13.6.15

Quer morar no interior? Parte 1


De vez em quando recebo um e-mail com dúvidas sobre a qualidade de vida no interior. A dias recebi um pedido reincidente e aqui vai:
Que interior é esse?
Embora eu brinque, aqui não é bem o cafundó. Estou no interior do coração nervoso do Brasil. Aqui no município há UNESP com dois cursos; há Instituto Federal, uma universidade particular e uma autárquica. Na região há excelentes escolas; meu filho faz especialização aqui ; eu fiz aqui e aqui à distância.
Quais as possibilidades de trabalho melhor remunerado?
Professor universitário, especialista na área educacional (diretor, supervisor), profissional liberal (advogado, contador, dentista, médico...), cargos de chefia em empresas (distrito industrial), pequenos empresários e altos funcionários bancários / públicos.
Não temos grandes empresas, portanto mesmo os cargos de chefia não são devidamente remunerados. Balanceando com o custo de vida baixo da região e vivendo com familiares também no mercado de trabalho, tem-se um bom saldo.

Me dê exemplos:
Vou falar pelos meus próximos. Eu sou professora alfabetizadora, marido possui uma usinagem - reparo em rodas e afins; filho é engenheiro mecânico aqui; meu irmão trata nossa água (SABESP); a esposa dele trabalha no SEBRAE; irmão do marido possui caminhões.
Muitos parentes e amigos, como o marido, são microempresários - vidraçaria / auto som / produtos naturais / salgateria / salão de beleza / boteco / assistência técnica / mercearia / loja de roupas ou acessórios / restaurante rural / feirante / produtor rural / locatário de imóveis / informática / clínica veterinária e fisioterapia/ serralheria / borracharia / reparos de carros e motos...

 vagas de empregos convidativos?
Depende da área e época. Para profissionais liberais, apenas contadores estão em falta. Professores requerem concurso, porém há um contingente elevado para lidar com crianças. A indústria carece de especialistas de auto nível, mas paga relativamente pouco, como já disse. 
O mais lucrativo é achar um nicho de mercado e montar um negócio, porém a carga horária geralmente é grande e funcionário especializado é difícil.
A três meses, o comércio começou a sentir a crise. Os consumidores estão mais cautelosos e temerosos, o movimento caiu visivelmente.

Qual a média salarial para uma vida de classe média baixa?
Com casa própria (herança ou cedida pelos pais), carro e moto (para economizar gasolina) e duas crianças em escola pública (sempre presenteadas pelos avós), um casal trabalhando fora pode viver com três salários mínimos e meio, sem faxineira, nem plano de saúde e com viagens à praia uma vez ao ano, vários passeios regionais. 
Essa é a média salarial da maioria dos casais com ensino médio completo trabalhadores do comércio e indústrias locais (tomando por base meus alunos). Com disciplina, ainda  dá para  colocar algum na poupança. 
Prestadores de serviços autônomos (pedreiros, eletricistas) ganham mais. 

Há viabilidade para dois empregos?
Professores, médicos, pessoas com turnos de 12 h por 36 (carcereiros, enfermeiros e afins), turnos de 8 h seguidas ( 6 h / 14 h) conseguem conciliar dois trabalhos. 
O restante tem carga horária que ocupa o dia todo, mas conheço quem faça "bico" aos sábados. Muitos, mesmo com certo horário livre, se contentam com um único trabalho. 
Eu fico na escola até meio-dia e à tarde na oficina, cuido da casa e família na madrugada e fins de semana, com ajuda de faxineira meio período semanal. 

Há muitas vagas em meio expediente?
NÃO. Só professoras e os casos acima, além de diaristas e trabalhadores rurais que deixam algum dia livre. Quase todo trabalho é em período integral.
A nossa oficina abre de segunda à sexta das 7 h às 18 / sábados das 7 h às 12. Nossos colaboradores sempre passam das 44 h semanais, fazendo horas extras. 

intervalo de almoço?
No distrito industrial, que tem refeitório gratuito, geralmente uma hora. No comércio tem-se 1 h e meia a 2 h, para ir em casa almoçar (ou num restaurante popular). Aqui, come-se arroz com feijão ao almoço (nada de sanduíche). 

Muitos jovens procuram grandes centros para empregos melhores. Tenho sorte em manter meu filho ainda comigo. O custo dele é muito menor morando com os pais.
Ele teria que ganhar o dobro ou mais para viver sozinho nas mesmas condições, nesse caso compensa um salário menor no interior.

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