2.7.14

Blanche LIII: Ele se foi...

Numa prosaica manhã outonal, assim nos derrepentes da vida, um trio indígena, exibindo fumaças de nobreza, aguardava na cabeceira da mata. Com estridentes e pressurosos estalidos entreconfundidos, clamavam pelo garoto, que encantonado, se agitou em sobressalto pelos jorros de luz solar.
Era a somenos e descrente semana de Scott, o subserviente e enfarruscado "esposo" de Blanche. Os insondáveis mistérios que os envolvem, voltarão a reinar escancarados na solidão da alcoviteira montanha.
Ela voou até a tulha, o indiozinho excogitava apressado; um ardoroso olhar de filho que ama sem querer, tão comprido e pontiagudo, lancetou-a em mil palavras mudas. Qualquer som é contra producente...
Aquiescendo, azafamou-se à cabana de troncos, colheu vitualha de matula e acrescentou um tapetinho rajado, no formato circular. Configurava uma mandala em tons degradê puxados do branco ao centro, até o negro arrematando as bordas, sem nunca deslindar-se. 
Entregou-lhe a simbólica peça, banhada em bagas de lágrimas, orientando que o tivesse sempre... aquele delicado desenho circular simbolizava a perfeição daquela convivência trimestral, o infinito daquelas trocas culturais e a transcendência daquela amizade rudimentar.
Numa assestada reverência, o menino puramente sensível fez alusão ao querer paternal que dedicava a Tom e Nick, entregando às trêmulas mãozinhas de Blanche duas tornozeleiras fertilmente trabalhadas. A ela, devotou uma mínima estatueta de suçuarana, entalhada minuciosamente em madeira nobre.
Sem sofrear, picou a ressequida trilha num tropel triplo com apoio de cajado, carregando a matula, a tatuagem escarificada, as escanhoadas vestes rústicas e o tapete penso a um ombro. Carregava uma história de cooperação, de compadecimento, de humanidade pura.
A certa altura, prestes a embrenhar-se entre as enralecidas pedras, retrovertou lentamente o corpo num aceno tão afilado e pusilânime, entretanto tão pleno de efervescente comoção. A anfitriã abanou-lhe o avental, e a brisa, abelhuda que só, encarregou-se de agitá-lo compassadamente, enquanto o vulto sumia.
Reaparecendo em verossimilhança bem acima, próximo aos altivos acompanhantes, formou um escultural quarteto aureado pelo contrário sol matinal, já canículo. Espoucaram-se no viageiro batido da mata, restando apenas o fantasmal silêncio e funil de escuridão por detrás.
Cá abaixo, em meio a raios solares ainda mortiços, tingindo de ouro velho o curral, num relance, Blanche voltou-se de soslaio a seu outro desacertado garoto. Desenvolto, ordenhava as cabritas displicentemente, dirigindo-lhes chistes ingênuos e insossos.
Quebrou o  turvo mutismo do dia cascateando em voz lacrimosa e robustecendo de arrosto um possível presságio desdito. Seus olhos saltaram indagatórios pelo vão da janela que dava ao velado. A sagacidade e argúcia do  assenhorado indiozinho se encarregará de cuidá-lo no recôndito ermo.

3 comentários:

  1. ~ Mais um interessante capítulo, emocionante e imperdível.

    ~ ~ ~ ~ Grande abraço. ~ ~ ~ ~

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  2. Eu estava sem tempo para redigir, porém as ideias ebuliam. Este texto deveria ter sido escrito no finalzinho de maio...

    Grata pelo apoio, abreijos!

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  3. ~ Amiga, pensa nos teus proventos...
    ~ Um livro digitalizado, deve render um bom mealheiro...

    ~ ~ ~ ~ Abreijos. ~ ~ ~ ~

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