12.6.14

7 contra 1

Nina (90), na porta da cozinha, na serra. Ali, criou 8 filhos.
Minha avó teve sete filhas e apenas um filho (vivos), numa época rural, onde os garotos eram imprescindíveis para ajudar o pai nas lavouras (não havia tratores).
Meu avô, uma exceção, nunca amaldiçoou as filhas. A Nona, mãe dele, era filha de imigrantes italianos, assim como seu marido. Eles também trouxeram esta tradição. Nona era parteira e viu muito pai na hora do parto, dizer que se nascesse fêmea, ele mataria.
É evidente que a torcida do avô por machos era imensa, e pela discrepância nos números, é evidente que minha avó teve mais privilégios que o avô na lida do dia-a-dia. Sempre havia muita ajuda e paparicação nos afazeres domésticos.
A terceira filha do casal, no entanto, detestava ficar em casa, ia para o campo trabalhar com o pai. A divisão do trabalho rural era forte, e meninas não iam à lavoura. Minha tia passou a cortar o cabelo curtinho, usar calçado masculino e foi a primeira filha a coser para si uma calça comprida.
Hoje, ela possui suas terras lá próximo ao sítio da serra, tem 4 filhos casados e 3 netos. É evangélica e proibida de usar calça comprida ou cortar o cabelo; é a mais delicadinha e meiga de todas.
No enxoval de casamento, as filhas mais velhas levavam uma linda cômoda, repleta de rouparia branca, costurada e bordada por elas, uma máquina de costura, um belo vestido de noiva, uma vaca, uma porca e seis galinhas!  

7 comentários:

  1. Nossa, como eram duros os tempos e os corações também!
    Ainda bem que ela soube manter a ternura e criou as filhas diferentemente, mesmo morando no mesmo lugar sempre.
    Já vi história parecida com esta lá nas Minas Gerais da minha mãe, onde religiosidade, morte e família se enraizaram em várias gerações.
    beijos cariocas

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    1. Oi, Alfazema!
      A dureza da vida, desde o nascimento, não dava muita brecha à emoção. O pragmatismo rural fazia parte da luta por sobrevivência.
      Minha Nona tremia quando nas redondezas, durante algum parto, o pai ficava amaldiçoando lá na sala. Nunca nenhum chegou às vias de fato.
      Nos arranchamentos ciganos, sem higiene, a Nona fazia partos improvisados, mas o ritual pelo macho era mais forte ainda.

      Beijoquitas também a ti.

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  2. Que história linda! Meus avós japoneses saíram do Japão, passaram 4 meses em um navio e foram parar na roça no oeste paulista. Lá tiveram 11 filhos, mas 2 morreram ainda bebês. Minha mãe contava que as filhas eram mesmo desfavorecidas em relação aos filhos. Como é importante preservar essas histórias de vida, eu acho fascinante. Um abraço!

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  3. Olá, Raquel!
    Aqui no leste, quase não há descendentes de japoneses, contudo as histórias são sempre parecidas. A Nona contava que ficou dois meses no navio - indo e voltando, conforme a ventania mudava. Ela e o Nono estavam no mesmo navio e não se conheceram lá.
    Quando meu Nono morreu (sogro da Nina - da foto), deixou a fazenda para os 5 filhos, e as mulheres herdaram apenas algum dinheiro, virando empregadas meeiras dos irmãos, após se casarem.

    Outro abração a ti.

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  4. ~ ~ Foram duros os tempos e longa a luta pelos direitos femininos que conduziu à paridade legal em partilhas.

    ~ ~ Gosto das tuas descrições vividas, de um passado recente que parece tão distante!

    ~ ~ Os pioneiros brasileiros, bem mereciam um dia comemorativo, em sua homenagem.

    ~ ~ Gratíssima pela partilha, amiga. ~ ~

    ~ ~ ~ ~ ~ Abraço transatlântico ~ ~ ~ ~ ~

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  5. Boa noite, Majo!
    Nossos pioneiros não são devidamente reconhecidos... esta região recebeu italianos em abundância, seguido de espanhóis, além de uns poucos alemães. Portugueses não conta.
    A questão da herança é tão brutal e tão recente. Até minha Nona, ficando viúva, doou tudo aos filhos homens; passou 40 anos de "del em del", vivendo um mês sob o teto de cada nora, pois as filhas não podiam mantê-la, sem a herança.
    Grata pelos elogios,
    Outro abraço do atlântico oeste.

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