29.9.14

Devaneios

Acabo de chegar do poupatempo com identidade renovada (eu nem sabia que vence a cada 5 anos). Amanhã farei uma saída mais cedo da aula, pois tenho agendamento 11 h 00 no INSS.
E acabando com tanta papelada, em novembro devo renovar a carteira de motorista... a gente não tem sossego mesmo.
Volta às aulas após mini-férias; tarde tão abafada, que está incomodativa: 32º, com previsão de chuvas para amanhã e quarta (ela vem chegando devagar).
A escola parecia um praça de guerra, com folhas secas devido a um vendaval de sexta à noite; carteiras amontoadas, visto que os jogadores lá se alojaram. As crianças chegaram sonolentas e logo se animaram.
Das 22 crianças, 5 ainda estão demasiado atrasadas, e justamente elas são as que mais faltam à aula. Crianças cujas famílias não levam a sério a vida escolar, não contribuem na tarefa de casa (com exceção de 1, que tem o raciocínio um pouco lento, apesar dos esforços familiares). 
É uma labuta, pois são crianças que seguirão sempre no fim da fila; costumam carregar a dificuldade em todo o período escolar, e não é repetência que resolve essa falta de interesse e apoio familiar.
Uma garotinha cuja mãe inculcou-lhe que fora abandonada pelo pai (porém a mãe ataca-lhe a pensão alimentícia paga pelos avós paternos) é meu caso mais preocupante. Do nada ela fica apática, chupando dedo e enrolando o cabelo, recosta-se e não há quem a convensa a participar das atividades (no caso de hoje - jogo em duplas). Detalhe: há um meio-irmão de 1 ano e logo virá o 3º (diz a mãe que o anticoncepcional falha sempre); e em breve estarão na escola.
Não se trata de pobreza ou número de filhos, pois tenho outra garotinha d'uma família de 6, oriundos de olaria. Ela apresenta dificuldades, todavia na família  há demonstração de interesse, com oferecimento de suporte mínimo. Ela procura avançar e evolui gradativamente - alcançará média mínima necessária sempre. Raramente ela se ausenta da escola, e apesar da inteligência racional ser sofrível, a inteligência emocional é íntegra.
Daí chegam dados de alguma avaliação educacional comparando-nos a países do 1º mundo, como se as condições, oportunidades, e processo de seleção desde a fase gestacional fossem os  mesmos. Daí o Brasil fica lá embaixo, e com tantos casos de inclusão nas salas regulares necessitando atenção diferenciada...
Depois perguntam por que o Brasil é tão mais violento que o 1º mundo, com uma população tão desigual... Será que é porque lá somente nasce a nata da sociedade? Até  casos de Síndrome de Down são detectados e... São mundos e mundos.
Hipocrisia: deriva do latim e do grego e significava a representação no teatro, dos atores que usavam máscaras, de acordo com o papel que representavam em uma peça.
Que assumamos a passionalidade ou o pragmatismo, porém o façamos por inteiro "de cabo a rabo".
|magem

13 comentários:

  1. Tanta coisa errada na área da educação escolar, Cristina...Não sei como vocês, profissionais, aguentam. Tem que ser por muito amor, porque por dinheiro sabemos que não é...
    Não conseguiria viver essa vida, como não vivi mesmo, há mais de 40 anos "enxerguei" esse descaso e "me mandei" da área. Eu me envolveria emocionalmente com todas essas crianças e as mazelas das famílias...
    Um dó que nossos governantes não levem a sério a questão da escolarização (nem sei se existe a palavra, mas vc entende) e que as famílias estejam "se lixando" também. Quem é punida, afinal, é a própria sociedade, que vai sempre contar com mentes medíocres, algumas até em cargos importantíssimos..
    Beijo, menina, e boas aulas. Você tem razão e sensibilidade...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Lucinha!
      É maravilho e frustrante o cargo de professor. Quando interferimos e o milagra acontece, é um explendor. Nos casos em que emperra à revelia dos esforços escolares, o desespero paira.
      Esta época do ano ficamos assim, desesperadas. É mal de outubro!
      Temos que aprimorar os métodos de contraceptivos, pois os atuais não estão cumprindo seu papel. Crianças vulneráveis podem evoluir para adolescentes perigosos.

      Outro beijão procê. Grata pelo apoio

      Excluir
  2. Anônimo30/9/14

    A diferença é que lá nasce menos gente. Todo ser humano apresenta a mesma reação, em situações diversas, mas quando não há estrutura, a coisa piora. E a falta de estrutura começa na formação familiar: muita gente, muito problema para resolver. País com muita gente, mais problema. Menos gente, menos confusão. Minha torcida é o aborto ser legalizado, as mulheres estudarem mais e o machismo decair no Brasil. E, claro, torcida para que, algum dia, ter filho seja sinônimo de desejar, não de imposição social para se afirmar ora como mulher, homem, ora como família. A maioria das pessoas do mundo inteiro, não deveria procriar. Procriar não é instinto, é cultural.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Anõnimo! Bem vindo!
      Me lembro da infância, quando estava para ser aprovada a lei do divórcio. A mulherada da zona rural entrou em polvorosa, generalizando.
      Pensavam que todas seriam abandonadas pelos maridos em decorrência da lei. Obviamente não aconteceu assim. Entende onde quero chegar?

      Até mais


      Excluir
    2. Anônimo4/10/14

      Não, não entendi....Pode explicar?

      Excluir
  3. Discrepâncias rotineiras seria um título pomposo e até caridoso para constar dos muitos relatórios estatísticos que, sem dúvida traçam um panorama, só que longe de ser fiel aos muitos ditames da realidade em nosso país.A generalização não corresponde à verdade que vivemos.Muitas outras medições e ações pontuais têm de ser acionadas e implementadas antes de haverem dados mundializados sobre a Educação.

    Bjos e boa semana, Cris.
    Calu

    ResponderExcluir
  4. Exato, Calu, e com a natalidade migrando cada vez mais às adolescentes em situação de vulnerabilidade, nossa sociedade tende a discrepar mais ainda do mundo desenvolvido.
    Aqui, o respaldo ao feto envolto em dramas socioeconômicos não tem continuidade conforme a criança nasce e vai se desenvolvendo.
    O que acontece? Aos dez anos estará em vulnerabilidade ainda maior que a genitora.
    A "Lei do Nascituro" que tramita no Congresso, trata o feto como se tivess em um universo à parte; como se ficasse eternamente protegido no ventre materno. e quando ele tiver dez anos, como será sua relação com esta sociedade minimalista que não enxerga além da bariga?

    Exlente semana a ti também, bjs preocupados.

    ResponderExcluir
  5. Cristina, não percebo quando escreves " temos que aprimorar os métodos contraceptivos, pois os actuais não estão cumprindo o seu papel". Parece-me que não se trata de melhorar os métodos contraceptivos, que são os mesmos que aqui, mas sim de educação sexual e mudança de mentalidades, não te parece? Brasileiros em portugal não tem muitos filhos e usam os mesmos contraceptivos. Ai é obrigatório ou existe aulas de educação sexual? Aqui sim, Bjs

    ResponderExcluir
  6. É, Ana, mas quando se trata de adolescentes... elas não têm organização suficiente para arcar com as pílulas todo "santo" dia; preservativo incomoda...
    Passam grávidas aqui na calçada, rumo ao posto de saúde. Vê-se que algo não correrá bem no futuro.
    A educação sexual na escola é sofrível, mas acontece. Eles tem acesso à internet, fazem trocas de informaçoes entre si. Na teoria tudo funciona, porém quando vem a prática (geralmente precoce demais) - gravidez acidental.
    A sociedade protege adequadamente esse feto de mãe vulnerável, mas precisa protegê-lo também quando nasce, e não é o que acontece. Daí tanta criminalidade nas periferias.

    Beijos também a ti, Ana!

    ResponderExcluir
  7. Anõnimo, não consegui escrever lá em cima, o Blogger não deixou...

    Creio que a liberdade de escolha deva haver nos países democráticos, pois cada um poderá discernir sobre si mesmo.
    Previnir é sempre preferível a remediar, contudo acidentes acontecem. E ai?

    Até breve

    ResponderExcluir
  8. Anônimo10/10/14

    Aborto, simples! Se fôssemos mais avançados na lei, se houvesse liberdade de escolha para as mulheres, muitas não teriam filhos, ou não teriam mais de um filho, especialmente as mais jovens. Já é mais do que sabido que nas mulheres da classe média ( católica, evangélica, budista, kardecista, religiões afros, ateu) pertencente a "santa família", a maioria fez, faz aborto ainda na adolescência. A filha de uma amiga, este ano, aos 15 anos, fez um aborto. Foi pago, feito com um excelente médico, numa clínica A+. Se o aborto fosse legalizado, os tais acidentes não seriam transformados em problemática social, no futuro. Com menos hipocrisia, com menos interferência de religiosos na política, o Brasil teria resolvido muitos problemas sociais, inclusive na questão da adoção ( esperam anos para um bebê abandonado ser liberado para adoção, pois aqui o sangue da "santa família" vem antes de qualquer assunto, mesmo que esta "SF" seja uma desgraça para qualquer ser humano, leva-se anos para encontrar um parente para assumir a criança ) Anyway, descobri seu blog por acaso e tenho gostado muito, embora eu tenha pouco tempo livre para vir aqui. Obrigada por compartilhar suas ideias!

    ResponderExcluir
  9. Anônimo10/10/14

    Sobre aborto e direitos da mulher, penso que você vai gostar deste texto.

    E já que você é professora de criança, penso que este texto é pertinente para você refletir: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2014/10/guest-post-educacao-precisa-levar.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Anônimo!
      Estou salvando o link. Este tema é bem apimentado e cheio de tabus. Assumir posições com atitude é bem mais tenso que ficar se equilibrando sobre o muro.
      Na minha prática de mais de 20 anos com crianças, vejo a diferença brutal entre os nascidos e os expelidos. São os últimos que aterrorizam na calada da noite.

      Abraços, e volte sempre.

      Excluir

Desativado

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.