16.9.15

Conselho Tutelar

Sabe que eu já fui até conselheira tutelar?
Sim, em 1996, quando foi montado o Conselho aqui, eu fiz parte da primeira turma e cumpri meu mandato de três anos.
Tudo era novo: A filosofia "estranha" do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente); o modo de atuar não tão ostensivo do Conselho em comparação ao antigo trabalho desempenhado no Fórum; os problemas sociais gritantes da cidade que saíam de debaixo do tapete...
O povão confundia e vinha querer proteção contra as crianças, pois essas gritavam em seus quintais, jogavam bola em suas calçadas, perturbavam à noite...
Ter que fazer "via sacra" ao Fórum, até então um local sinistro, foi bem tenso. Mandar ofícios ao Juis da infância digitados em máquina de escrever, sem nenhum errinho; ouvir termos técnicos esquisitos; ir ao banheirinho colocar saia e salto para visitar o local...
Sair em noticiário de jornal local, ministrar palestras "praqui e prali", bancar a autoridade e tomar decisões seríssimas.
Cumprir plantões nas madrugadas, ficando na delegacia (a pedido do delegado) como babá de adolescente para que os direitos elencados no ECA não fossem desrespeitados pelos policiais militares (que queriam dar uns pescoções naqueles malandros)...
Em 1996, aqui no tradicionalismo arraigado do interior, foi dificílimo os pais entenderem que poderiam trocar a surra pelo dialogo... Como assim? Não se fala com criança, se corrige e pronto!
Então o bode expiatório desses pais perdidinhos passou a ser os professores. Tudo era motivo de denúncia. Aqueles mesmos professores que até 1995 chegavam a chacoalharar uma criança, num de-repente nem podiam dar um pio.
Entretanto, uma marca registrada do tal ECA  era manter a criança no seio familiar a quase todo custo. Apenas em casos extremíssimos elas iam temporariamente para uma família substituta.
Esse tema voltou à minha cabeça porque desde o início do ano, estamos sendo bombardeados com notícias sobre o "Conselho Tutelar" Norueguês, que em possível arbitragem (?), retira as crianças das mães, inclusive brasileiras, sem respeitar o choque cultural.
Há muitas formas de mudar a atitude familiar sem o trauma de retirar a criança à força. Por melhor que seja o lar substituto, sempre será um imenso ato de violência aos olhos da criança.
Retirar da família o direito de gerir a maternidade de acordo com sua  cultura, e não ancorá-la educacionalmente às leis locais, equivale a desempoderá-la e diminuí-la.
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