31.8.13

Leste paulista

Recebi um e-mail solicitando informações sobre esta minha região do Brasil. Este país é muito grande, então vou falar unicamente daqui.
Custo de vida:  Os imóveis estão muito valorizados (compensa vender, não comprar). O supermercado também está exorbitante - opte pelos alimentos naturais, pois os industrializados são vistoriados com relativa infantilidade pela ANVISA. São carregados em química, gordura, sal, açúcar... os preços, incompatíveis.
Frutas, legumes e verduras são muito baratos, se optarmos por aqueles de época. Há feiras livres em todos os quadrantes da cidade, variando os dias da semana.
O setor de serviços também está em alta. Numa faxina de 5 horas, pago R$50,00; salão de beleza e afins; setor automobilístico; reparos em eletrodomésticos; construção e manutenção em imóveis, tudo com preços altos.
Turistas / Estrangeiros: A região é turística, mas não se vê nada escrito em inglês, ou atendentes que falem a língua, para facilitar a vida do turista estrangeiro. Não se vê muito turista estrangeiro por aqui, alguns asiáticos.
Moradores estrangeiros também são poucos, eu mesma nunca tive um aluno estrangeiro, e trabalho com crianças a mais de 20 anos.
Segurança: Aqueles telejornais que "pingam sangue" espirram uma sensação de insegurança geral. De vez em quando aparece um "caveirão" aqui para arrumarmos as rodas. As empresas de monitoramento, alarmes domésticos e cerca elétrica proliferam, e vão de vento em popa.
Meu estabelecimento comercial existe a doze anos e nunca sofreu um assalto ou furto. Nunca ninguém invadiu minha casa, contudo arrombaram a do meu irmão e furtaram aquelas coisinha miúdas. Isso é corriqueiro e todo cuidado é pouco.
Há golpes telefônicos de origem distante e ao vivo (tipo bilhete premiado). Estupros? Dizem que apenas em 2013 tivemos quatro casos no município (com 83.000 hab.). Um aumento enorme, mas as fontes não são oficiais.
Drogadictos temos aos montes, todavia muitos não fazem mal a ninguém, ficam andando a esmo pelas ruas...
Faço caminhadas noturnas sozinha, ando de bicicleta de madrugada com o Par, saímos pelas roças de moto e nada nunca aconteceu, porém minha nora (linda) foi seguida por um bicicleteiro.
A omissão da polícia causa mais insegurança que os bandidos em si. Se ligamos, eles mandam chamar o guardinha particular que há em alguns bairros ( que só atende quem os paga, lógico).
Já tivemos quadrilhas de fora invadindo mansões e fazendas algumas vezes (aparentemente da região de Campinas). Furtos de carros sempre existiram.
Escola pública: Na escola onde atuo, aqui pertinho, muitos pais chegam com cada carrão para entregar o filho... são no geral, microempresários do próprio bairro. 
Sempre há alunos tendo casa com piscina e um padrão de vida bom: vão à praia mais de uma vez ao ano, fazem churrasco mais de uma vez ao mês, possuem mais de um carro, planos de saúde.
A maioria é pobre: tem uma casa própria "popular" e ambos pais trabalham. Não temos favelas na cidade, mas diversos parentes dividem o mesmo quintal (dois cômodos daqui, três dali). Uma minoria paga aluguel. Neste ano, tenho um único aluno classe média alta, mas já tive turmas com vários.
Transportes: O carro e a moto são os mais usados; mesmo pessoas sem casa própria têm um ou outro (geralmente os dois).
Ônibus circular é mais usado por idosos e adolescentes. Pessoas de meia idade preferem o moto-táxi, com o dobro do preço e o triplo da rapidez.
A bicicleta é usada por operários homens, pessoal da construção civil, adolescentes homens. Dificilmente uma mulher usa bicicleta, mesmo em situação de lazer. Estranho! Ciclovias não temos, mas há promessa de uma que leve à cidadezinha vizinha (para lazer).
Eu pedalo tranquila aos domingos de madrugada, pois não há trânsito - vou ao centro da cidade, por motivos de segurança (seguro morreu de velho). 
Temos os horários de pico, mas em outros momentos o trânsito é tranquilo, muito mais rápido que o ônibus circular, por isso a opção da população.
Eu uso a moto: é econômica, rápida, fácil de estacionar e pilotar, deliciosa! Evito o horário de pico e ruas muito movimentadas, pois perde longe em segurança.
Emprego: Para mulheres com curso superior, a educação absorve um grande contingente (pedagogia). O salário líquido (livre de imposto de renda) de uma professora concursada que dobra período (dois cargos), gira em torno dos R$ 4.000,00, no serviço público (particular é um vexame). Muitas psicólogas, advogadas fazem pedagogia em vão dar aulas... fácil? Não! De jeito nenhum.
A trabalhadora "por conta" - faxina, estética, setor de alimentos, tem renda maior que as assalariadas do comércio. A empregada doméstica está em extinção, porém a cuidadora de idosos está muito mais presente que os familiares.
Para homens, a microempresa ou trabalho liberal é a melhor opção.  Como empregados, há uma gama enorme; serviço braçal "por conta" é valorizado (pedreiro e afins). Não há grandes indústrias na região, mas muitas médias. O serviço público, como em todo lugar, traz segurança, mas o ganho é baixo.

Saudosa


Imagem  Google


Nesta semana, fiz exames de rotina e me lembrei que há alguns anos, quando eu me dirigia ao postinho de saúde aqui da esquina, tudo era mais simples e prático.
Nesta época, a enfermeira chefe se sentava comigo, analisava os exames, dava explicações e esclarecia dúvidas, numa deliciosa formalidade quase informal.
Se não houvesse nada suspeito, eu não tinha NENHUMA necessidade de passar pelas chatas consultas médicas. Era orientada a refazer os exames em determinada data, e pronto!
Após algum tempo, esta atividade foi proibida pelos enfermeiros. O "bairrismo" médico neste Brasil vem de longa data...
Hoje eu marco consulta, aguardo a data, chego no horário e aguardo, aguardo... fico cinco minutos com ele e recebo a resposta de que tudo vai bem. Santo Deus! Precisa um profissional tão caro realizar um trabalho tão banal?
Com tanta escassez médica nos serviços de saúde pública, é absurdo não se mudar a legislação, delegando mais atribuições aos heroicos enfermeiros, que convivem praticamente submissos aos médicos.
Nesta região aqui, os salários das duas profissões são abismáticos. Não entendo por que um enfermeiro com curso superior, concursado, não possa sequer ler o resultado de um exame médico...
Em diversos países europeus, o enfermeiro tem um papel preponderante na área de saúde, fazendo com que o número de médicos possa ser muito menor.
Com tanta polêmica sobre a importação de médicos, são sei porque esta questão relacionada à enfermagem não vem à tona. Oremos!

29.8.13

Sorvete de macaúba



Esta palmeira é praga (jamais prá mim) nos pastos aqui da região. Cresci chupando esta polpa amarela e degustado esta amêndoa seca, muito seca.
Engastalha nos vãozinhos dos dentes, meleca a palma da mão, todavia quanto mais dá trabalho, mais a gente ama. Esta polpa fervida com leite, além de deliciosa, é medicinal (para os pulmões).
O sorvete de macaúba é tradição aqui no município, e a maior das delícias. E neste inverno esfria-esquenta, minha garganta faliu na sequência: ardência, inflamação, rouquidão (alunos riem de mim).
Quando a primavera chegar, tenho a missão de encontrar um sorvetão de macauba e tomá-lo sozinha (mentira, é também tradição eu e o Par dividirmos o mesmo sorvete).
Palmeira espinhenta, rústica "quinen" eu, aguenta até fogo no pasto. Tão produtiva! Quando o primeiro cacho madura, e solta as bolotas, o segundo e mais outros já se encontram em diferentes estágios de produção.
Ela não se preocupa com boa hospitalidade, aliás te recebe de pedras nas mãos: espinhos - muitos, dos grandões aos miudinhos. Mas a cara de brava esconde um aconchego sereno, que impossibilita a não aproximação.
Vingando entre pedras, nas ribanceiras, e com a sombra longe de si, torna-se um aprazível recanto de deleite, para "quentá sor" nas manhãs frias, e se esconder dele nas tardes ardentes da serra.
Eta cabocla mulata, bonita e de pé no chão! Sua caipirice faz dela um dos meus maiores amores arvoris, deixando para trás, até mesmo seu franzino e romântico namorado - o jerivá.
Ah, e o seu apelido carinhoso  lá na roça é macaúva, assim que gosto de pronunciar!
Jerivá - namorado do macaubeira.
Os dois vivem sempre por perto, um do outro!
Imagens Google

26.8.13

Mingas



Era um senhor que morava na zona rural onde cresci. O chamávamos "Minga"; somente em adulta vim a compreender seu nome correto.
Portador de  deficiência física, devido à paralisia infantil. Uma das pernas ficou atrofiada, ele se locomovia com uma moleta.
Um homem bastante habilidoso e produtivo, quase um "professor pardal". Nunca se casou (morava sozinho), mas uns sobrinhos da cidade passavam as férias com ele.
Não tinham a mesma índole que o tio. Viviam tentando aprontar para cima de nós, crianças da roça; tentavam nos perseguir; gritavam palavras de calão.
Certa vez, o maior (com uns 12 anos) tentou furtar um cavalo nas imediações, interpelado por um transeunte. Nunca mais voltaram lá, pois o tio se sentiu humilhado.
Vivia como caseiro nas terras do tio Antenor (tio de minha avó), e era o melhor amigo de meu pai. Foi a primeira pessoa pobre da região a ganhar uma TV (quando o tio trocou a sua).
Então, sua casinha consolidou-se como a gamela oficial da "homarada" das redondezas. Na roça era assim: tudo que havia de melhor era fornecido ao homens. Mulheres e crianças ficavam com o troco (patriarcalismo).
Toda tardinha, após o jantar (que era sempre arroz, feijão e "mistura"), meu pai pegava a trilha rumo à casa do Mingas, voltando somente após dormirmos.

De vez em quando, o Mingas fazia uma janta: polenta com frango caipira, tatu assado (que os amigos levavam), etc. Todo seu grupo de amigos participava. 
No caminho da escola, uma vez ou outra, eu e minha prima desviávamos a trajetória e adentrávamos o terreiro do tio. Contornávamos a casinha, mas nunca adentrei - tinha muita curiosidade!
Aparentemente eram apenas dois cômodos, anexados à oficina da fazenda. Tinha uma varanda em frente, onde ficava uma carroça.
A casa do tio tinha aquela escadaria imensa, típica de fazenda. Lá, eu entrei algumas vezes com a mãe, inclusive para assistir TV (que era um chiado só).
Após viver na cidade, meu pai continuava a visitar o Mingas esporadicamente, levando inclusive os netos para conhecê-lo. Até que, lá pelos 70 anos, morreu "de repente".

Imagem Google

25.8.13

Aliança

É o nome desta estradinha em terra batida, devido à maior fazenda da região. Fomos de moto, a tarde estava quente e clara.
São 10 km daqui de casa ao fim da estrada (ela não tem saída - vai, volta). Há grupos de garotos passeando de bicicletas, também quero ir, pois quase não há movimento e a via é plana. Uma higiene mental!

Mangueiras gêmeas em meio à terra arada.
 Céu com fiapos de nuvens.
 Açude plácido.
 Igrejinha abandonada.
 Sede da Fazenda Aliança.
 Escura alameda de bambus.
 Equinos.
 Celeiro com janelas especiais.
 Ficheira.
 Primavera.
 Tulha suspensa.
 Outra sede de fazenda.
 Cachoeira aliança.
 Patos selvagens (não dá para ver).
 Mais alameda.
 Árvore pelada.
 Moita de bambus.

A negra senhora idosa



Sobe minha rua. Lenta, séria, parando cá e acolá. Vai de bolsa e sacola. Vai de saia austera e lenço na cabeça. Vai de sapato fechado.
Idosa, talvez quase octogenária... sobe a rua mais íngreme, contudo vem da cidade, sempre à tardinha, quase ao escuro.
A tempos a vi saindo de uma mansão. Na rua de minha tia. Fui questionar - provavelmente é a senhora que trabalha para outra idosa: Mulher rica, branca, morando sozinha, porém acolhida por um filho.
A alguns dias, por volta de vinte horas, a senhora negra saía do mercado, abarrotada por sacolinhas, quase reptando pela noite fria. Estava suprindo o lar.
Mora aqui por perto... será que sozinha? Será que com netos? Tentei um "boa noite" por diversas vezes, tentei um sorriso. Não há brecha.
A quase minha amiga não está para amigos. Será saudável ou convalesce em segredo? Será que lhe invejo a garra? Será que lhe lastimo a sina? Será que aceito as circunstâncias?
A sisuda amiga negra não se deixa atingir, não se deixa abater, não me deixa... a olho e vejo o passado, vejo tanta história, tanta gente branca nestas mãos. 
Começou na infância? Na adolescência? Teve adolescência? Possivelmente não... nem eu a tive! Trabalha hoje pelo dinheiro ou pela lealdade?
Corro a sondar, toda vez que miro a senhora negra. A vejo subir, subir, até desaparecer. A carrego na mente, sem nome, sem atenção.
A negra senhora idosa, na total ignorância, tem uma amiga, a admirá-la, a mirá-la. E continuará a ignorar-me.
Imagem Google.

Férias infantis

    
Me lembro de quando ficávamos em férias escolares, na zona rural: eu, meu irmão, primas e colegas. 
Por vezes, logo cedo, subíamos ao "pastão", contornando o longo corredor das vacas, até atingir o pasto superior à borda da floresta.
Ali havia mangueira, jabuticabeiras (do mato), lima e amoras. Quando a mangueira frutificava, nas férias de dezembro, nos deparávamos com quatis em bando, se deliciando.
Chegávamos de mansinho e dávamos um susto neles! Era só bichinho voando mato adentro com o rabinho prá cima... 
As amoras frutificavam o tempo todo, então nunca perdíamos a pernada. Aquele local era ermo, selvagem, contudo estávamos acostumados e éramos várias crianças.
Tínhamos medo do saci e da mula sem cabeça, mas o pior mesmo era o "adriano lobo". Sabíamos que estavam por lá, todavia nunca nos importunaram.
Em julho havia limas. Era notório que aquelas frutas murchas, que já estavam ao chão, eram as mais deliciosas. O nosso refrigerante em embalagem esférica: furar, apertar e sorver!
As imensas jabuticabas do mato, encontrávamos aos sábados, muito de vez em quando, pois duram pouco tempo ao pé.
Ali, os macacos imperavam. Tão bonitinhos, segurando e chupando. Famílias inteiras, de todos os tamanhos. Morriam de medo daquela criançada. Quando chegávamos, agarravam seus filhos, e a festa acabava. 
Certa vez, demoramos para ir à limeira, e as frutas murchas germinaram. Formou-se um lindo anel de filhinhas à volta da idosa mãe. A coisa mais linda!
Nunca voltávamos pelo mesmo caminho. Descíamos por dentro do cafezal, brincando e nos divertindo, com nossos shortinhos surrados e chinelinhos havaianas.
Geralmente não havia adulto por perto, porém nunca ninguém sofreu acidente grave. Sabíamos nos defender, tínhamos agilidade e leveza.
Escorregávamos barranco abaixo, trepávamos nos pedregais, entrávamos na água. Eram horas ao sabor do vento, observando animais silvestres, sem o menor compromisso.
Em outras ocasiões, encontrávamos novos locais, fazendas vizinhas onde moravam colegas, capoeiras, visitas a alguma moradia afastada. Éramos quase indiozinhos, nestas férias. 

Imagens google.

23.8.13

Cidade Amarela

Em 1998, quando um prefeito do Município iniciou seu mandato de 8 anos, designou a árvore "Ipê Amarelo" como símbolo de sua administração.
A partir daí, empestiou gerou uma monocultura da árvore pela cidade. Inclusive, há um bairro popular com este nome, com fotos aéreas deslumbrantes nesta época florida (o bairro amarelo).
Ocorre que o ipê resolve florescer em pleno inverno, dourando grande parte da cidade. Nas calçadas onde elas imperam, fica a coisa mais linda... aquele tapete louro, onde os transeuntes podem se deliciar (pisando).
Todavia, o que a árvore gera de deslumbramento, gera também em efemeridade... daqui a dez dias (como advertia meu pai), somente restarão os pelados galhos retorcidos. Após um tempo, as vagens marrons e peludinhas dominarão a paisagem.
Por hora, é só curtir: até mesmo os veículos transitam com as flores flavescentes enroscadas pela lataria.

Aproveitei o colorido que reina no bairro, e comprei um chapeuzinho junino (usado) no brechó da igreja, para fazer de cachepô. Custou R$ 0,50.
  Veja os ipês atrás da casa branca, aqui próximo...
 Deslumbrantes e transitórias. Logo se desprenderão, chacoalhadas pela brisa de agosto.
 Aqui, já com as vagens, que no futuro se tornarão sementes.
 Exemplar morredouro, já no asfalto quente, nesta tarde invernosa de 30º, devido à alta nebulosidade.
 Esta está a mais de meio caminho de cumprir sua missão. 
 O atapetado na calçada. Me agrada fazer caminhadas noturnas sobre este amarelão.
 Veja as nuvens, este agosto está atípico. Geralmente é tão seco e de céu azul...
   Até mesmo meus clientes aderiram à primavera antecipada!


18.8.13

Ativista da amamentação

http://luzdeluma.blogspot.com.br/2013/08/por-que-sou-ativista-da-amamentacao-2.html

Esta blogagem coletiva (link acima) me pegou em cheio: eu aqui, me lembrando do Cláudio pequenino, e puf! No blog da Calu encontro um tema tão relevante.
Fui mãe com vinte e um anos e dois meses. De início, tudo transcorreu naturalmente: as mamas cresceram bastante na gravidez, o bico do seio não partiu, o bebê aderiu rapidamente ao ato de mamar.
Após um mês, num domingo, tive febre e dores na mama esquerda, que apresentava estranha vermelhidão. Meu sogro e esposo foram "ao pastinho" colher "erva lanceta".
Fiz um chá com a erva, e banhei muito a mama, deixei uma fralda embebida sobre o seio para que desenflamasse. Não estava adiantando; eu fiquei mole, sem forças, e tinha que cuidar do bebê e todo o serviço da casa. 
Fiquei assustadíssima: como iria amamentar com febre? Faria mal a ele? Então com o que o alimentaria? Eu não tinha telefone, nem sogra, a mãe longe... médico, só na segunda-feira. 
Afortunadamente, uma amiga chegou em casa e me ensinou a virar o bebê com os pezinhos para trás, mamando ao contrário do habitual.
Com o apoio dela, ele foi sugando as glândulas mamárias que não estavam tão ativas e aos poucos fui melhorando. A amiga tinha uma filha de um ano e passara por esta situação. Ufa!
Nesta época, eu fazia crochê "prá fora" e enquanto ele mamava calmamente, no sofá eu ajeitava-o com almofadas, ia fazendo crochê e ele mamando em mim, trabalhávamos em equipe.
Eu conversava ou cantava para ele, e ele dava aquelas paradinhas, fitava-me nos olhos, comunicando-se. Emoção pura! Jamais esquecerei...
Aos quatro meses, o leite diminuiu, e apesar dos chás, sucos, canjicas, cerveja preta (detesto cerveja), tive que aderir à mamadeira no período noturno, pois ele puxava e nada saía das mamas - frustração. 
Além de saudável, imunizante, prático e gratuito, o leite materno era fator de interação afetiva entre nós. Aos seis meses, ele secou de vez e fiquei apenas na mamadeira. Me senti menos mãe que as outras... por uns dias, depois me habituei.
Dava mais trabalho higienizar a mamadeira que o peito, a preocupação em comprar o leite bovino fresquinho todo dia, e reservar para os domingos e feriados, pois naquela época não havia estabelecimentos abertos nestas datas. 
E o que acrescentar? Era hábito não fornecer o leito puro, e certos leites em pó custavam muito caro. Então, até um ano e meio, eu usava um daqueles farináceos que vêm enlatados, e leite bovino integral (de saquinho - que fervia e derramava, lambuzando o fogão, pois longa vida não havia). 
Tudo muito mais trabalhoso que o peito, principalmente nas madrugadas, tendo que ir à cozinha, aquecer o leite (não havia micro-ondas), sujar louça, acrescentar a mistura enlatada (que eu não podia deixar acabar).
Após ele completar um ano e meio, passei a fazer mingau de fubá. Era mais trabalhoso ainda, pois necessitava cozer bastante, e a preocupação com o sistema digestório dele (que sempre foi bom) ... até que aos três anos, ele passou ao leite no copo. Até os 25 anos de idade, tomava um litro por dia.

Blanche XXXIV

*  Aqui  terá o conto completo!

Após o abalo emocional com o passamento de Tibiriçá, a semana fugira. Eric se foi após o acalantamento fragilizado de Blanche. Ela não declinou junto a ele, devido a duas frágeis cabras que aguardam parição, e nesta noite haverá mudança de lua.
Nick, todo aguerrido, surgiu empolgado com a noticiazinha do inusitado cotiguaçu. Ele é todo combalido pela cultura indígena. Blanche logrou o ensejo para acompanhá-lo e esmiuçar a mística vivenda do ancião.
Anteciparam o trabalho e desceram cautelosos, com a merenda: frutas passas e paçoca de carne seca com farináceos; por sobremesa, a amarguinha rapadura de cidra. Passariam várias horas no lesivo despenhadeiro.
Deixou que o  excêntrico Nick explorasse a alegórica ruína das viúvas, aproveitando para coletar especiarias na horta abandonada. Colheu delicadamente ricas sementes e deixou tudo à beira da trilha, para apanhar na volta.
Ofuscado, ele percorreu cada lapa, vistoriou cada desenho nas paredes, cada artefato. Na catacumba das múmias, horrorizou-se com a quantidade de infantes, embrulhados em tecido, agachadinhos como um punhado. 
Blanche, por fim conseguiu arrastá-lo rumo ao índio isolado. Reptando por entre as indóceis pedras, chegaram à pequena curva. Avistaram abaixo, o corpo tão magérrimo, mumificando-se ao sol, esvoaçando longos fios de cabelo cinza, através da brisa.
Depauperado, Nick, o pensador, saudou longamente aquela alma, solicitando a visita. Após a prece, seguiram na veredinha, até o complexo de cavernas talhadas no barranco. Um fascinante mundo se descortinara.
Havia rica cestaria em taquara, com diversos tamanhos, formas e modelos de tranças. Túneis interligavam os antros, com escadaria esculpida na fria terra lisa. Armadilhas e bodoques denunciavam a dieta de caça.
Uma das salas jazia repleta de peles, acusando ser o dormitório. A forma de curtimento do couro era similar à indígena, porém na caverna não havia utansílios em terracota. A arte do cotiguaçu era reproduzida em minúcias.
O inhame assado repousava num cestinho, aguardando paciente pelo possuidor. No terreiro, não existia traços de domesticação animal, nada obstante um roçado erguia-se viçoso em meio ao rego d’água puxado por Tibiriçá.
Blanche, sedenta, correu ao fiapo d'água, e aparando uma folhona de taiova com o líquido prateado, relou seu beicinho e sorveu. Na segunda leva, deixou o excedente para aguar a tosseira de melissa.
Voltando, notou sobre o fogareiro de pedras, apagado, um varal em cipó que acomodava a caça em processo de defumação. Até mesmo as tripas eram aproveitadas pelo ancião: enchidas com ar, dançavam ao toque do vento.
Nada de apetrechos ritualísticos, oferendas, xamanismo... viveu todas essas décadas sem cozer, apenas fazendo fogo e assando à brasa. Uma faca “de branco” era o único ferramental forasteiro na casa do asceta. 
A vista abarcava deslumbrantemente o vale, a leste e a sul. Com o sol decaindo, hora de retornar. Caminhada longa, ziguezagueando penhasco acima, a admirar a secura limpa e dourada desta estação fria. Nick, em êxtase, despediu-se cerimonialmente do (agora amigo) aborígene.

16.8.13

Aulas de música

Este musicista abaixo, é uma pessoa muito conhecida em minha cidade. Além de trabalhar com música, a alguns anos ele se formou em fisioterapia, numa universidade daqui mesmo do Município.
A questão diferencial é que ele nasceu cego, cursou escola pública (com apoio direto dos familiares), tornando-se um cidadão carismático, atuante, respeitado, um patrimônio vivo.
A dois anos, ele ministrou uma palestra para nós, professores, sobre o tema inclusão: suas dificuldades, as dificuldades de seus professores e de seus familiares, o apoio dos colegas estudantes.
Na prática, como é previsto, surgem muitos empecilhos à inclusão, que os teóricos adeptos não admitem jamais, apenas quem sentiu na carne pode academizar.
Neste ano, ele iniciou um trabalho em nossa rede municipal de ensino, com professores, e também diretamente com as crianças, sobre música. Hoje foi a primeira vez com meus 20 miúdos. Amaram!
Toda sexta-feira, faço bailinho com eles, ao final da aula. Tenho aquela caixinha de som do tamanho de uma maçã e cantigas infantis em pen drive. 
Não é a mesma coisa que música ao vivo com  um profissional e seu violão. Ele utilizou também em sua aula, a bandinha da Escola e sons corporais. Para casa, vão fazer um chocalho e guardar para o próximo encontro.
Se falei sobre a cegueira? Aguardei a reação deles. Quando fomos avaliar a aula, um dos meninos perguntou porque ele apenas olhava para cima, e não para eles.
Uma garotinha colocou a possibilidade da cegueira, pois lembrou-se de que ele me pediu para fechar a porta, que eu já havia fechado.
A terceira criança lembrou-se da andorinha cega, um livro infantil que li a alguns dias. O tema gerou um ótimo debate sobre deficiência e eficiência (o caso dele).
Ficaram intrigados em saber como ele voltaria para casa dirigindo. Respondi que não há como, ele usa táxi ou a carona de alguém.
Também surgiu a questão das cores, e adentramos aos órgão sensoriais, que estamos trabalhando em ciências.
Apaguei a luz e pedi que todos se locomovessem de olhos fechados, tocando a si próprios. Foi uma aula prá lá de proveitosa.