ficávamos em férias escolares, na zona rural: eu, meu irmão, primas e colegas. 
Por vezes, logo cedo, subíamos ao "pastão", contornando o longo corredor das vacas, até atingir o pasto superior à borda da floresta.
Ali havia mangueira, jabuticabeiras (do mato), lima e amoras. Quando a mangueira frutificava, nas férias de dezembro, nos deparávamos com quatis em bando, se deliciando.
Chegávamos de mansinho e dávamos um susto neles! Era só bichinho voando mato adentro com o rabinho prá cima... 
As amoras frutificavam o tempo todo, então nunca perdíamos a pernada. Aquele local era ermo, selvagem, contudo estávamos acostumados e éramos várias crianças.
Tínhamos medo do saci e da mula sem cabeça, mas o pior mesmo era o "adriano lobo". Sabíamos que estavam por lá, todavia nunca nos importunaram.
Em julho havia limas. Era notório que aquelas frutas murchas, que já estavam ao chão, eram as mais deliciosas. O nosso refrigerante em embalagem esférica: furar, apertar e sorver!
As imensas jabuticabas do mato, encontrávamos aos sábados, muito de vez em quando, pois duram pouco tempo ao pé.
Ali, os macacos imperavam. Tão bonitinhos, segurando e chupando. Famílias inteiras, de todos os tamanhos. Morriam de medo daquela criançada. Quando chegávamos, agarravam seus filhos, e a festa acabava. 
Certa vez, demoramos para ir à limeira, e as frutas murchas germinaram. Formou-se um lindo anel de filhinhas à volta da idosa mãe. A coisa mais linda!
Nunca voltávamos pelo mesmo caminho. Descíamos por dentro do cafezal, brincando e nos divertindo, com nossos shortinhos surrados e chinelinhos havaianas.
Geralmente não havia adulto por perto, porém nunca ninguém sofreu acidente grave. Sabíamos nos defender, tínhamos agilidade e leveza.
Escorregávamos barranco abaixo, trepávamos nos pedregais, entrávamos na água. Eram horas ao sabor do vento, observando animais silvestres, sem o menor compromisso.
Em outras ocasiões, encontrávamos novos locais, fazendas vizinhas onde moravam colegas, capoeiras, visitas a alguma moradia afastada. Éramos quase indiozinhos, nestas férias. 

Imagens google.

24.8.13

Espartanos

Google Imagens
Trabalho com crianças a mais de vinte anos e vejo que cada vez mais, o Estado tenta ocupar o lugar dos pais, como educador de nossas crianças, determinando o que devem ou não aprender, com quem conviver, quantas horas permanecer com estranhos.
Sendo professora, vejo a educação por dentro ( com as "teorices" todas, e com a mão na massa) e também por fora (como cidadã, que ajuda a pagar caro por ela).
De manhã, uma colega veio à oficina e me informou que o ensino médio das escolas estaduais será parcialmente integral a partir de 2014.
Poxa, qual será a qualidade? Se nem a primeira fase do fundamental (como os meus alunos) é coberta pela educação integral... para deixá-los num verdadeiro "depósito de crianças", prefiro que tenham apenas meio período e usem a net para aprofundamento (educação parcialmente à distância - blogs para interação escola/família).
Hum... detesto a confusão entre quantidade e qualidade! Tudo em demasia, extrapola a sensatez. Educação acadêmica é diferente da educação de berço. Fui criada no mato, pessoas analfabetas tinham uma educação louvável, que recebiam na família e levavam ao túmulo. É esta que está em risco.
Com a net, os alunos do ensino médio poderiam permanecer mais com a família, e gozando de aprendizados significativos (monitorados), sendo parcialmente à distância, incentivando a autonomia e pesquisa. 
Na prática, quase todo professor percebe (e comenta) a queda de rendimento e consequente desinteresse dos estudantes após o recreio. Temos inclusive o "horário nobre" para os conteúdos mais importantes - logo ao início da aula.
Alunos de ensino médio devem estudar e estagiar em empresas (por no máximo trinta horas semanais), como já ocorre. É a melhor escola, e aprendem a lidar  com o próprio salário (bolsa).
Caso queiram a miraculosa educação integral para o ensino médio, que o façam no Instituto Federal, pois o temos aqui no Município. Seria mais propício.
Grandes escritores, quando falam de sua alfabetização, relatam que foram educados em casa: pela mãe, pelo pai, ou por um professor particular (e se tornaram grandes escritores).
Isto agora é impossível no Brasil, e passível de punição penal por "abandono intelectual". Sigo o blog da Dani  http://flechasnamao.wordpress.com , que mora na Irlanda. Ela educa em casa os seus seis filhos.
Comentei com ela, que sendo professora alfabetizadora, eu também gostaria que meus futuros netos tivessem a opção de ir apenas uma vez por semana à escola (caso a família assim decidisse).
Seria apenas para a socialização com os pares, troca de informações, desapego regrado da família, o restante eu sei fazer sozinha.
Realmente não é possível a educação doméstica integral, nem mesmo para ciganos ou circenses, que ficam pouco tempo em cada lugar (já tive alunos destes dois grupos).
Temos os bebezinhos quase retirados das mães para frequentar creche, pois teoricamente não sabemos educá-los devidamente, delegando-os desde os quatro, seis meses à uma creche profissional e fria, mesmo se não trabalhamos fora.
Fui monitora de creche e também coordenadora. Não falo como leiga. Certa vez, tive mais da metade dos bebês do berçário acometidos por pneumonia (e internados em hospital).  Os que se livraram, foi por eu ter alertado as mães, então permaneceram umas semanas com parentes. 
Muitas genitoras optam pela praticidade e conforto ocasionados pela creche, nem pensam na quantidade de antibióticos e "amor de especialista" que virão no pacote. Tornam-se heterônomas como mães! 
A terceirização dos filhos, nestas "franquias" escolares (não falo das particulares) pode vir a ser uma faca de dois gumes. Forma-se o cidadão padronizado, com habilidades superiores, e perde-se a individualidade  e intimidade familiar, crucial para o equilíbrio emocional.
Criar programas de orientação aos pais, sobre estimulação precoce das crianças e afins, usando a TV (que é uma concessão pública) não seria mais barato (para nós que pagamos) e mais saudável para a relação familiar?
Quando as mães trabalham fora, é justo que a creche esteja presente, todavia levar o bebê a este local e voltar para casa sozinha, como ocorre hoje, achando ser o melhor, é o cúmulo.
Será que uma educadora profissional cuidará melhor de seis ou oito crianças ao mesmo tempo, que uma mãe apenas com seu filho, no sossego aconchegante de seu próprio lar? 
A Educadora conseguirá sentir uma "emoção profissional" com a primeira palavra, o primeiro dente, o primeiro reptar, o primeiro passo, mesmo com um "estoque" tão grande de crianças, e tanto tumulto?
Nas creche, tudo necessita ser executado no atacado, como linha de produção, devido ao contingente: uso dos sanitários, alimentação, sono, momentos de estimulação.
Nenhum bebê pode fugir ao padrão, escolher outro horário. Você gostaria de ter sido criado assim? gostaria de sair de casa todas as manhãs, faça chuva ou sol, faça calor ou frio, esteja alegre ou debilitado?
Na outra ponta, os idosos não são beneficiados por creches (ao menos no meu município). Eles, que já não possuem os pais para lhes cuidar, acabam sendo um grande peso para os familiares restantes.
Minha avó, com noventa anos, e demente, tem o auxílio de três profissionais durante a semana, pois seus filhos têm vida própria. Eles cuidam dela nos fins de semana.
A família despende com ela, quatro vezes mais do que ela recebe em pensão (salário mínimo). E onde podemos encontrar o fiel desta balança? Será que estamos refletindo sobre o quanto pagamos em impostos e como se emprega este montante? Não é possível outras opções, além daquela governamental?
Obs.: Entrevistei várias colegas professoras antes de compor este texto. Todas sentem os ombros pesados por educar filhos de estranhos, pois ao menor problema, eles atacam.