17.7.14

Falta de educação

Primeiro dia de aula, e trabalhei um livrinho sobre alimentação, sabendo que as crianças voltam desregradas, tanto no sono quanto na nutrição. Na aula de letramento (onde trabalho a função social da escrita), levei uma embalagem de aveia para analisarmos todos os dados, inclusive a tabela nutricional.
Em teoria, já estão craques: sabem elencar os produtos na pirâmide alimentar, também sabem que certos alimentos transitam entre as faixas da pirâmide, como a banana ou abacate com nutrientes de várias faixas, ou uma torta de legumes com frango - alimento completo, compreendendo a três principais faixas.
Sabem que os combustíveis ( energéticos) devem ser ingeridos em maior quantidade para termos ânimo e disposição. Também conhecem a importância dos soldadinhos (reguladores), para brigar com os micro organismos invasores - e quando não estão bem, pode estar havendo uma luta dentro de si... na linguagem infantil.
Os construtores (que propiciam crescimento) são os queridinhos, pois adoram mudar de lugar na fila (seriação). E os super energéticos todas evitam. Sei! Na prática a teoria é outra, como se diz.
Na hora da merenda, fico de olho e percebo que a comunicação oral em sala, a classificação dos alimentos, a literatura infantil voltada ao tema, pouco adiantam diante da má educação familiar. Algumas comem uma folha de alface, outras pegam um tiquin de beterraba que nem suja o prato e outras disfarçam até que eu volte prá sala.
Na merenda, geralmente servem arroz com feijão, carne com legumes e salada. De sobremesa, uma fruta da estação (não todo dia). A verba é mínima e os professores não podem comer para incentivar a turma (em alguns anos, é obrigatório comer com eles prá incentivar, sei lá).
Eu explico que não me alimento com eles por não poder, mas gosto de tudo aquilo (fica vago) e mostro meu lanche: banana com granola (que eles dizem farinha), abacate sem açúcar, bolinho de arroz ou bolo funcional, outra fruta, e água durante a aula.
Ao descreverem o jantar de ontem, ou lanche, ou almoço, percebo que por vezes dou murro em ponta de faca. Eles próprios dizem que não tem fruta e sim bolacha recheada, a mãe não fez janta e pediu lanche, que foram à feira prá comer pastel (frito).
A pouco, fui ler a Companheira e vi o espelho de minha classe. Inclusive, pedirei licença para ler seu texto aos pais na reunião semana que vem. Na minha infância não havia esclarecimento como hoje, mas por sorte não havia tantas besteiras; sobretudo na zona rural.
Minha mãe não variava muito: era arroz com feijão, e de mistura - batata ou ovo e carne aos domingos/ sobras na segunda. Tinha verduras, mas era tabu fazer mais de uma mistura por vez. Se refogava serralha, era só arroz com feijão e serralha, ou chuchu ou abobrinha batida, nada de ovo. Ah, e eu dividia meu ovinho caipira com o irmão, para não gastar e vender o excedente!
Por sorte, tínhamos muitas fruteiras, cana caiana e atacávamos os pomares da vizinhança, assim como algumas roças - pegávamos amendoim, pepinos, ananás e procurávamos frutos nativos feito criança pré-histórica: ingá, maracujá do mato, amoras variadas, araticum, gravatá, jaracatiá.
Andávamos 7 km todo dia ida e volta à escola, comendo o que achávamos pela frente e competindo prá ver quem comia mais unidades, tipo 8 bananas nalgum cacho maduro em meio ao cafezal .
Voltando à aveia, as crianças sabem da qualidade, contudo poucos já experimentaram. As mães compram achocolatados, salgadinhos "isopor", guloseimas da padaria. Nem feijão comem mais; arroz e pão integral custam mais caro, contudo carne gorda e embutidos não faltam.

14 comentários:

  1. Cristina, que delícia ler suas lembranças infantis, que vida boa você e seus irmãos tiveram, mesmo na simplicidade e no pouco, mas muito melhor do que algumas crianças hoje em dia.
    É verdade, canso de ver carrinhos de mães pobre até, com danoninho, achocolatado, biscoitos e refrigerantes, mas quase nada substancial, não comem verduras, alguns nem sabem o nome.
    O chef inglês, aquele gracinha, o Jamie Oliver, vem travando uma luta lá no seu país para ajudar às crianças a se alimentarem melhor e ele esteve por aqui na semana passada, fazendo o mesmo trabalho, ensinando, inclusive pais e professores.
    Gostei do seu post, muito pertinente ao que anda acontecendo em nosso mundo globalizado e cheio de consumo bobo.
    Convido-a a ler meu último post sobre uma pessoa que conheci agora.
    beijinhos cariocas


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  2. Olá, Alfazema!
    Na roça, não tínhamos e tínhamos...

    Aqui no interior, a feira livre é tão barata, e vão lá comer porcaria. A fortuna que gastam no mercado é irracional e venenosa.
    Ótima causa do Olivier, o governo deveria usar melhor a TV em prol desta causa tão urgente.
    Irei curtir mais um de seus maravilhosos posts!

    Outros beijitos caipiras

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  3. Oi, Companheira!

    Estamos sintonizadas nos pensamentos! Entendi todas as suas sensações do texto porque estou sentindo a mesma coisa. Como pode, né? Não tinha parado pra pensar que isso ainda acontece hoje em dia. Como você disse, de nada adianta os pequenos aprenderem tão bem sobre os alimentos na escola, se, em casa, o que vai ter é biscoito recheado e lanche da rua.

    Imaginei você e seu irmão correndo 7km todo dia :) Cheios de energia, pegando uma frutinha aqui e outra ali.

    E, ó, pode usar o texto com os pais dos alunos, sim! Super legal, me sinto honrada! (E feliz, de poder ajudar, de alguma forma. Tomara que eles deem ouvidos e repensem o que estão oferecendo pros filhos.)

    Super beijo! Tenta daí, quem sabe você consegue mudar pelo menos uns deles? :)

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    1. Infelizmente seu caso não é excessão: é regra quase geral!
      Na roça, éramos um grupo baguncento, agregando primos e vizinhos. Numa fazenda onde passávamos, o filho do dono, de vez em quando derramava um balaio de frutas sobre a grama (no chão), para pegarmos.
      Grata pelo texto, vou usar e continuar insistindo.
      Bjs procê também.

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  4. Oi Cristina!
    Não desista dessa sua luta em prol da alimentação correta. Qualquer a "água mole fura a pedra dura" ;-)
    Lembrei-me agora do meu sobrinho/neto... a mãe dele (minha sobrinha) era muito rigorosa com a alimentação... um dia ele foi ao supermercado com a avó paterna e pediu que ela comprasse "bobagem" que "a mamãe não compra" (em frente a uma prateleira de "salgadinhos isopor")e, é claro que a vovó comprou.
    O episódio rendeu uma 'bela' discussão rsrsrsrs.

    Abração
    Jan

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    1. Olá, Jan!
      Tem criança que nem bebe água, tão acostuda com refrigerante, que é uma "água morta".
      Uma besteira na rua, de vez em quando até vai, mas levar prá casa e servir só aquilo, é demais... hoje há tanta informação!

      Outro abraço apertado.

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  5. Salam, Cristina!

    A sua iniciativa é superpositiva em busca de alimentos saudáveis. Nós, muçulmanos, comemos comida "halal", ou seja, a mais natural possível e preparada com cuidado. Não comemos em fast-foods, evitamos coca-cola (até por motivos políticos, rsrsrs). Mas, de fato, carne de porco também não comemos, igualmente aos judeus e alguns cristãos.
    Um abraço e ótimo fim de semana.

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    1. Oi, Denise!
      Refrigerantes são "águas mortas", apenas calorias vazias e venenos. Aquele de laranja, por exemplo, a laranja passa longe dali... são 2% no máximo do suco natural. E tem gente que toma quando está resfriada!
      Já pesquisei sobre os alimentos "halal", realmente são ideais para todos nós, por serem saudáveis, leves e fresquinhos.

      Abraços e ótimo descanso também a ti.

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  6. Ola

    A alimentaçao variada é muito importante e é pena que as crianças comam cada vez pior, influenciadas pela invasao da publicidade. E nao é so no Brasil. Sabia, por exemplo, que Portugal é o pais com maior percentagem de crianças obesas da Uniao Europeia? A tentaçao é muito forte e o aparecimento de produtos novos é sempre algo a que as crianças nao conseguem resistir. Eu tento variar o mais possivel, mesmo assim é pouco. é que aqui nao tem a variedade dai :)

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    1. Olá, Bruno!
      As embalagens, inclusive com imagens exageradas dos produtos, os sabores artificiais carregadíssimos, os corantes berrantes, tudo leva aos maus hábitos.
      Algumas crianças nem experimentam a comida natural da escola, gratuita e fresquinha. Por ser proibido levar alimentos, ficam sem comer a manhã toda.
      Nossos legumes, frutas e verduras são baratos e variadíssimos, basta força de vontade para saboreá-los em detrimento das comodidades.

      Abraço procê!

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  7. São estas desafinações entre casa e a escola que desnivelam o andamento dos bons hábitos.Insista, Cris, teu trabalho é importantíssimo.Parabéns!
    Um abração,
    Calu

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    1. Então, Calu, vou abordar o asunto na reunião de pais, visto que precisamos entrar num compasso!

      Outro abraço, amiga!

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  8. ~
    ~ A alimentação é tão fundamental, na vida de uma criança que deveria haver nas escolar algumas reuniões de formação com os pais e a distribuição de um livrinho com informação
    ~ Se se conseguisse mudar hábitos a 30% , era um sucesso!

    ~ ~ Apesar das dificuldades, o Brasil e Portugal não ficariam mais pobres, se os professores comessem com os alunos, uma vez por semana, a fim de dar o exemplo.

    ~ ~ Detalhes fundamentais no conceito de uma educação integral.

    ~ ~ ~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~ ~ ~

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  9. Foquei a reunião com pais neste tema, e espero adesão.
    Costumo mostrar meu lanche saudável às crianças, para incentivar. Vou bater nesta tecla até o final do ano

    Abração também procê

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