30.11.13

Saindo de Minas

Ainda na pousada, um integrante da equipe pediu café e correu acrescentar leite cru, direto da vaca.
Brazópolis tem muitos bananais, veja atrás do retiro.
 Minha nora segura a amora, daquela com a qual eu fui criada. Esta fruta silvestre adora montanhas frescas.
 Saindo da pousada sobre a ponte, ultrapassando ciclistas. Iremos romper a montanha para alcançar o estado de São Paulo novamente. Vai ser bruto para as bicicletas...
 Mais água cristalina nascida por perto. Não é à toa que a Mantiqueira é a "serra que chora".
 A subida da estrada está boa porque a dias não chove... contudo é aqui que a outra equipe de jipeiros encravará na volta, após chover na tarde de domingo.
 Gado, bananas, vilarejo encravado num vale, e muitas montanhas. Eu fiquei completamente encantada com aquele vilarejo belo.
 Os peregrinos que seguem a pé, devem romper tudo isto, inclusive com gado solto (e chifrudo).
 Pico rochoso magnífico, por detrás da pousada "Dona Inês"! Na próxima, quero dormir aqui para curtir a vista. Fones: (35) 9905-9051 / 8421-4495 (peguei um cartão).
 E vamos logo que já é tarde, após darmos alimentos aos ciclistas... todavia eles levam carro de apoio; até grupos a pé levam seus veículos para emergências e para conforto.
Entraremos no município de Campos do Jordão agora...

28.11.13

De Paraisópolis à pousada "Dona Inês"

Chegamos em  Paraisópolis, às 16 h 00, após sete paradas. Procuramos o hotelzinho onde tínhamos reserva. Estava lotado, e um acompanhante que decidiu de última hora, teve que ficar num quarto sem sanitário, usando sanitário coletivo num piso com "candangos" (trabalhadores de empreiteiras). É o ônus dum feriado após tanto tempo...
Após um banho, caminhei a pé com o Par. Cidadezinha emoldurada totalmente por montanhas; o centro cheinho de casarões centenários.
Estávamos sem almoço convencional (fizemos piquenique), então jantamos comida mineira self service (torresmo, mandioca frita e tal).
Acordei pouco antes das 4 h da manhã e passei a observar o som dos sinos de duas igrejas, que competiam entre si. Às cinco horas tomamos nosso banho e começamos a levantar acampamento. Fui interfonando nos outros quartos às 5 h 50. Após um bom café às 6 h 30, partimos novamente.

Manhã bonita, e paisagem pastoril o tempo todo.
 Mantiqueira a perder de vista lá atrás.
 Sempre as pastagens.
 As setas transmitem segurança, pois há tantas bifurcações...
 A equipe empoeirada. Deixar vidros abertos é impossível, e ar condicionado é necessidade.
A turma que vai de jeep Willys pena...
 Cachoeira com piscina natural, num cenário paradisíaco impressionante!
 Morada isolada, contudo nova e bem cuidada.
 O primeiro de um grupão de bicicleteiros ciclistas. 
 Morraria entre Minas e São Paulo, município de Brazópolis.
A pousada simples onde compramos bananas chips e docinhos de banana. Havia um grupo de ciclistas nipônicos aqui, oriundo da capital paulista (talvez 7). À esquerda há quartos com sanitários; a vista é absoluta, intensa. Foi uma excelente parada, com direito a leite ao pé da vaca.
Há grupos de peregrinos a pé que fazem o caminho à prestação: vão dividindo as etapas em vários feriados prolongados, ao longo do ano. Cumprem a meta sem atropelo.
Para jipeiros, fazendo o percurso a partir de Águas da Prata, não aconselho dormir em Paraisópolis, pois a jornada ainda é longa. Deve-se sair antes das 7 h 00.
No mínimo, deve-se considerar esta pousada, após aqui, há um trecho quase desértico. Pode-se substituir as sete paradas que fizemos por quatro, com a quinta em Paraisópolis (as paradinhas para fotos não contam).

24.11.13

De Consolação a Paraisópolis

Um dia antes de nós, quase cinquenta jipeiros (só homens) aqui da cidade seguiram pelo caminho, fazendo "aquela" arruaça, como em todos os anos.
Ao voltar, sempre por terra (teimosos), receberam chuva e ficaram presos num trecho bloqueado do caminho, apesar da tração.
Os últimos chegaram por aqui, às cinco da manhã de segunda-feira. Devido ao fato, vários estabelecimentos não funcionaram, pois são na maioria micro empresários.

Aqui, após tanta subida, iremos voltar a descer.
Paramos numa venda à beira da estrada e não resisti aos varais coloridos esvoaçando ao vento. 
Há muitas vendinhas rurais pelo caminho e os preços praticados em toda a região são ótimos, com exceção de Campos do Jordão e Aparecida do Norte.
 Este caminho abandonado é instigante, herança de outras épocas.
 Aquela casinha no morro, sozinha... sem nada por perto. Há moradores?
 Aqui, o vale se desmancha lentamente, numa vista magnífica.
 Região bem povoada, de estrada boa, sem pó.
 Acima, a estrada em que estávamos, e mais um regato cristalino.  
 Voltamos a subir, subir, e encontramos este girassol perdido antes da curva.
Cães de rua em Paraisópolis, ao amanhecer (dei água para eles).
 Fachada típica do centro da Cidade.
 Outra fachada, às seis da manhã (cinco).


Blanche XLIV

*  Aqui  terá o conto completo!

O enfermo hóspede de Blanche continua o relato visceral: neste quase verão, a chuva esteve persistente, ora brava e rápida, ora fina e gelada, incomodando os meninos perdidinhos. Nas tempestades elétricas, onde raios e trovões pareciam digladiarem-se constantemente, o medo sobrepunha-se ao desconforto.
Muitas madrugadas gélidas e encharcadas passadas ao pé de grandes árvores, impossibilitaram o sono dos demais. Ele próprio vivia apenas em sobressaltados cochilos devido à inquietante dor, pela falta de devido repouso.
Abrigos ruins, urdidos com meras folhas de palmeiras, o aperto da fome pela ausência de caça, os intensos e constantes gemidos do líder, deixavam o grupo cada vez mais lúgubre.
A dificuldade em fazer fogo era imensa, na falta da providencial pederneira. Poderiam inclusive, assar bananas verdes, pois há algumas moitonas de bananeiras à beira do regato, de quando em quando. 
Evitando ataques dos algozes mosquitos, carrapatos, formigões e marimbondos, untavam-se em argila bem espessa, para seguir arrastando o ferido. Foram perdendo os adornos, inclusive o sagrado dente de suçuarana que carregam no septo nasal.
Túnicas, tangas, diademas, pulseiras e colares, assim como os brincos de penas, foram extinguindo-se pelas infindas trilhas sinuosas e escorregadias. A exaustão apenas permitia repor as obrigatórias e lindas tornozeleiras, trançadas com emplumação.
Sem veneno para a zarabatana, perdiam pequenos veados, capivaras, pacas, ouriços, macacos, quatis, gambás, peixes e muitas aves. Clavas improvisadas quase não surtiam efeito, devido à imperícia no uso.
Os frutos ainda estavam mal granados, de mal com eles, restando palmitos, cana de açúcar, coquinhos e jatobás, que por vezes, levavam consigo. O mel para o ferido, extinguira-se gradualmente. As cascas e raízes eram amargas e arranhavam a garganta, causando por vezes, dores abdominais.
Um pressentimento inexplicável acelerou a marcha tormentosa, ao primeiro som penetrante da flauta longínqua dos índios isolados. As contingências desalentosas embargavam o esforço ingente pela alegria, apesar da exuberância local.
Macacos de várias espécies faziam travessuras na copa das árvores, mães carregavam bebês às costas, saltando distâncias incríveis, liderados por um velho grisalho, dependurado em cipós. Avistando o quarteto, fugiam em ensurdecedora algazarra.
Pássaros agitados, de todas as nuances de cores, e de tamanhos diversos coalhavam o céu, com cantos dos mais variados timbres e entonações. Seus ovos nos ninhos eram chupados fervorosamente pela equipe esfomeada.
Um furinho com uma pedra, bem de jeito, na ponta do ovo, e a retirada das lasquinhas de cascas... delicado como quem cuida de neném. Então é só sorver, engolindo depressa para afugentar o mal gosto.
Certa manhã, com o grupo já em marcha, um rebuliço invadiu o esplendor selvagem do regato. O cão, em bravura, enfrentou sozinho um grupo de caititus, em sinfonia grotesca, enquanto os garotos se evadiam com a maca.
A brutalidade das cabeçadas, mesmo durando poucos minutos, rendeu-lhe rasgos medonhos. Alcançou seus donos exausto, pingando sangue; a judiação incomodou a ponto de ser sacrificado.
Num rompante, a clava atingiu-lhe providencialmente o crânio já vermelho... último grunhido selou os pormenores da catástrofe, enquanto estrebuchou por míseros segundos.
Amarfanhados e taciturnos, os meninos friccionaram estrategicamente um graveto até obtenção do fogo. Conseguiram um magro e repugnante churrasco fúnebre; em último e providencial auxílio canino, encontravam-se agora esfaimados.

23.11.13

De Inconfidentes a Estiva

Já percorremos Águas da Prata, Andradas e Ouro Fino. 
Agora postarei algumas fotos no percurso que envolve as cidadezinhas de Inconfidentes, Borda da mata e Tocos do Mogi.
Passamos pelos municípios, mas não propriamente dentro das cidades. Nestas serras, os municípios são grandes e as cidades pequenas (muita zona rural).
Esta árvore economizou nas flores. Há inúmeras plantas pelo caminho.
 Entrada em inconfidentes. 
 Parte do povo enchendo a pança... como comem! Eu fiquei com as ameixas passas.
Dentro da cidade, é imprescindível seguir as setas, porém elas levam até o posto onde se carimba credenciais antes de sair da zona urbana.
Gado pelo caminho. É fundamental estacionar bem à margem e desligar o motor. Eles não nos atacarão, mas podem se assustar e tentar varar a cerca, machucando-se.
Os peregrinos a pé devem agir da mesma forma. Já cruzei com gado de moto e bicicleta e é tranquilo.
Percurso pacato do início ao fim. Em nenhum momento vimos algo suspeito, ou alguém estranho. O povo local cumprimenta e puxa prosa.
Deixando Borda da Mata e entrando em Tocos do Mogi. Este ponto de ônibus no meio do nada é o marco. 
Eu com a colega modernosa.
Fizemos piquenique aqui. Há diversos adesivos das equipes e mensagens de apoio, pois a morraria foi braba (para os não motorizados). 
A vista é bela para todos os lados deste espigão. O sol estava a pino e só havia a "casinha" do ônibus. Que ônibus?
 O gado veio pedir cascas de bananas, estão acostumados com romeiros lanchando aqui.
Banheiro? Atrás das moitas, um por vez. E galões com água para "benzer" as mãos, ao modo rústico e bruto.
Estes passeios me trazem subsídios para compor a "Blanche"!

Corda

Com a mudança do ensino fundamental para nove anos, estamos aprendendo a lidar com este público mais jovem, que antes pertencia à educação infantil ( cinco anos e meio, seis anos). 
Nos últimos meses, estive ensinando a turma a pular corda, todavia a garotinha K. não havia meio de perder o medo.
Ela ainda não tem sete anos, porém é esperta e madura. Tem um lado social/sexual avançadinho e boa coordenação motora. O que faltava era a confiança em obter êxito pulando corda.
Aqui, estamos treinando "cobrinha" na sala de aula, antes de seguir à quadra. Eu e a aluna mais velha, chacoalhamos a corda para ela se deslocar para cá e acolá.
Não estava funcionando, pois na maioria das vezes, ela colocava uma perna antes da outra e só ultrapassava, sem realmente pular.
Então tive a ideia de fazer mímica como eu fazia na creche: bater corda sem a corda física, só de mentirinha. 
Duas coleguinhas estão "batendo" e ela desandou a pular com tal desenvoltura, que a classe toda ficou espantada.
A alguns dias, um colega esteve com ela num aniversário, e disse que ela pulou sem parar, com corda verdadeira. Sinal que a aprendizagem se consolidou.
Aquele "galeiozinho" que eles adquirem após um tempo, abandonando o "salto esparramado", é um avanço crucial na psicomotricidade.

22.11.13

Blanche XLIII

*  Aqui  terá o conto completo!

Ao arrebol do domingo, um desjejum com mingau para o trio de indiozinhos debutar a jornada à absorta reserva, que se avantaja para oeste. Perlustrarão a miríade e implacável trilha, que deslocou a cunhãzinha Noru e outros silvícolas ali mergulhados violentamente antes dela. 
Ração de carne defumada, rapadura de abóbora, farináceos e frutas passas a decantar a jornadona de tripla diária. Nova pederneira substitui a que rolou pela ribanceira com o guia. Arcos e estoque de flechas foram apetrechados ontem, assim como a zarabatana. 
O fraco garoto comandante albergar-se-á com o escopo de recobra da calamidade. Nick se foi ontem, aflitozinho com possíveis sequelas na quebradura... o risco de gangrena pela fratura exposta foi extinto, pois a febre cedeu. Resta saber se a solda deixará o osso defeituoso.
O ferido, todo ele acabrunhado, se exonera do desprendido trio, que segue bem antes do primeiro raio solar. Animais silvestres mantém a trilha aberta e fresca; bulícios e vultos do grupo se apagam gradualmente no cerne da mata. Foram-se!
O chefe enceta o relato à Blanche sobre o debilitante martírio, quando desvalou-se no penhasco, prostrado ferido na cava do assombroso vale, segregado ao lado dum poético regato correntoso e acachoeirado.
Fora resgatado devido ao importante posto de líder, outro integrante da equipe seria abandonado à míngua. Não se trata de maldade, é propiciatória tática de sobrevivência, pois necessitaram dois dias para o difícil resgate do ermo medonho.
Alterando a vereda, pela impotência em subir uma maca ao despenhadeiro,  extraviaram-se no espesso sertão bruto, se embrenhando na direção oposta à reserva, e próximo aos terríveis silvícolas isolados que vivem em plena idade da pedra.
Naquelas traiçoeiras brenhas do vale, transmudaram a vegetação emaranhada, com magnificente cipoal denso e árvores espessas de altura respeitável. Animais ferozes espreitavam em lacônica advertência.
O cruel sofrimento do cecerone, solavancado na maca, arrebatava seguidos desmaios. Na obscura luta pelo resgate, perdeu-se armas e mantimentos, sobrejando apenas o facão, que custou a ser resgatado.
A fome apertava, conquanto estavam habituados a ingerir insetos e castanhas de palmeiras, afarinhados frutos do jatobá, raízes e cascas de árvores. Riachos não minguavam, e por eles a equipe seguia.
O guia contudo, sobrevivera por semanas com meramente água e mel, sem comer ou dormir (arrancava cochilões), pela dor dilacerante e persistente. Em agoniada sofreguidão, abortando peso e ânimo.
Arrostou e solicitou a morte intermitentemente...
O cãozinho que sempre os acompanhou também emagrecera drasticamente, porém alegria nunca lhe escapava. Perseguia pássaros infantes, com corridinhas e volteio, grunhidos e latidos, tapeando os pobres; caçava pequenos animais e comia abundantes espécies de sapos à beira d'água.
Sem a pederneira para as fogueiras noturnas, que tanto apreciava, aninhava-se entre folhas secas, formando uma simpática bolinha preta, seguindo com as orelhas, a contínua bulha da floresta hostil.
De pequeno porte e agilidade indecisa, com longo rabinho peludo e olhar faiscante, como quem nos enxerga o cérebro. Era o achador de ovos para todos, menos prá si próprio... recusava-se à iguaria impalatável a si.

Da Barra a Ouro Fino

Seguimos pelo Caminho da Fé, várias vezes sobre espigões de onde se via os vales por ambos os lados. O campo de visão era infinito e profundo.
Tenho um primo, e o "Par" tem um sobrinho que fazem o caminho como ciclistas, todo ano. Nunca souberam de assalto ou maus tratos a peregrinos, porém nos trechos próximos à Aparecida, necessita-se mais cuidados.
Cortamos vários bairros rurais. Neste, a nova e bem cuidada igreja é absurdamente desproporcional ao vilarejo.
Pequenas fazendas com criação de gado é o que prevalece. É inviável agricultura mecanizada em meio a serras e mais serras.
A setinha amarela no morão da cerca dá o norte nas encruzilhadas, pois o GPS com o caminho salvo não foi confiável.
Muitos regatos escondidos entre capoeiras, que surgem de nascentes próximas, com águas cristalinas.
Placa indicando que estamos próximo ao perímetro urbano de Ouro Fino. 
Moradias serenamente instaladas num vale, atipicamente sem cercas de arame. Quem serão os moradores? 
Há também cavaleiros que fazem o Caminho da Fé, mas este não é o caso, apesar de que o pessoal da região tem substituído o cavalo pela motocicleta.
Estátua "Menino da Porteira". Não vejo graça neste monumento... sabe-se que a palavra "Ouro Fino" foi inclusa na canção apenas para rimar com "menino", embora a tragédia citada fosse mesmo corriqueira no sertão.
Igreja no centro da Cidade. Ouro Fino é uma bela e antiga cidade mineira, com o centro repleto de casarões centenários: pacata, pequena e deliciosa para uma diária relaxante.
Bem mais adiante, a cerca de três anos, um médico foi picado por abelhas (era alérgico). Ele caminhava sozinho (não se recomenda jamais) e não havia levado antialérgico. 
Quando foi encontrado por um padre, também peregrino, já agonizava... e não resistiu. Construíram uma capelinha em sua homenagem.