14.11.15

O mais vulnerável

O meu aluno F é o mais velho da turma; é filho de uma mulher deficiente intelectual e a família não faz ideia de quem seja o pai.
A avó é tutora da mãe e consequentemente, dele. A irmã mais velha engravidou na adolescência e a sogra a acolheu - vive sua vidinha com o bebê, num bairro distante.
Por grande sorte, nenhuma das duas crianças herdou a deficiência; entretanto, a avó necessitou brigar para que fizessem a laqueadura nessa mãe, que sumia uns dias e voltava grávida, assim do nada.
Uma senhora forte, cuidadora de uma idosa no período noturno. Frequenta "bailão" na sua folga de domingo à noite.
A tempos atrás, uma das "coleguinhas" passou a lhe encarar no baile, ela se irritou e jogou a dama no meio do salão, segurando-a pelo "colarinho".
O tio solteiro, segundo o próprio menino, não trabalha e vive pelos becos com os "nóias". Um tio melhorzinho morreu a dias, atingido por enorme pedra, na pedreira onde trabalhava.
A vila nova onde estão morando é um aglomerado de inúmeras casinhas populares, umas empoleiradas nas outras. Os policiais já apelidaram o bairro de "Cidade de Deus". Não presta fazer casas populares todas num só canto, precisa espalhar!
Enquanto F dá trabalho em sala de aula, eu o incentivo a exercer um dom que notei: Desenha muito bem - e gosta do que faz; se acalma e se concentra.
Tenho falado com ele sobre o ofício de pintura em letreiros, fachadas de lojas, customização. Até chamei uma professora que já exerceu essa profissão a tempos para estimulá-lo. 
Esse menino precisa de um norte o quanto antes para salvar-se do poderio das drogas, no meio em que habita. Precisa saber sonhar com o possível!
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