14.10.15

Visitei a barraca da Cigana!

Na infância roceira, sempre convivi com arranchamentos acampamentos ciganos; no entanto, a fama de maus que eles carregavam mantinha as crianças numa distância inteligente - na época, nunca adentrei uma barraca.
A fama era porque eles furtavam sempre que havia oportunidade, viviam esmolando e rogavam pragas quando nada recebiam, e tentavam vender "gato por lebre" - eram malandros nos negócios de cavalos entre os homens e joias entre as mulheres.
Certa vez, as ciganas furtaram as roupas de minhas tias do varal e as trocaram por galinhas no sítio próximo. Num bailinho roceiro, um adolescente compareceu vestido com o casaco (feminino) de minha tia... Foi uma gafe só. 
A cigana? Já tinha levantado acampamento a dias...
Acontece que o irmão de minha cunhada possui um rancho. Rancho, aqui no interior, é uma pequena chácara rústica à beira do nosso sagrado Jaguari. E acontece, que por acordo, alguns ciganos vivem acampados no rancho, à volta da casa-sede a sete anos. Quatro barracas, todos familiares.
Sempre marcamos almoço de família (do Par) no rancho do João, por ser prático: paga-se um preço módico "por cabeça", apenas com cerveja `a parte.
Nesse último almoço, no domingo, o João nos convidou a visitar a barraca da Matriarca, pois já estava meio que solicitado com antecedência.
Que maravilha! Estivemos com eles, nos sentamos nos banquinhos, respirei a cultura, fiz poucas perguntas (são tímidos). A nora novinha, com um casal de filhos já grandinhos estavam lá (sua barraca é ao lado). Essa nora ajuda o João com o almoço, mas não se mostra às visitas. A menina dela, de 8 anos, foi batizada pelo João - dão muito valor ao título de compadrio.
O João disse que certa vez, por um problema na barraca, um dos rapazes foi dormir na sede. No meio da noite, ele se sentiu claustrofóbico por estar preso em quatro paredes e voltou correndo à barraca.
O piso é de chão tão batido que parece pedra. A lona deve ser bem quente no verão e com chuva de vento molha bastante. Há fogãozinho a gás, porém reforçam com fogo à linha no quintal.
Os "trens" de alumínio (panelas), ah, o alumínio... Brilham feito prataria! Coisa mais romântica. O povo cigano adora brilho, todos possuem placas douradas sobre os dentes da frente. Os vestidos longos e rodados são cheios de rendas e estampas.
Uma mocinha, filha da matriarca, ainda não namora, entretanto logo arrumarão um ciganinho para ela, pois na cultura, casa-se muito cedo em casamento arranjado. 
O casalzinho de crianças é tão quietinho, adoráveis. Não perguntei se vão à escola - certamente estão numa escolinha rural ali perto.
Antigamente as meninas não frequentavam escola. Homens e mulheres possuem papéis bem demarcados. Esse povo descende de indianos e guardam a cultura tão bem.
Hoje em dia, eles vivem de negociar carros velhos e elas vão ao centro mendigar ou vender panos de prato.
Alguns ciganos da cidade vizinha são traficantes de drogas suspeitos e vão à oficina consertar rodas - adoram brilho! Possuem cada carrão... É sinistro negociar com eles.
Os meninos seguem os pais e as meninas, as mães. Se há mulheres nos carros, elas não descem - são muito reservadas e não se abrem para outras culturas.
Obviamente eu não invadiria a privacidade deles tirando fotos. Estamos lá, curtindo a tarde e papeando, a prima do Par à esquerda, cunhada lele atrás, eu de verde, outra cunhada viúva do irmão dele (que ele amava demais) `a direita .
A caminhonete do Par está a dez metros da barraca mais próxima (à direita de quem vê).