11.5.14

blanche LII: Aridez

O inverno se aproxima de soslaio e o ressecamento do solo, de arrasto desde o estranho verão, arrocha ainda mais o cenário pedregoso, levando a vista a alcançar longas distâncias vergonhosamente nuas.
A pastagem amarelada e rala, a suspirar por esmola,  não supre as necessidades alimentares dos equinos, caprinos, ovinos, bovinos, muares e alguns mínimos bubalinos de Riolama, em pânico alvoroçante. 
Já magricelenta, parte dos rebanhos segue em comboio rumo à Corda Bamba, sob miseráveis farrapos de nuvens esvoaçantes, no único branco anilado a marcar o panorama acrômico. 
Resguardando os olhos do solão rutilante, os condutores, dentre eles o determinado Tom, se habitam sob imensos chapéus de palha crua bem trabalhadinha em sofisticados desenhos geométricos.
A toada rala e rastejante segue intermitentemente, com paradinhas abaixo de escassas árvores desfronhadas, quase defuntas pelas constantes podas pro de comer aos bichos. 
No pouso noturno, se valem de taperinhas viúvas à beira da ruivíssima estradiça, entulhadas do nada. Na noite fresca, um céu de transparência doída chamuscado de sóis afasta a esperança de um certincerto abluvião tardio.
A valia dos judiados animais cai abruptamente, e a iminência de mortes é escandalosa. Os condutores, serzinhos tão descomplicados, tentam criar ideias de forças atávicas para próprio uso, expulsando agouros preconcebidos. 
Um tropel de cavalo crioulo desloca uma verruguinha ali negrejando entrecortadamente na noite sertaneja, numa perfuração da estática paisagem: é Peter que retorna em vagia, após negociação árdua de somente parte do plantel. Desaquebrantou a fascinação dos agregados, ávidos por notícia enfatiotada.
Atochados ao torrão duro e recobertos apenas pelas lufadas da cruviana madrugadeira, dormitam até que o grosso da noite se afaste. De supetão acordam todos, estremunhados com o pedante estridular do urutau, num toco estéril. 
Em voz pastosa e bocejos rasgados, vão escorregando os bons dias habituais e cuidando da lida, enquanto o rubro do sol tenta clarear canhestramente o serrote magricela. Uma ovelha tão lanzuda chamada cinhaninha, está de mal a pior, e seguirá montada à burrica, em intensa tentativa de salvação à criaçãozinha. 
O rio orgástico anorexou-se num impotente filete d'água, onde no arrebol, um garoto encardido, com uma cabaça, colhe goles. É prá lavar a ramela da cara dos peões e derreter a rapadura deliciadamente num caldo fumegante. 
Após a tamborilante reza mastigada e dolente, aos punhadões, empurram a nutritiva paçoca de farináceos com jabá e oleaginosas. Um cão enfurecido arrebanha a manada, explodindo em brutalidade, tão delgado pela ausência de caça / alimento.
Num esgar opinioso, o gado emurchecido refuga diante do desapiedado capim seco oferecido sobre um chão semeadinho de pedraria, mais nada. Um dos moleques, correndo desatinado, ataca o  lagarto teiú e salva um futuro almoço ensopado.
Seguiram cabisbaixos e dilatados. Na parada de sol a pino, acocorado ao tronco duma paineira seca, Peter organizava a divisão de folhas verdes à manada mista, bem defronte à capoeirinha cujo facão de Tom mutilara galhos preciosos.
Reses escanzeladas, de ossos pontiagudos a fincar o couro dos quartos, consumiam competitivamente os suculentos brotos que os dois moleques da vila espalhavam pela relva  enxuta e aloirada. 

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