9.7.14

Blanche LIV: a caça de Nick.

Notoriamente, a dupla Nick e Tom se amofinaram com a notícia da partida do indiozinho. Tom, bem a fundo, ansiava embrenhar-se no sombrio submundo de suas origens maternas. Nick, vocacionado à fruição estética, estimaria conviver alguns dias na reserva, sorvendo profundamente toda a milenar cultura ali impregnada.
Já no enregelante inverno, Nick, em desatinada concupiscência por Tom, ousou desacovardar-se e solicitou, em palavras constrangidas, uma gentiliza à Blanche: que ela descesse à civilização, sob pretexto de estrompamentos constantes. Toda uma semana na deleitável efervescência da pradaria, junto à Eric.
Tal ato, faz com que seja afreguesado por seu venerado amigo, procurando desengastalhar comprazeiramente o reticente relacionamento. E num voo à cabana velha, ajeita meia dúzia de livros e afofa uma almofada em chitão. Arrasta o caixote e escancara a porta, pedindo excelsante ar fresco.
Na ânsia por assenhorear-se da exuberância brutal do amado, o sangue latejava-lhe, rogando aquele homem gotejante em suor pela constante labutação. Supondo-se afrontado apenas pela implacável floresta, fica mais e mais possuído em ferrolhos de delírio e ardor pelo inocentezinho.
A espera infinita: cunha maltratando a fenda... um chá fumegante, as lisérgicas cascas das mini-bergamotas sobre o caixote. Um recender de melissa  bloqueando o raciocínio. A parca mobília em gritos, enquanto  a cruviana a chacoalhar a rede, vai fugindo pela janelinha aberta.
Chafurdando-se em fantasias de lubricidade, que excessivamente lhe assanhavam o desejo da carne, num fremir que punha e dispunha engenhosamente da imagem poética do outro, em devaneios, apalpando-lhe a saborosa quentura do corpo, sugando-lhe o vigoroso néctar dos lábios, sentindo-o na rede, pleno e nu.
Os cães a latir no ar seco e uma teia inacabada refrata a luz. Uma bigorna a esbofetear-lhe o crânio enquanto o coração desce ao estômago; cavalo com bilhão de patas a cavocar vigorosamente o trâmite rumo à montanha. Pujança, moço! Esturra num escandaloso monólogo. 
Mais tarde, defrontando-se com a renhida realidade, a contragosto se encontra numa miuçalha e logo se vê instintivamente mareado pela possibilidade de lapsos e perjuros, dissipando em rezingas a regalia de arquitetar seu ansiado par naquele extenso chão vazio. Vê-se sorrindo sem rir, entre prantos e rejúbilos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.