22.10.15

Esterilidade voluntária

A ideia do crescimento populacional perpétuo ainda obceca muitos políticos e economistas, que sombriamente advertem para o custo social de um Planeta idoso. 
Na outra ponta, com o possível pico de crescimento humano a ocorrer em meados de 2060, os ambientalistas suspiram por uma Terra verde, com as outras espécies repovoando áreas dantes devastadas. 
Cada vez mais, casais / indivíduos optam pela esterilidade voluntária e mais grupos lutam pelo direito à interrupção voluntária de gravidez nas primeiras semanas.
Pessoas a favor da natalidade, se assustam em pensar que familiares talvez não terão quem olhe por eles na velhice, que a solidão e o vazio atacarão drasticamente sua qualidade de vida na terceira idade.
Convictos da não gestação argumentam que em suas vidas não cabe um bebê, que as atuais exigências da sociedade  nos ombros da  família  (não pode isso, não pode aquilo) e o custos financeiros de uma criança assustam.
Outros optam por investir na carreira, morar fora, rodar o mundo e adiam a maternidade para após os 40. Os riscos inerentes à escolha são altos, pois mulher parideira possui prazo de validade, ainda que tão estendido.
Quando tudo funciona, há que se pensar no tal choque de gerações, na adolescência muitas vezes complicada, que ocorrerá quando os pais tiverem mais de 60. Nessa idade é mais difícil passar madrugadas à porta da balada aguardando a saída do filho ou aceitar (passivamente) mudanças drásticas de valores dentro da própria casa.
Também há pessoas que ficam sobre o muro, lutando entre a generatividade e a esterilidade voluntária: Não realizam ações concretas em prol da maternidade / paternidade, todavia alimentam um desejo quase eterno de gerir. 
A relação ambígua de medo e desejo em experimentar um amor tão absurdamente visceral, quase escravo ou prisional, inenarrável, faz com que adultos de meia idade não aceitem abrir mão da liberdade e ao mesmo tempo queiram preencher aquele vácuo que lhes sobra quando o frescor da juventude passa a esvair-se.
Muitas pessoas tentam  suprir a generatividade com animaizinhos de estimação humanizados. Algumas partem para processos de adoção ou "pseudoadoção" de sobrinhos ou afilhados; outras se afogam em trabalho, cursos, viagens.
Também há "eremitas" de ambos os sexos que não conseguem um parceiro estável para aplacar uma segurança mínima que lhes auxilie na preparação do terreno em prol da fertilidade.
E alheio a todas essas ponderações, o Planeta Terra segue por mais poucas décadas, carregando humanos além do ideal e nos devolvendo os danos daí advindos.
Eu engravidei aos 20, entrei no curso de pedagogia aos 29, fui subindo de servente escolar (limpeza, almoxarifado e afins) até diretora de creche; me pós graduei com vários cursos, retroagi e me estabilizei como professora alfabetizadora.
Nunca tive ajudante, nem faxineira até o Cláudio ser um jovem; marido sempre fez horas extras no trabalho e não lava um copo, porém ele cuidava do garoto nas folgas. Minha mãe "fica na dela"; me ajudou no primeiro emprego após a maternidade, quando o filho tinha de 3 a 6 anos. Todo o resto foi comigo.
Sim, fiquei mais de três anos fora do mercado, sendo mãe, dona de casa e fazendo bicos. Todavia lancei mão da persistência e retornei, me reinventei. Marido e mãe eram contra eu trabalhar fora...
Então é possível viver a vida e criar filho, com certas concessões, porém sem sofrer. Fazíamos passeios apenas com ele; sempre evitamos consumismo. Ele não apresentou problemas sérios de saúde, comportamentais, de aprendizagem. Entretanto, não havia creches suficientes, nem transporte escolar; meus empregos eram com salários quase mínimos.
Foto - Cláudio hoje, aos 30 (eu quero muito que ele viva a experiência da paternidade, por egoísmo).